O autarca do Barreiro e presidente da estrutura local socialista justifica a decisão com os resultados obtidos pelo partido no concelho nos últimos anos. Quanto ao futuro, garante que o PS tem vários quadros de valor para suceder a Frederico Rosa na presidência da Câmara, mas deixa um recado: “Seria uma grande irresponsabilidade neste momento estar a escolher-me ou estar alguém a escolher-se a si próprio”
Críticas duras ao Chega e ao PSD, um recado para o seio socialista local e um olhar sobre dois projetos desportivos de envergadura para o concelho. Em entrevista a O SETUBALENSE e à Rádio Popular FM, Rui Pedro Pereira, vereador da Câmara do Barreiro, que preside à Comissão Política Concelhia do PS e também à S.Energia, debruça-se sobre alguns dos temas que marcam a atualidade local e regional, sem enjeitar responder a questões tão incómodas como a criação de uma depuradora de bivalves que nunca saiu do papel, apesar de anunciada duas vezes durante a governação de António Costa.
A construção da Piscina Municipal da Mata dos Lóios já poderá arrancar. Será a obra mais estruturante do mandato no plano desportivo?
É sem dúvida uma grande obra. Tanto a piscina, que é mesmo um grande investimento, como o grande sonho que temos da arena [multiusos], que também queremos construir, mas que está numa fase mais embrionária. Um dos maiores investimentos é a piscina e no futuro a arena.
A arena poderá ser enquadrada ainda neste mandato?
Estamos a fazer todo esse trabalho. Vai estar disponível tanto para a prática desportiva como também para espetáculos. Portanto, estamos a falar de [um equipamento] de grande envergadura. Está ainda em fase de projeto e depois requer também candidaturas. Mas, temos esse sonho. Os nossos cidadãos já viram que no fundo nós sonhamos um pouco, lançamos a semente e depois a obra está feita. Foi assim que habituámos os cidadãos do Barreiro com o PS.
Preside à S.Energia que está prestes a cumprir 20 anos de existência. Como está o Barreiro a preparar a transição energética? Existem planos para expandir comunidades de energia renovável no concelho, por exemplo?
Sim. Estamos a fazer, através da S.Energia, que é a agência regional para Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete, esse trabalho. A lançar muitos destes projetos, por exemplo, comunidades de energia. Estamos a apresentá-los aos municípios e já estamos a trabalhar internamente.
Tive a oportunidade de participar no último encontro nacional de agências de energia, que decorreu no Porto, e lancei o desafio, desde logo aceite, de que o próximo encontro nacional decorra nos nossos territórios. Para assinalarmos os 20 anos da Agência de Energia e para colocar Barreiro, Moita, Montijo e Alcochete no centro destas temáticas em Portugal. Para o ano vai ser cá o encontro nacional das agências de energia.
Uma das políticas em cima da mesa é a energia verde. E esse trabalho os municípios também já estão a fazer. Moita, Barreiro, Montijo e Alcochete já têm alguns projetos, até de painéis fotovoltaicos, e também para edifícios públicos começarem a produzir a sua própria energia e depois injetarem também na rede. E depois o outro desafio das comunidades. A S.Energia não vende serviços, presta apoio aos cidadãos.
Preside também à Comissão Política Concelhia do Barreiro do PS. As eleições para este órgão deverão decorrer já em maio. Vai recandidatar-se?
Sim! É quase um acto natural a minha recandidatura e da minha equipa, porque quando nos candidatámos à concelhia traçámos alguns objetivos e superámos esses objetivos. Os números falam por si, o trabalho que o PS tem feito no Barreiro fala por si e é reconhecido com os resultados eleitorais, não só locais, mas também nacionais, as próprias Europeias também… Sim, sou candidato com toda a naturalidade.
Os partidos, acima de tudo, têm de se centrar em trabalhar para as pessoas e esse tem sido o nosso grande trabalho. No passado, internamente, o PS tinha muitas concorrências e queria deixar uma palavra de apreço a André Pinotes Batista [atual presidente da Federação Distrital de Setúbal do PS, que preside também à Assembleia Municipal do Barreiro e é deputado parlamentar], que fez aqui a união dentro do PS. Foi quem, juntamente com Frederico Rosa, deu aqui a oportunidade ao Barreiro de criar equipas coesas, equipas de trabalho, com o grande objetivo de trabalhar para a cidade. E o resultado foi este. Os resultados estão à vista com os projetos todos que temos a decorrer na cidade.
Qual das últimas três vitórias do PS em autárquicas no Barreiro o marcou mais?
Recordo-me ainda quando Emílio Xavier ganhou a Câmara [2001], que tinha sido sempre CDU. Emílio Xavier fez apenas quatro anos e depois voltámos a 12 anos de CDU. Depois foi o trabalho que referi há pouco com André Pinotes Batista e com Frederico Rosa, o melhor presidente de sempre do município e, se calhar, de muitos municípios portugueses. Os barreirenses reconheceram todo esse trabalho a estas nossas equipas, a todos os nossos autarcas, e chegámos à maioria absoluta de 2021, que foi quando cheguei também a vereador. E, se calhar, 2021 pode ter sido para mim [o mais marcante].
