Estive, ontem, presente na luta dinamizada pelos utentes e pelos profissionais de saúde junto ao Hospital do Barreiro, contra o encerramento do serviço de urgência de obstetrícia e ginecologia.
Quando, com a cumplicidade de atores locais, designadamente da Câmara Municipal do Barreiro, começaram os encerramentos rotativos da urgência de obstetrícia e ginecologia no Hospital do Barreiro, ainda no Governo de maioria absoluta do PS, encerramentos que se acentuaram no Governo PSD/CDS, alertámos que essa opção rapidamente os tornaria definitivos e que o que se impunha era a adoção de medidas para fixar profissionais de saúde no SNS. Se um dos principais problemas é a falta de profissionais de saúde o que se exigia era a valorização das suas carreiras e garantir-lhes condições de trabalho.
A decisão agora verbalizada pela Ministra da Saúde, de encerramento da urgência de obstetrícia e ginecologia no Hospital do Barreiro constitui um retrocesso sem precedentes, prejudica as grávidas e as suas famílias, pela perda de proximidade e significa uma redução da capacidade do SNS.
Ter uma única urgência de obstetrícia e ginecologia na Península de Setúbal, no Hospital Garcia de Orta, não é solução, é um problema. Uma única urgência com porta aberta não tem capacidade para responder a toda a região, pelo que as grávidas continuarão a percorrer longos quilómetros para serem atendidas, tal como continuarão a nascer bebés nas ambulâncias, estando as ambulâncias, na prática, transformadas em salas de partos. Há até quem considere que é normal, mas não é. Não é normal que face à falta de profissionais de saúde, não se faça o que é preciso e ainda se dê o passo em frente para o abismo, encerrando a urgência; não é normal que grávidas tenham de fazer dezenas ou até mais de uma centena quilómetros para serem atendidas; nem pode ser considerado normal os bebés nascerem em ambulâncias.
Dizer-se que a urgência encerra, mas que o serviço de obstetrícia e ginecologia se mantém em funcionamento é uma enorme falácia. Com esta decisão o Hospital do Barreiro sairá irremediavelmente fragilizado, com a saída de profissionais para outros hospitais ou para fora do SNS.
Todos sabemos que a redução da mortalidade infantil e da mortalidade materna no nosso País se deveu à consagração do direito à saúde e à criação do Serviço Nacional de Saúde. Com estas opções do Governo é tudo isto que fica colocado em causa.
O número de partos no conjunto das três urgências ronda os 4500/5000 partos. E a questão é como é que uma única urgência terá capacidade para assegurar um número de partos superior à Maternidade Alfredo da Costa? Não terá.
Para além disso, o Hospital do Litoral Alentejano não tem maternidade, uma exigência que também temos vindo a colocar, pelo que as grávidas têm de se descolar para a Península, percorrendo muitas vezes distâncias superiores a 100 quilómetros.
Mais uma vez, o Governo confirma que o seu objetivo é desmantelar o SNS, reduzir a sua capacidade de resposta, para dar todo o espaço para o crescimento dos grupos privados da saúde.
Encerrar urgências e ter uma única urgência com portas abertas só beneficia esses grupos privados que parasitam e que procuram por todas as formas pôr mãos nos recursos do SNS.
Perante tudo isto, a luta dos utentes, dos profissionais de saúde, das populações, ontem como hoje, como será no futuro, pela exigência do funcionamento da urgência de obstetrícia e ginecologia no Hospital do Barreiro, é determinante.