Caro leitor, em 22/12/2025 a Câmara Municipal aprovou o orçamento municipal para 2026, que a Assembleia Municipal confirmou em 15/01/2026: no valor de 105 milhões de euros. É o maior de sempre.
Falta de dinheiro não há, o que escasseia são duas coisas: a) ― Visão sobre onde empregar o dinheiro com utilidade para os munícipes e o município; b) ― Capacidade de execução das obras muito necessárias aos munícipes, à economia (e seus agentes) e ao município, algumas essenciais e inadiáveis. Estas são as conclusões a tirar porque, para executar algo é preciso três coisas: tempo; recursos financeiros; capacidade de execução.
1.ª ― O tempo não tem faltado, porque as necessidades dos munícipes vêm de há muito, tal como o marasmo do município: ambos têm longas barbas brancas;
2.ª ― Os recursos financeiros, como vimos, em 2026 haverá o maior orçamento de sempre. Mas os orçamentos excedentários para a capacidade de execução da Câmara também têm barbas brancas. Entre 2014 e 2025 ficaram por executar cerca de 136 milhões de euros (arredondamento por defeito). Cerca de 10 milhões por ano, em média, nalguns muito mais (16 milhões) noutros menos (9 milhões). Em 2026 arriscamo-nos a ficar com 40 milhões de euros por executar, ou mais, pois passados quatro meses ainda andam a fazer estudos sobre onde deverão aplicar esta pipa de massa.
3.ª ― A capacidade de execução tem sido o bem mais escasso no município, polvilhada pelo desinteresse pelos munícipes e pelo desleixo e desorganização dos serviços (administrativos e operacionais). Nem todo o jornal dava para listar a propaganda não executada, dou só quatro exemplos: o novo Arquivo Municipal, anunciado em 2007 para 2009 (por acaso ano de eleições autárquicas), com as fotos da maquete e de um conhecido vereador, eclipsou-se; a nova Estação de Palmela, inaugurada em 06-10-2004, não tem três quartos dos passeios acabados na estrada que a liga a Aires, localidade hoje com mais de seis mil pessoas, numa mancha urbana em expansão, desde o Padre Nabeto ao Cabeço Velhinho; o bairro Casas da Quinta, em torno do Colégio St. Peter’s School, ao fim de 25 anos teve a rotunda de ligação à EN379 (paga por um privado), mas do lado Poente (EN252) continua o caos no acesso ao bairro e ao colégio; o Ciclop7, e os fundos europeus, eclipsaram-se, mas a bandeira de município amigo da mobilidade é nossa.
Pelo andar da carruagem, e conhecemos bem a maquinista (é semelhante ao anterior e é a mesma que, de 2001 a 2013, deixou o município no estado deplorável em que se encontra), pela sua inacção ao longo de doze anos perdidos, mas cheios de anúncios pomposos e obras mínimas.
Mas, verdadeiramente realizadas, deixou duas obras bem vivas na memória de muitos munícipes: 1.ª ― O brutal aumento do IMI (imitando o famoso «ir além da Troica» do Governo de então). Parece querer voltar a aumentar o IMI em 2027 (o provável vencedor das autárquicas de 2029 agradece); 2.ª ― O impedimento da conclusão da Estação do Pinhal Novo, a pretexto do amor ao património histórico e à Torre de Manobra (ao abandono desde 2004, sem visitas nem utilidade). Mas o «embargo» foi útil, porque manchou o sucesso da privada Fertagus e deixou em banho-maria a fantasia de uma nova Estação, 300 metros a poente da actual (junto à urbanização Val’Flores, estava a iniciar-se na altura), depois de se ter gasto 25 milhões de euros na actual Estação. A nacionalização da Fertagus e a fantasia que referi continuavam no Programa Eleitoral Distrital das eleições autárquicas de 2017. Só não se falava do destino a dar à actual Estação nem à Torre de Manobra.
O resultado desta «brilhante» e «estratégica» decisão sobrou para os utentes do comboio entre Penalva e Setúbal, desde 06-10-2004 até 15-12-2024, com apenas um comboio por hora entre Setúbal e Coina. Mas podia ter havido muitos mais, se os dois (dos três por hora) que tiveram de terminar a marcha em Coina, a terminassem no Pinhal Novo. Aí chegavam, em cada hora, mais dois da CP, o que daria cinco por hora para Lisboa (três da Fertagus e dois da CP).
Vasco Santana disse: «chapéus há muitos, …». Eu digo: orçamentos grandes há muitos, … , mas autarcas competentes e com visão de futuro escasseiam.