Cento e sessenta e oito flores estranguladas

Cento e sessenta e oito flores estranguladas

Cento e sessenta e oito flores estranguladas

23 Março 2026, Segunda-feira
Professor de história

Quando o primeiro míssil norte-americano atingiu a Escola de Minab com as cento e sessenta e oito meninas de sete a doze anos de idade lá dentro, a cidade colapsou. Socorristas, ambulâncias, bombeiros, jornalistas acorreram de imediato. Pais, mães, familiares “voaram” para lá, sem saber o que os esperava. Uns 40 minutos depois, como programado, um segundo míssil abate-se sobre o cenário. As meninas da escola tinham sido utilizadas como isco para um segundo banho de sangue. Foi o primeiro sinal para amedrontar o mundo.

A tática de “duplo ataque” ou “double tap” em inglês é típica dos grupos terroristas. O exército israelita usa-a sistematicamente na Palestina: avisa que vai bombardear, faz um ultimato para as pessoas abandonarem as casas, empurra-as para um ponto…e aí as massacra. Não podemos esquecer o que aconteceu em 2024, quando uma menina de 5 anos de idade, chamada Hind Rajab, sobreviveu com a prima ao ataque israelita ao carro de familiares em que fugia dos bombardeamentos de Gaza. Com os adultos mortos, as duas conseguiram pedir socorro ao Crescente Vermelho. Quando os resgatistas chegaram ao local foram alvo de um segundo ataque fatal. O carro foi alvejado por 335 disparos(!!).  Este caso deu origem ao célebre filme com o nome da menina: Hind Rajab.

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Voltando ao Irão, que antes se chamava Pérsia, uma das civilizações mais antigas de que há conhecimento, desde há uns 3 mil anos, ficamos a saber que foram destruídos já museus e sítios de valor incalculável.  A guerra secretamente preparada por Netanyahu e Trump, desencadeada de surpresa no último dia de fevereiro, ocorreu em plena fase de negociações entre os EUA e o Irão, com avanços significativos dos dois lados, quando já se preparava um acordo.  Parece hoje claro que foi o primeiro ministro de Israel a convencer o presidente dos EUA de que este seria o momento adequado para concretizar um plano preparado ao longo das últimas décadas, desde que a monarquia que governava o Irão a favor dos EUA foi derrubada e as jazidas de petróleo e gás natural passaram para o controle do novo governo da República Islâmica.

A guerra alastra neste momento a toda a região. Por agora o exército iraniano parece ter algum êxito com uma espécie de guerra de guerrilha aérea, ciente da sua inferioridade perante os arsenais dos dois senhores da guerra, de armas nucleares e do terror planetário.

Entretanto vamos sabendo do papel decisivo que a Inteligência Artificial ganhou nesta nova fase, testada e desenvolvida no genocídio de Gaza. Enquanto os ingénuos e os cúmplices começaram por acreditar que a escola das meninas da cidade iraniana fora talvez atingida por um erro técnico, alguns meios de comunicação norte-americanos fizeram o seu trabalho, cruzaram fontes, ouviram especialistas, para concluir que sim: a escola foi propositadamente atingida para lançar o pânico e o terror. E em seguida atrair e exterminar os pais das meninas, parte dos quais militares do exército iraniano.

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O racismo anti-islão e o controle das fontes dos combustíveis fósseis são dois ingredientes que parecem inesgotáveis. Mas como disse o jornalista e poeta João Apolinário, que foi correspondente de guerra na França ocupada pelos nazis, preso pela PIDE, exilado no Brasil, que regressou a Portugal com a Revolução de 25 de abril: “por cada flor estrangulada, há milhões de sementes a florir”.

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