Joaquim Guerrinha ficou cego ainda bebé, mas aquilo que a vida lhe tirou com os olhos, deu com a alma
No coração de Sines, entre o cheiro do mar e o murmúrio das ondas, nasceu, em 1913, um homem que transformaria a escuridão em música, palavras e luta. Joaquim Guerrinha ficou cego ainda bebé, mas aquilo que a vida lhe tirou com os olhos, deu com a alma. Era como se o mundo lhe falasse por sons, e ele respondesse
com música.
Aos sete anos, ingressou no Instituto de Cegos Branco Rodrigues, em Lisboa, e foi ali que o piano se tornou a sua extensão natural, onde os dedos podiam deslizar pelas teclas com uma leveza e precisão que pareciam desafiar todas as suas inseguranças.
Cada dia passado naquele instituto era também uma batalha silenciosa; um treino de paciência, força e sensibilidade que moldaria o homem e o artista que viria a ser.
Em 1935, candidatou-se ao Prémio Oficial do Conservatório e brilhou com a interpretação da “Fantasia em Dó Maior” de Schumann. Esse momento marcou um passo importante na sua carreira, consolidando-o como
um pianista talentoso e determinado.
Mais tarde, entrou para a direção da Associação Louis Braille e usou essa plataforma para promover a dignidade dos invisuais. Ali, cada ação sua era marcada por humanidade, desde conferências a orientações diretas com os jovens.
No entanto, a sua vida não se resumia apenas a isso; o amor e a dedicação à família e aos que lhe eram próximos mostravam um lado humano e caloroso tão intenso quanto a sua luta pela igualdade.
Aos 28 anos, uniu-se em matrimónio a uma jovem madeirense que havia cruzado o seu caminho no Funchal durante as suas digressões musicais. Juntos, construíram uma família ao longo da década de 40, trazendo ao mundo três filhos que seriam herdeiros não apenas da sua música, mas também da sua alegria contagiante.
Mesmo entre os compromissos públicos e a intensa dedicação às suas causas, Guerrinha encontrava sempre
tempo para partilhar risos, histórias e ternura com os seus filhos. Mais tarde, foi a filha Dalila de Jesus Guerrinha quem imortalizou a sua vida em “Uma Luz na História”, uma homenagem íntima e profunda que revela a alma do pai, tão cheia de luz quanto a música que sempre o acompanhou.
Dalila Guerrinha descreve o pai como alguém de “genuína bondade, um sorriso bonacheirão, um querer bem a toda a gente, num amor incondicional, dava-se inteiramente”, palavras que captam a essência de um homem
que, apesar das adversidades, nunca deixou de irradiar afeto.
Em 1976, partiu de forma inesperada, deixando um silêncio que parecia impossível de preencher. No entanto, a presença que semeou ao longo da vida permanece intacta, refletida em cada gesto de cuidado, em cada palavra de incentivo e em cada ação de generosidade que inspirou.
Em 2006, a cidade de Sines prestou-lhe uma homenagem duradoura, dando-lhe o nome de uma rua. Ficou assim
gravado na pedra que ele foi mais do que um homem, foi um farol. Um farol de coragem, de amor e de dedicação, cuja vida nos mostra que a grandeza não se mede pelo que os olhos podem ver, mas pela força do
coração e pela intensidade das ações.
Guerrinha provou que se pode deixar um rasto profundo de bondade, tocando a vida dos outros de forma duradoura.
Texto publicado na edição especial da revista ‘Perfil Local’, da ESE-IPS