Antes de entrarmos na história propriamente dita, irei falar-vos de dois filmes e de um livro que recomendo vivamente.
O primeiro, datado de 1984, intitulado “Terra Sangrenta” (The Killing Fields) de Roland Joffé, com banda sonora de um dos meus autores favoritos, Mike Oldfield, que abordava o tema do genocídio, dos famigerados campos da morte e que deu a Haing S. Ngor a estatueta de melhor actor secundário.
O segundo, de 2017, intitulado “Primeiro mataram o meu Pai”, foi retirado a partir do livro com o mesmo nome da autoria de Loung Ung.
Loung, actualmente escritora e activista humanitária, relembra a sua história e os horrores que vivenciou quando criança sob o brutal regime comunista dos Khmers Vermelhos: o seu pai foi morto, ela e os irmãos sofreram abusos e violência física e psicológica.
Separada posteriormente dos seus irmãos, ela estava destinada a viver num campo de treino para jovens soldados, mas conseguiu sobreviver e contar a sua história.
O filme foi produzido por uma conhecida plataforma digital e dirigido por Angelina Jolie.
Estamos hoje a recordar o genocídio no Cambodja, ocorrido entre 1975 e 1979.
Em 1975, os comunistas Khmers Vermelhos, liderados por Pol Pot entraram na capital Phnom Penh, iniciando a evacuação forçada de todos os seus habitantes, bem como das principais cidades, sob a falsa ameaça de um bombardeamento americano.
Em poucas horas, uma das maiores capitais de toda a Ásia, tornou-se uma cidade-fantasma.
Pol Pot decidiu mudar o nome do país para Kampuchea Democrático e de seguida, ordenou a toda a população que se estabelecessem em comunas agrícolas com o objectivo final de multiplicar a produção de arroz e, simultaneamente, purificarem-se através do trabalho agrícola.
Esse objectivo deveria ser alcançado através de prossecução de uma sociedade comunista, agrária e supostamente igualitária. A classe camponesa foi assim idealizada como a verdadeira classe nacional, o substrato a partir do qual o novo Estado cresceria.
E aí começaram os assassinatos em massa, uma vez que, e de acordo com os Khmers Vermelhos, estes eram necessários para a “purificação da população”.
As pessoas residentes na zona Leste do país, na fronteira com o Vietnam eram considerados contra-revolucionários, impuros, com ligações ao estrangeiro, tendo milhares sido executados.
Os Khmers Vermelhos aboliram os cultos religiosos e tentaram aniquilar as minorias étnicas, proibindo o uso de línguas e costumes locais.
Ao todo, estima-se que cerca de 500.000 pessoas, cerca de 70% da população muçulmana Cham, foram exterminadas, enquanto as crianças foram retiradas à força de seus pais e criadas como Khmers.
Entre as práticas destinadas a erradicar a comunidade muçulmana local estava o consumo de carne de porco, bem como a requisição e destruição de todas as cópias do Alcorão.
Também muitas execuções foram infligidas contra cristãos e monges budistas. Cerca de 95% dos templos budistas no Cambodja foram demolidos.
Os horrores perpetrados pelos comunistas Khmers Vermelhos foram, portanto, justificados na tentativa de alcançar uma utopia social.
Tendo destruído os costumes anteriores, os Khmers Vermelhos introduziram novos rituais na tentativa de transferir as suas crenças para as mentes dos camponeses e jovens que viriam a ser a sua base militar, recorrendo a uma velha técnica comunista, de ter sempre um inimigo comum a quem odiar. Capitalistas, imperialistas, impuros, etc.
O medo permanente era aniquilador; recorria-se a actividades colectivas que incluíam a participação obrigatória em discursos públicos, canto de canções revolucionárias que exaltavam a missão dos Khmers Vermelhos.
Em quatro anos, cerca de dois milhões de cambodjanos foram assassinados. Um quarto da população total.
Absolutamente aterrador.
Embora Pol Pot tenha escapado, outros líderes do Khmer Vermelho foram julgados, anos mais tarde, por um tribunal internacional, sendo condenados a penas de prisão perpétua, por crimes contra a humanidade e genocídio, tais como Nuon Chea, Khieu Samphan, Kaing Guek Eav.
Com os comunistas Khmers Vermelhos no Cambodja, a Humanidade atingiu um dos seus pontos mais baixos e vergonhosos de sempre.
Muito do que acabei de descrever não constitui matéria de opinião; são factos realmente ocorridos, exaustivamente documentados e amplamente reconhecidos pela comunidade internacional.
E, sobretudo, pela História.