Presidente da direção e comandante fazem balanço ao atual momento da corporação, que cumpriu 75 anos de vida. E identificam necessidades
A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Pinhal Novo acaba de comemorar 75 anos de vida. Em entrevista conjunta à Rádio Popular FM, Fernando António, presidente da direção, e Vasco Marto, comandante da corporação, analisaram o atual momento da unidade que nasceu no Dia do Trabalhador (1 de maio).
A necessidade de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para fogos urbanos e industriais é uma das principais preocupações da direção, que foi empossada para um segundo mandato consecutivo em março último.
“Um dos objetivos principais que temos agora em mãos – e que não conseguimos cumprir no mandato anterior face à situação financeira que encontrámos – é reequipar todos os 50 operacionais que temos em permanência”, assume Fernando António. “Não há ninguém, a nível estatal ou municipal, que nos dê EPI para os fogos urbanos e os fogos industriais. São mais caros. Do capacete às botas o equipamento andará à volta de 1.700 euros por homem”, observa o presidente da direção. E o comandante complementa: “Mais o equipamento de respiração autónoma, o ARICA, que é mais 2 mil euros, e também tem o seu prazo de validade e requer manutenções, é muito caro. Pode ser que algum mecenas nos possa ajudar nessa situação, o que às vezes até tem sucedido”, desabafa Vasco Marto.
O encargo para equipar 50 homens é pesado, apesar de a atual situação financeira estar agora estabilizada. Mas, nunca é fácil. “Conseguimos superar todas as dívidas estruturais que tínhamos. Encontrámos a associação com dívidas bastante elevadas a algumas empresas que nos fornecem material e todas foram saldadas. Neste momento as dívidas que temos são as do dia-a-dia, das reparações, da compra do gasóleo. Para que se tenha noção, antes deste grande aumento do preço dos combustíveis estávamos a gastar à volta de 8 mil euros mensais em gasóleo. Ainda não consigo contabilizar qual vai ser o acréscimo mensal, mas calculo que seja entre os 2 mil e os 2.500 euros, com estes aumentos abruptos devido ao contexto internacional”, revela Fernando António.
A solução para equilibrar as contas, admite, é “tentar efetuar mais serviços de emergência médica”. “É junto do INEM que nós conseguimos algumas verbas, muito embora o contrato com o INEM acabe por nos limitar na receita, porque está feito a valores de janeiro de 2025. Após praticamente ano e meio, não houve qualquer atualização”, lamenta.
Carreira digna, precisa-se
Vasco Marto assume que a corporação precisa de “mais elementos, de mais efetivos profissionais, para dar resposta às necessidades”, mas reconhece que a direção tem feito um trabalho meritório.
O problema está a montante. “Hoje em dia, o bombeiro não tem uma carreira profissional. E os jovens não estão muito virados para o voluntariado. Temos uma escola [de cadetes] a decorrer, formação a decorrer, mas depois eles não veem uma progressão de carreira com um salário atrativo. E, então, muitos dos nossos profissionais formados vão para a força especial de bombeiros, outros vão para outras empresas onde lhes dão mais condições. Depois ficamos aqui um pouco com dificuldade em dar resposta às necessidades”, explica o comandante.
E Fernando António reforça: “Não podemos continuar a viver de subsídios que nunca sabemos em que data é que chegam. É muito importante que os apoios oficiais se traduzam em contratos-programa. Não podemos esperar um profissionalismo de excelência sem oferecer em troca uma carreira digna aos bombeiros.”
O presidente da direção faz ainda notar que deveria existir uniformidade nas tabelas salariais. “Hoje em dia, todas as corporações têm tabelas salariais diferentes, aplicam formas diferentes de pagar aos seus bombeiros. Vemos bombeiros que vão passando de corporação em corporação, porque os vizinhos do lado pagam um pouco melhor e saem com muita facilidade de uma corporação para outra. Isto para não falar daqueles que vão para empresas, porque têm de procurar um nível de vida melhor.”
No Pinhal Novo o trabalho para atrair novos bombeiros entronca numa estratégia que passa pela comunidade educativa. “O nosso comandante tem efetuado bastantes workshops e simulacros junto das nossas escolas. Temos de começar pelos mais novos, desde pequeninos, até no pré-escolar, com as visitas que fazem ao nosso quartel na primária, irmos às escolas, para que eles um dia mais tarde venham até nós e queiram integrar a nossa casa. É um trabalho que tem de ser feito ao longo de muitos anos”, salienta Fernando António.
Um trabalho que sempre dá frutos. “É muito importante estarmos junto das escolas. Todos os anos fazemos exercícios em escolas. Já temos alunos no secundário que se lembram, de quando tinham 5 ou 6 anos, destas temáticas, dos procedimentos a ter [em caso de ocorrência]”, frisa Vasco Marto, a concluir.
Crítica à ANEPC “O distrito de Setúbal não recebe veículos, mas é o que mais reforça o País”
A idade da frota de veículos de combate a incêndios é outra das preocupações na corporação do Pinhal Novo. “São veículos com muitos anos, tanto os de combate a incêndios urbanos como os de combate a incêndios florestais. Têm muitos quilómetros e as reparações têm um custo elevadíssimo, portanto, precisávamos de substituir aqueles que já estão um pouco obsoletos”, diz o comandante Vasco Marto. Fernando António vai mais longe e aponta o dedo à Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC).
“Voltando aos fogos florestais, nós precisamos de viaturas mais modernas e eficientes. O distrito de Setúbal, ultimamente, não tem recebido nenhuma viatura nova fornecida pela ANEPC. Mas é o distrito, aliado provavelmente ao de Lisboa, que mais meios fornece para os outros distritos a nível nacional. Nós vamos para o Norte, vamos para o Sul, vamos para onde somos necessários. E certo é que para corporações de outros distritos são fornecidas viaturas novas. Nós, que os vamos reforçar constantemente, não recebemos”, critica o presidente da direção. O melhor veículo de combate a incêndios que a corporação do Pinhal Novo apresenta já conta com 26 anos.