Autora setubalense contou com o apoio de António Manuel Marques, antigo diretor da Escola Superior de Saúde
Alice Brito fechou em grande o Clube de Leitura promovido pelo Instituto Politécnico de Setúbal (IPS). António Manuel Marques, antigo diretor da Escola Superior de Saúde, teve a responsabilidade de apresentar a mais recente obra da escritora setubalense, “Perdeu-se relógio de senhora”.
A autora revelou que o principal objetivo desta obra é contar o quotidiano da época, e fá-lo através da discrição de locais e marcas que eram naquela altura comuns. Por outro lado, explica que este é um “livro muito pesado” no que toca à descrição da tortura.
Num cunho mais pessoal Alice Brito revelou que, com os seus 13 anos, falava-se de política – e até contra o regime.
“O que é que elas querem mais? Esta pergunta ouve-se nos meios mais reacionários. É que enquanto tudo isto se passa a violência sobre as mulheres continua, a violência doméstica continua e as mulheres morrem. São mortas em números que nos deixam completamente espantados – parece uma guerra civil doméstica – enquanto isto se passa os lugares de topo continuam a ser ocupados pelos homens. Apesar dos passos gigantescos o fundo, da questão continua. A luta das mulheres quando para, não para, anda para trás”, disse Alice Brito durante a apresentação.
“A escrita é o confessionário do escritor. Quem escreve sobre estes temas deve fazê-lo em liberdade”, termina.
O docente fez uma análise à obra, sem querer levantar demasiado o véu e dar “spoiler” sobre a história, e explicou que esta assenta em três principais ideias: mulheres, clandestinidade e antifascismo.
A obra fala sobre três mulheres que “tinham tudo para não se cruzar” e que acabam por encontrar-se da forma mais inusitada. Para António Manuel Marques esta é uma “versão justa da dimensão nacional nesta década” que dá destaque às cidades de Setúbal e Lisboa.
“Ri-me imensas vezes a ler o livro”, revela ao explicar que entre as partes mais duras há sempre uma narradora que acaba por colocar interjeições.
O livro em questão tem a capacidade de fazer uma “certa leitura da atualidade e do futuro” que ajuda a que os leitores possam não “perder a memória” dos acontecimentos antes da Liberdade.
Para o docente este é um trabalho que “não é só de memória pessoal”, tendo a autora explicado que graças ao seu marido ser historiador, o professor Albérico Afonso Costa, conseguiu chegar a documentos que se tornaram o primeiro contacto que teve com aquele que seria o início da obra.
No final da sessão, que decorreu na biblioteca do edifício ESCE/ESS, houve tempo para cometários e perguntas, e até alguns autógrafos. A sessão foi inserida no ciclo “Encontro com os Escritores”, tendo sido apresentada por Óscar Martins, chefe da divisão das bibliotecas do Politécnico de Setúbal.