“Estava de cabeça perdida, julgava que ele e a minha mulher tinham uma relação há mais de 15 anos e nesse dia decidi matá-lo”, conta Norberto Rodrigues
Norberto Rodrigues, reformado de 66 anos, confessou no Tribunal de Setúbal ter matado a tiro de caçadeira Florival Pereira, comerciante de 72 anos, no parque de estacionamento do Mercado de Sines por acreditar que a vítima e a sua mulher, casados há 40 anos, tinham uma relação há mais de 15 anos. “Estava de cabeça perdida, julgava que ele e a minha mulher tinham uma relação há mais de 15 anos e nesse dia decidi matá-lo, levei a espingarda e assim que o vi disparei, nem me lembro quantas vezes”, disse o arguido, acusado de homicídio qualificado e detenção de arma proibida.
A juíza do Tribunal de Setúbal leu um por um os pontos da acusação do Ministério Público, tendo o arguido desmentido alguns, como ter esperado quatro horas no carro pela vítima e ter-se deslocado ao interior do mercado para matar a mulher depois do homicídio de Florival no parque de estacionamento no Mercado de Sines às 9 da manhã de 19 de agosto de 2025, causando pânico entre comerciantes e clientes.
“Nesse dia, levei a minha espingarda para o mercado, onde ajudava a minha mulher na banca, e tinha a intenção de matar o Florival, mas não sabia que ele ia lá, tinha apenas uma perceção porque ela ia ser operada e ele podia ir lá para se despedir. Pelas 9 horas, quando estava no carro à procura duma trincha para limpar a banca, vi-o no carro dele à minha frente, peguei na espingarda e disparei, foi tudo muito rápido”. O arguido desmente que tenha estado sempre no carro, desde as 5 horas à espera da vítima e confirma ter disparado contra esta quando a viu.
Consumado o crime, o MP diz que o arguido se dirigiu ao interior do mercado à procura da mulher para a matar, o que este nega. “Eu estava decidido a matar-me e fui à procura dela para lhe deixar as chaves de casa da minha mãe, de 91 anos, a quem levava o almoço todos os dias, não a queria matar”. A juíza retorquiu, “mas foi armado para dentro do mercado para deixar as chaves?”. Norberto confirmou, mas negou que fosse para a matar. “Então e não deixou as chaves?”, retorquiu a juíza, obtendo como resposta um encolher de ombros e um “não sei”. De volta ao exterior, o arguido confessou ter disparado mais um tiro contra o pescoço de Florival, que já estava prostrado no chão.
Norberto fugiu do local e disse que se ia matar junto de Porto Covo, mas não conseguiu porque não chegava ao gatilho da espingarda apontada ao seu coração e por o seu filho ter contactado para se entregar. “Eu lamento tudo o que fiz e estou disposto a pagar pelo que fiz”.
O MP descreve na acusação, baseada na investigação da Polícia Judiciária de Setúbal, que o arguido agiu motivado por “ciúmes e vingança, de forma metódica, fria e calculista, mostrando-se imperturbado durante todo o espaço temporal decorrido desde a visualização da vítima até ao último disparo contra a mesma quando esta já se encontrava a agonizar”.
O arguido concordou com a descrição e questionado sobre se tem noção de que não pode matar por motivos de ciúmes, Norberto respondeu, “agora sei”, o que levou a uma troca de argumentos sobre o estado de espírito do arguido no momento do crime. “Eu estava perdido, o meu pai estava no hospital, a minha mãe dependia de mim, a minha mulher ia ser operada a uma prótese e eu tinha deixado de tomar medicamentos que a minha psiquiatra me tinha receitado, mas sei que matar é errado”.
O arguido contou que houve episódios que o levaram a crer que a vítima lhe queria mal. “Uma vez na autoestrada ultrapassou-me, colocou o carro à minha frente e travou”. Outra vez, numa superfície comercial, “ele investiu o carrinho contra a minha mulher e depois parou, não sei se ele queria fazer mal à minha mulher ou a mim”.