O mar. É esse o cheiro que Helena Laureano abraça quando volta a casa
O mar. É esse o cheiro que Helena Laureano abraça quando volta a casa. ”A minha relação com Sesimbra é muito íntima, muito aconchegante e muito bonita”, revela com um tom de carinho e um olhar que guarda diversas memórias felizes.
Cresceu entre ondas e histórias. “A minha infância foi toda lá”, conta. Uma infância feita de rua, de liberdade e de jogos que, hoje, estão quase extintos: “Brincávamos ao bate-pé, ao mata, ao berlinde”. As praias eram onde Laureano passava grande parte do seu tempo. “Íamos para o Calhau da Cova, para a Ribeira do Cavalo… passávamos lá noites”, recorda. No meio de tantas risadas e lembranças, a atriz revela que “Punha as algas a fazer de saia e na cabeça”.
Apesar de ser apaixonada por Sesimbra, a sesimbrense revela: “A vida foi me levando”. Começou com as viagens diárias até Lisboa. Saía cedo, por volta das sete da manhã, e apanhava autocarros onde “entrava frio por todo o lado”. Eram dias longos feitos de cansaço. Foi também nessa fase que começou a trabalhar no seu primeiro part–time numa florista, “Sempre gostei muito de flores”. Quando se mudou para o Funchalinho, a rotina transformou-se: mota, barco, novas deslocações, novos ritmos. Uma vida em movimento. A capital deixou de ser apenas um destino e passou a ser casa. Não de forma repentina, mas “passo a passo”, como quem vai mudando de lugar mas sem nunca perder o ponto de partida.
A diferença entre os dois mundos não passou despercebida. “Lembro-me de sentir muita diferença no ar. O cheiro dos carros e da poluição. Em Sesimbra, o ar é completamente diferente, muito mais puro”, recorda. Ainda assim, a adaptação foi natural, “Estava focada no meu trabalho, com amigos e tudo fluiu”.
Laureano acredita que a sua área está melhor representada mas não valorizada. “Hoje está melhor. Há mais espaços, mais iniciativas, festivais de cinema… mas ainda há pouca adesão”, revela, com ar de desiludida. Durante os seus tempos de criança, o teatro corria pelas veias das escolas. Havia incentivo, havia participação, havia uma comunidade que respirava esta arte. “Na minha altura havia muito teatro nas escolas, muito incentivo. Isso perdeu-se um pouco”, recorda. Para a atriz, a solução está nas raízes: “Acredito que a chave está na educação nas escolas e também nos pais. É aí que se cria o gosto pela cultura”. É na infância que se planta o desejo de criar, de participar, de observar e é a partir daí que Sesimbra pode florescer novamente.
Na visão da sesimbrense, o concelho mudou. “A baía sofreu alterações com obras, a Praia da Califórnia perdeu areal e outras zonas desapareceram”, revela Laureano. Há mudanças que não lhe agradam tanto a nível arquitetónico mas a essência da terra permanece: “Continua a ter aquela energia, aquele abraço do mar e da serra”. Hoje, desde que a mãe faleceu, visita menos vezes mas Sesimbra continua a ser um lugar especial, um porto seguro de memórias e sentimentos onde o passado e o presente se cruzam entre o cheiro da maresia e a força das ondas.
Sesimbra, para Helena Laureano, não é apenas um lugar: é memória, essência e abraço. Entre praias e as ruas da infância permanece o laço profundo com a terra que a viu crescer. Mesmo com a vida a levá-la para longe, este concelho continua a pulsar dentro dela, um refúgio de memórias e sensações, onde cada vento carrega uma lembrança do lar.
Texto publicado por Beatriz Eustáquio na edição especial da revista ‘Perfil Local’ da ESE/IPS