Frederico Rosa não poderá recandidatar-se à presidência da Câmara, face à lei de limitação de mandatos. O PS já está a preparar a renovação de quadros para o próximo ciclo autárquico?
Os cidadãos quando votaram no nosso projeto não nos deram oito anos para governarmos a cidade e quatro para ficarmos a decidir um candidato. Os cidadãos deram-nos 12 anos para governar a cidade. E é esse trabalho que o PS está a fazer. O tempo de vir a formar uma nova equipa não é este agora. Temos três anos ainda pela frente. Mas, dizer que o Barreiro tem várias figuras que estão à altura de continuar este grande e excelente trabalho que Frederico Rosa fez.
André Pinotes Batista, Rui Braga ou o próprio Rui Pedro Pereira: qual considera estar melhor posicionado para encabeçar uma lista do PS à Câmara do Barreiro daqui por três anos e meio?
Deixe-me dizer Patrícia Gaspar… há vários nomes. Eu, como presidente da concelhia, também tenho essa responsabilidade, claro que não me descarto. Mas, como disse, não é este o momento, ainda faltam três anos para isso e o PS, felizmente, tem muitos e bons quadros para fazer esse caminho.
Se não for Rui Pedro Pereira, quem gostaria de ver como candidato do PS, Rui Braga ou André Pinotes Batista?
Com a experiência que tenho, digo exatamente o que penso e com toda a sinceridade. Se nós hoje estivermos aqui a pensar no próximo candidato, estaremos a deixar de trabalhar para a cidade. O Rui Pedro Pereira fazia um mau trabalho à data de hoje se começasse a acreditar e escolher-se a ele próprio. Porque as pessoas não têm de se escolher a elas próprias. Existe um projeto, existe uma equipa, e daqui a três anos estou disponível para vir aqui anunciar quem será o candidato do PS.
A escolha é feita na concelhia, mas isso não invalida que não possa alguém dar o passo em frente e vem de imediato à ideia Rui Braga pelo facto de ser vice-presidente da Câmara…
Está a falar-me em Rui Braga, falámos há pouco em André Pinotes, em Patrícia Gaspar, em Rui Pedro Pereira. Como já disse, seria um mau serviço que estaria a fazer à data de hoje se me estivesse a anunciar como candidato à Câmara. Seria sinal que já tinha deixado de pensar em tudo o que está em cima da mesa, os projetos que temos para lançar. Seria uma grande irresponsabilidade neste momento estar a escolher-me ou estar alguém a escolher-se a si próprio, porque as pessoas nunca se devem escolher a si próprias.
Que avaliação faz às forças da oposição, CDU, PSD e Chega, sobretudo estas duas últimas que nas últimas autárquicas ganharam assento no executivo municipal do Barreiro?
Custa-me um pouco, porque a democracia deve muito e foi aqui fruto de muito trabalho do PCP, do PS e do PSD. E custa-me muito olhar para o caminho que o PSD está a fazer, não só local, mas nacional. Estamos perante um PSD a nível nacional que se fecha no seu gabinete, que toma decisões, que não ouve ninguém, e que depois acha que é tudo um dado adquirido. E até ficam meio chocados quando os autarcas, até mesmo da cor deles, não concordam com as decisões que eles tomaram a nível nacional.
Há uma coisa que sabemos à data de hoje, é que ninguém entrega as chaves do seu carro a um cidadão, neste caso ao Chega, quando já sabe à partida que está a emprestar a chave do carro a uma pessoa que não sabe meter mudanças e que não está disponível ainda para vir a aceitar as regras do trânsito. Quando vir um vermelho vai acelerar a fundo, porque é contra, quando vir o amarelo, se calhar vai travar de propósito para ver se o carro que vem atrás lhe bate. Ninguém empresta ainda as chaves da cidade, com certeza, ao Chega para gerir os nossos destinos.
Deduzo que a crítica ao PSD, no plano nacional, tenha a ver o fecho da Urgência de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital do Barreiro. Que formas de luta é que os autarcas poderão assumir agora, em face da irredutibilidade da ministra da Saúde e do Governo?
Estamos perante uma laranja muito amarga. Estamos muito habituados a que o Governo, quando tem as suas ideias, as discuta e apresente aos autarcas. Custa muito que o PSD a nível nacional não reconheça o gigantesco erro que está a cometer.
O [Governo do] PS também a uma certa altura anunciou um estudo para o fecho desta valência, no Barreiro, e depois de reuniões com o próprio ministro, depois de reuniões do PS Barreiro, de Frederico Rosa, da vereadora Sara Ferreira, voltou atrás e não foi encerrado o serviço. O próprio Governo de António Costa fez um investimento no Hospital Barreiro/Montijo de mais de 40 milhões.
