O 28 de maio de 1926 em Setúbal

O 28 de maio de 1926 em Setúbal

O 28 de maio de 1926 em Setúbal

No próximo dia 28 de maio, cumprir-se-ão cem anos sobre a revolta militar que dará origem ao regime ditatorial, que governará o país durante mais quatro décadas, até ao 25 de Abril de 1974.

Nos tempos anteriores ao golpe, já a República ofegava. Fome, manifestações, repressão, um movimento operário desesperado, boatos, escândalos, explodiam naquele Portugal que tinha entrado na guerra, sofrido a pneumónica, e atingido um número intolerávelde governos sucessivos.

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Apesar dos militares aquartelados no Regimento de Infantaria 11 não constarem na lista dos quartéis solidários com os revoltosos, a notícia das operações militares iniciadas em Braga, dirigidas pelo General Gomes da Costa, chegará a Setúbal ainda no próprio dia 28 de maio.

No dia seguinte [29 de maio], a guarnição militar de Setúbal, depois de uma prolongada reunião do conselho de oficiais, decide aderir ao movimento revolucionário, publicitando a sua posição na imprensa e dando conhecimento oficial ao General Gomes da Costa: “Declaramos sob nossa palavra de honra que nos encontramos desde este momento ao lado do movimento que se está desenvolvendo no País, convencidos de que tal movimento é genuinamente militar, não político e retintamente republicano, e tem por fim a moralização dos costumes e o engrandecimento da Pátria e República” [Documento subscrito por 40 oficiais da guarnição da cidade de Setúbal em 29 de maio de 1926].

O comandante da GNR não aderiu ao movimento, não tendo assinado o compromisso de honra sugerido pelo Comandante Militar de Setúbal. No entanto, deu a palavra de que não hostilizaria o novo movimento revolucionário.

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No que respeita à população sadina, a notícia do golpe não terá tido grande impacto na cidade, não perturbando uma vulgar sexta-feira de trabalho para os setubalenses. Também o sábado será um dia normal de laboração nas fábricas, no comércio e em todos os outros locais da atividade produtiva.

Esta aparente apatia pode ser explicada pela profunda crise económica, social e política em que Setúbal se encontrava. E também, do mesmo modo, a cidade já se habituara a ver tropa e GNR nas ruas. Não nos esqueçamos que durante os 16 anos de regime republicano os confrontos entre o movimento operário e as forças da repressão haviam sido uma constante.

Comunicado comandante militar de Setubal st - O 28 de maio de 1926 em Setúbal

Por isso, a presença dos militares na vida pública não configurava uma situação muito diferente de qualquer outra já acontecida, sendo vista sem grandes perplexidades ou apreensões, já que a ação dos militares na vida pública havia sido como que normalizada pelo ritmo de intervenções golpistas que tinham tido lugar nos meses anteriores.

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De facto, só no ano de 1925 haviam ocorrido três sublevações dos militares contra os governos liderados pelo Partido Democrático. Uma a 5 de março, outra a 18 de abril e ainda uma outra a 19 de julho. Estas revoltas expressavam o protagonismo crescente de sectores monárquicos e nacionalistas que simpatizavam com soluções autoritárias inspiradas na Itália de Mussolini ou na Espanha de Primo de Rivera.

Era já o fascismo a tentar encontrar o seu caminho.

No dia 26 de maio, dois dias antes do golpe, Óscar Paxeco, jovem monárquico, que integrava as tertúlias conservadoras setubalenses a partir do início dos anos vinte, escreverá n’ O Setubalense as seguintes frases, num tom quase anunciador: “ Nunca se falou tanto, nunca se temeu tanto- os que temem- um movimento militar, como no momento presente” (…).

Mau que seja, não será, não é com certeza pior do que isto que para aí está, que para aí se arrasta nos esgares agónicos duma morte vergonhosa.”

O golpe era, pois, tido como necessário por esta vanguarda fascizante, que tinha os olhos postos nas trágicas experiências que se iniciavam na Europa.

Contudo, o golpe militar de 1926 era visto pela cidade e pelo seu operariado como mais um incidente golpista, apenas mais um, entre os outros que se tinham sucedido no passado recente.

A cidade sadina não entendeu de imediato o que o golpe significava. Não descodificou nem o perigo, nem a ânsia de futuro, de eternização, que o golpe continha.

Habituada à sucessão inconsequente de golpes e contragolpes, de bravatas e alianças contraditórias, a cidade operária e popular deixa-se ficar no seu canto.

Para além dos militares, haverá outros sectores sociais de Setúbal, os mais conservadores, que veem com grande esperança o novo ciclo político que se iniciaria com o 28 de Maio. Referimo-nos aos industriais conserveiros que no seu jornal A Indústria se desdobram em elogios e saudações ao novo regime. Em editorial de 4 de junho de 1926, este jornal explica o programa para a nova governação: “Ordem e Trabalho”

Começavam a ouvir-se os primeiros acordes da nova acústica pró-fascista, com panegíricos entusiásticos a Mussolini e ao seu antiliberalismo. Mariano Coelho e o já citado Óscar Paxeco vão ser vozes entusiásticas de exaltação.

Óscar Paxeco, vai ser, de facto, um dos primeiros a debitar encómios à Ditadura Militar: “O exército foi generoso quis salvar a nação”. E justifica a ação dos militares revolucionários: “Da instabilidade do poder à anarquia vai um passo. Da anarquia à revolução, outro. (…) Foi para não cairmos na anarquia que viemos dar à revolução” (O Setubalense de 7 de junho de 1926).

Por sua vez o novo governo da Ditadura militar irá promover uma rápida ocupação e saneamento das estruturas do Estado na cidade de Setúbal.

Logo em 29 de maio, os militares do Regimento de Infantaria 11, obedecendo a “ordens superiores”, ocupam as instalações da Administração do Concelho. Destituem o Administrador Afonso Castro e nomeiam para o seu lugar o Tenente Augusto de Carvalho, para ocupar este cargo da confiança política do Governo. Da Câmara Municipal à Misericórdia todos os cargos serão ocupados pelos partidários do novo regime. O jornal O Setubalense será uma das primeiras vítimas da repressão. Em fevereiro de 1927 será suspenso por um período de seis meses.

A Ditadura Militar iniciava um ciclo político que duraria 48 anos.

Passados 100 anos sobre esta data e quando por toda a parte sopram ventos de novos totalitarismos, há que não perder a memória destes acontecimentos. Não para os comemorar, mas para os recordar como momentos responsáveis pelas tragédias vividas.

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