O 1.º de Maio é sempre uma data carregada de simbolismo. É o dia em que se celebra o trabalho, os trabalhadores, os direitos conquistados e a centralidade que o emprego tem na dignidade de cada pessoa, na estabilidade das famílias e no desenvolvimento do país.
Mas celebrar o trabalho não pode ser apenas olhar para trás. Tem de ser, também, olhar para o que aí vem.
E o que aí vem exige seriedade, menos slogans e mais capacidade de antecipação.
Quando escrevo estas linhas, a CGTP já anunciou uma greve geral para 3 de junho, a UGT recusou a última proposta apresentada pelo Governo e aguarda-se ainda a próxima reunião da Comissão Permanente de Concertação Social. O momento é, por isso, de tensão social e política. Mas é também um momento que obriga a discutir o essencial. Que mundo do trabalho queremos construir nos próximos anos?
A discussão sobre a legislação laboral não pode ser feita como se estivéssemos ainda no século XX, nem reduzida a uma oposição simplista entre trabalhadores e empresas. Essa leitura é pobre e não ajuda o país.
A inteligência artificial deixou de ser uma abstração. Já está presente em áreas administrativas, financeiras, jurídicas, logísticas, comerciais e criativas. O que antes exigia horas de trabalho humano pode hoje ser automatizado, acelerado ou substituído por sistemas inteligentes.
A próxima vaga será ainda mais desafiante, com a inteligência artificial aplicada à manufatura, à robótica avançada e aos robôs humanoides. Não falamos apenas de máquinas industriais tradicionais. Falamos de sistemas capazes de aprender, adaptar-se, executar tarefas repetitivas, apoiar linhas de produção, substituir funções operacionais e até interagir em contextos de serviços.
Portugal não ficará à margem desta mudança.
Perante isto, o país pode fingir que nada mudará ou pode preparar-se para proteger o trabalho num contexto em que a tecnologia será cada vez mais competitiva, mais barata e mais disponível.
É aqui que a flexibilidade laboral deve ser discutida com maturidade.
Defender maior flexibilidade não pode significar fragilizar trabalhadores, desproteger famílias ou transformar a precariedade em regra. Mas recusar qualquer adaptação também pode ter custos elevados. Num mundo em que as empresas comparam custos, produtividade, rapidez de resposta e capacidade tecnológica, modelos demasiado rígidos podem acabar por produzir o efeito contrário ao pretendido. Em vez de proteger postos de trabalho, podem acelerar a substituição de trabalhadores por soluções tecnológicas.
Por isso, importa que o Governo continue a explicar, com clareza e proximidade, que a modernização das regras laborais não deve ser vista como uma cedência aos chamados “patrões”, nem como uma retirada de direitos aos trabalhadores. Essa é uma leitura que alguns setores sindicais e políticos têm procurado instalar, mas que simplifica em excesso um debate que é muito mais sério.
A questão essencial não é pôr trabalhadores contra empresas. A questão é perceber como se preservam postos de trabalho, como se mantêm empresas competitivas, como se evitam deslocalizações e encerramentos, e como se reduz o incentivo à substituição pura e simples de pessoas por automação ou inteligência artificial.
O objetivo deve ser encontrar um novo equilíbrio. Um equilíbrio que mantenha proteção, dignidade e estabilidade para quem trabalha, mas que permita também às empresas adaptar-se à velocidade da economia atual.
Esse equilíbrio passa por diálogo social, formação contínua, requalificação profissional, valorização salarial associada à produtividade e regras laborais que não ignorem a realidade concreta das pequenas, médias e grandes empresas.
O 1.º de Maio deve continuar a ser o dia da afirmação dos trabalhadores. Mas deve ser também o dia em que temos coragem para dizer que proteger o trabalho exige mais do que defender o que já existe. Exige antecipar riscos, preparar transições e criar condições para que a tecnologia sirva as pessoas, e não as substitua de forma cega.
O futuro do trabalho não se decide apenas nas ruas, nem apenas nas mesas da concertação social. Decide-se também na capacidade de um país compreender o tempo em que vive.
E este tempo exige uma nova responsabilidade. Defender os trabalhadores, proteger direitos e garantir que Portugal não transforma a falta de adaptação num convite à substituição tecnológica.