Ormuz e a fragilidade da ordem global

Ormuz e a fragilidade da ordem global

Ormuz e a fragilidade da ordem global

12 Maio 2026, Terça-feira
Deputado do PSD

O Médio Oriente vive hoje um dos seus períodos mais voláteis e imprevisíveis. Após um breve período de “détente” em que a região parecia caminhar para a estabilidade geopolítica, a situação atual reconfigura as linhas de fratura geopolítica. 

No centro da tempestade perfeita, o Estreito de Ormuz emerge não apenas como um acidente geográfico de 33 quilómetros de largura, mas como a jugular da economia mundial. Se o petróleo e o gás natural liquefeito são o sangue que alimenta a indústria e o consumo global, Ormuz é a artéria vital que, obstruída, pode levar o sistema financeiro a um enfarte sem precedentes.

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O conceito de “ponto de estrangulamento” (choke point) não é uma criação atual. No séc. XVI, na expansão portuguesa do Oriente, a visão estratégica de Afonso de Albuquerque identificou que o domínio do comércio não dependia do controlo de vastos territórios, mas de pontos críticos de passagem. Ao fortalecer e controlar os estreitos de Bab-el-Mandeb, Malaca e Ormuz, Portugal conseguiu ditar as regras do comércio de especiarias e da navegação no Índico durante décadas. Hoje, a tecnologia mudou, mas a lógica geográfica permanece implacável: quem controla os estreitos detém um autêntico poder de veto sobre a prosperidade global.

A situação revela-se um complexo jogo de sombras onde o Irão utiliza a sua posição geográfica como alavanca negocial — ou de retaliação — face a sanções ocidentais e a tensões crescentes com Israel e as monarquias sunitas do Golfo. O encerramento do Estreito é uma espécie de “opção nuclear” num cenário de guerra convencional.

Para Teerão, o controlo do canal permite equilibrar a balança face à superioridade militar dos Estados Unidos. Através da guerra assimétrica, utilizando minas marítimas, lanchas rápidas e mísseis, o Irão consegue paralisar a passagem de navios-tanque. Para o resto do mundo, o encerramento representa o espectro de uma crise de abastecimento em que nenhuma reserva estratégica tem capacidade de mitigar a médio ou longo prazo.

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Os números que definem Ormuz são eloquentes: por aqui passa cerca de um quinto da produção mundial de petróleo e quase um terço de Gás Natural Liquefeito. Um bloqueio prolongado não resultará apenas numa subida gradual de preços; causará um choque térmico dos mercados financeiros. Do mesmo modo, economias como a China, Japão e Coreia do Sul são ainda mais criticamente dependentes do crude do Golfo, enfrentando riscos de paragens industriais massivas. Poderá mesmo ser um teste definitivo à resiliência da globalização.

A crise latente em Ormuz serve como um lembrete de que, apesar da retórica sobre a transição energética, o mundo permanece ancorado aos combustíveis fósseis e, consequentemente, à dependência de uma das regiões mais instáveis do planeta. O custo de erros de cálculo não se mede apenas em perdas militares, mas na potencial paralisia de uma civilização que ainda não aprendeu a funcionar sem o fluxo que atravessa aquela estreita faixa de água.

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