Facto também é que foi com o Governo de António Costa que se implementou uma rotatividade de funcionamento do serviço, que não se pode dizer que não contribua para este epílogo.
Foi uma rotatividade, não foi um fecho. E aqui saudar a administração hospitalar de Barreiro Montijo que nunca o fechou. Cumpriu sempre essa escala da rotatividade. Com essa escala as nossas grávidas sabiam com o que podiam contar. Hoje não. Repare, os próprios médicos do hospital – a ministra, se não sabia, demonstra mesmo um grande desconhecimento – não vão ser encaminhados para o Hospital Garcia de Orta, para onde a ministra diz que vai ser o superserviço. Porque muitos já têm uma idade que lhes permite aceitar ou não aceitar fazer escalas, turnos. E eles próprios não concordam.
Não sei se a ministra conhece o hospital, se calhar também não, nem conhece a realidade. Estes concelhos estão a ter um crescimento tão grande de população e há uma ministra em Lisboa que parece estar a falar de uma região que está a perder habitantes e corta serviços. Não se percebe.
O que me choca ainda mais é quando temos deputados da nação, como Bruno Vitorino, eleito pelo círculo de Setúbal, que nas suas redes sociais continua a dizer que isto é uma grande medida. Não se percebe.
O próximo passo a dar pelos autarcas: pedir uma audiência, por exemplo, ao primeiro-ministro, ou aos grupos parlamentares?
Pedir audiências aos grupos parlamentares e se calhar, também já comecei a falar nisso internamente, ao novo Presidente da República. Também tem de ter aqui uma palavra a dizer.
Como analisa o facto de o PS, enquanto Governo, ter lançado por duas vezes para o Barreiro a construção de uma depuradora de bivalves, que acabou por nunca sair do papel, que, pior ainda, não poderia ser construída no local escolhido, e vir agora em oposição no Parlamento exigir ao atual Governo PSD uma estratégia, até ao final do ano, para combater o problema?
O PS, com António Costa, quando lança o grande desafio ao Barreiro de acolher no seu território a depuradora para começar a resolver este problema, o município desde a primeira hora disse: “estamos cá para ajudar”. Houve um projeto, depois o que nos veio demonstrar foi que o terreno escolhido, na altura junto à Baía Tejo, não estava preparado para aquela infraestrutura. Agora, o trabalho do Governo não se esgotou aí. E à data de hoje, o que eu e os portugueses sabemos é que este Governo, que não chegou ao poder agora, já é o segundo Governo, porque eles próprios fizeram-se cair para ter a votação seguinte, para não deixar margens…
… Mas ainda não atingiu sequer metade do tempo que os Governos de António Costa tiveram.
Não atingiu, mas este Governo disse em campanha eleitoral que em 20 dias resolvia muitos problemas. Por exemplo, em 20 dias resolvia o tema da saúde. Em 30 dias, se calhar, resolvia a apanha dos bivalves…
… Não seriam 20, seriam mais.
Foi o que eles prometeram e as pessoas acreditaram, lá está, novamente na palavra dos políticos. Por isso é que depois estes partidos de extrema direita crescem sem terem projeto, sem terem um objetivo concreto e sem se saber para onde é que eles querem ir. Porquê? Porque temos um Governo que prometeu resolver coisas em poucos dias, para as quais afinal de contas não tinha projeto sequer…
… E por que é que o PS, com oito anos de governação, nuca resolveu? O projeto que apresentou acabou por ser, enfim, uma medida que até envergonha, já que não pôde ser implementado. Já para não falar que o território escolhido foi o do Barreiro, quando se calhar fosse mais propício o concelho de Alcochete.
Este problema da apanha dos bivalves abrange Barreiro, Seixal, Moita, Montijo e Alcochete. Mas, repare, estamos sempre a falar com dados à data de hoje. E na altura, quando o Governo de António Costa lança a depuradora no Barreiro, no local onde era a antiga EDP, em que não se fez bem o lançamento da primeira pedra, mas foi uma coisa parecida, dizer que acreditávamos naquele projeto e que o Governo também acreditava. Investiu num projeto, investiu e clarificou. Os Governos não têm qualquer vantagem em estar a anunciar uma coisa que sabem que vai falhar.
Onde é que se imagina, em termos de futuro político, daqui a dez anos?
No Barreiro. Amo mesmo o Barreiro, sou um fabricado no Barreiro, os meus dois filhos são fabricados no Barreiro, no passado tive um convite para sair desta área política do Barreiro e ir para a capital e recusei, porque acredito mesmo no Barreiro e o PS tem ainda muito trabalho para fazer no Barreiro.
N.d.R.: Esta entrevista está aqui disponível na íntegra.