Autarcas da península vão ao Ministério da Saúde contestar fecho da Urgência de Obstetrícia

Autarcas da península vão ao Ministério da Saúde contestar fecho da Urgência de Obstetrícia

Autarcas da península vão ao Ministério da Saúde contestar fecho da Urgência de Obstetrícia

Ao início da manhã desta segunda-feira, os nove presidentes de câmara da Península de Setúbal vão apresentar-se no Ministério da Saúde para tentarem ser ouvidos pela ministra Ana Paula Martins. Pretendem manifestar oposição ao anunciado fecho do Serviço de Urgência de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital do Barreiro, que o Governo quer transferir para o Hospital Garcia de Orta, em Almada, com a criação de uma urgência regional.


A decisão dos autarcas foi tomada, por unanimidade, numa reunião extraordinária do Conselho Intermunicipal da Comunidade Intermunicipal da Península de Setúbal, que teve lugar este sábado por solicitação do presidente da Câmara da Moita, Carlos Albino, uma vez que, até à data, os presidentes das câmaras de Barreiro, Alcochete, Moita e Montijo nunca foram recebidos pela governante, apesar de várias solicitações feitas nesse sentido.

- PUB -


O anúncio foi feito por Frederico Rosa, presidente da Câmara Municipal do Barreiro, durante a concentração convocada pela Comissão de Utentes dos Serviços Públicos (CUSP) do Barreiro e levada a efeito ao início da manhã deste domingo, frente à porta da unidade hospitalar.


“Os nove presidentes de câmara aprovaram por unanimidade estar amanhã [esta segunda-feira] às 8h30, no Ministério da Saúde para dizer à ministra que ela mentiu. Vai ter de nos ouvir, de nos olhar olhos nos olhos, sem medo, com coragem, não vale mentir”, disse o edil barreirense, a propósito de a governante “ter afirmado numa audição regimental no Parlamento que já havia falado com os autarcas”.


“Perante esta causa ninguém desarma, seja qual for a filiação partidária, o estado de espírito e a religião. Iremos até onde tivermos de ir. Quem desiste de lutar já perdeu. Não acredito que isto não possa ser revertido e enquanto houver esperança iremos estar sempre na luta, seja com quem for. Seja do partido A ou do B, seja com que comissão for. É isto que tem de nos fazer unir”, defendeu sem desarmar, mesmo quando ouviu algumas críticas de entre as várias centenas que se concentraram à porta do hospital, por esta ter sido a primeira vez que esteve presente numa iniciativa da comissão de utentes.

- PUB -


Ao lado de Frederico Rosa estiveram Fernando Pinto, Fernando Caria e Carlos Albino, que presidem respetivamente às câmaras de Alcochete, Montijo e Moita, numa concentração que, além de utentes e representantes sindicais, juntou ainda dezenas de autarcas de todos os partidos dos quatro concelhos e deputados parlamentares, como André Pinotes Batista, do PS, e Paula Santos, do PCP.


Para a comunista, o objetivo do Governo de encerrar a Urgência de Obstetrícia do Hospital do Barreiro “representa um retrocesso sem precedentes” para as populações desta região. “Estamos a falar de perda de valências, de perda de proximidade, de prejuízos enormes para as grávidas e as suas famílias e o que está em cima da mesa não configura qualquer solução. Na prática significa concentrar as Urgências de Obstetrícia e Ginecologia num único hospital [Garcia de Orta, em Almada] que não terá capacidade para dar resposta a toda a península”, considerou Paula Santos, em declarações aos jornalistas.


Alfinetada aos autarcas

- PUB -


Cerca de 40 minutos antes do início da ação, à porta do hospital, quando ainda se contavam pelos dedos os presentes, ouvia-se um desabafo, que reflete o desânimo existente na comunidade. “Agora, não ficava grávida, não. Deus me livre”, soltava uma mulher, na casa dos 60 anos, para uma outra que a acompanhava.


Às 10 horas, a entrada do hospital estava repleta de gente, eram às centenas, e os discursos não demoraram, com Antonieta Bodziony, da CUSP do Barreiro, a abrir as intervenções.


“Sejam bem-vindos os eleitos de Barreiro, Alcochete, Montijo e Moita. Temos de estar todos ao lado dos utentes em defesa do SNS, da maternidade do Barreiro, da cardiologia, de mais médicos de família para os utentes. Todos são bem-vindos, pena que não tenham estado ao nosso lado, dos utentes, em ações anteriores, porque se calhar hoje as coisas seriam diferentes”, lamentou a responsável, numa crítica direta aos líderes dos quatro executivos municipais.


E José Manuel Fernandes, da Comissão de Utentes da Baixa da Banheira, disparou de seguida sobre a tutela: “Fazem isto com o maior desplante, com a maior simplicidade, não atendendo sequer aos crimes que têm cometido, nos partos em ambulância, na rua, à porta até dos serviços do hospital”.


A crítica aos sucessivos governos foi depois acentuada por João Veiga, da Comissão de Utentes do Montijo. “Hoje é um dia de luto, pela morte lenta do SNS. As políticas que têm sido seguidas na Saúde são vergonhosas, é um total abandono [aos utentes], é transformar a Saúde no negócio da doença. Estão a roubar-nos uma das conquistas mais importantes do Portugal de Abril: o direito à Saúde. Estamos a assistir a um retrocesso total, que é abandonar o povo à sua sorte”, observou o montijense.


Sentimento dos profissionais


O novo modelo de urgências regionais de obstetrícia anunciado pela ministra também não escapou à contestação de André Gomes, presidente da comissão executiva da Federação Nacional dos Médicos (FNAM). “Isto não é concentração de urgências, isto será o encerramento da Urgência Obstétrica do Barreiro, de Setúbal, de Vila Franca e de Loures, entre outras no País. E no dia em que Setúbal também fechar, estamos a falar de todo o Litoral Alentejano a ir para Almada, são 150 quilómetros até Almada. Não basta encerrar serviços, o que é preciso é profissionais que faltam nesta região. Almada não irá aguentar, as grávidas terão de ir para Cascais, para Lisboa”, afirmou o responsável da estrutura sindical dos médicos, que foi secundado por Zoraima Prado, do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses.


“O sentimento dos trabalhadores e, em particular dos enfermeiros, é de que esta casa tem estado a ser destruída, que os seus direitos têm estado a ser atacados, e vive-se numa incerteza e numa angústia de não se saber como irá ser o seu posto de trabalho, para onde se tem de ir trabalhar e que direitos se mantêm nessa circunstância”, juntou.


De permeio, Luís Leitão, dirigente da União de Sindicatos de Setúbal, não deixou de lembrar: “Tantas vezes estivemos aqui à porta deste hospital a dizer que contratem mais médicos, valorizem os serviços, os profissionais, desde os médicos aos auxiliares. É por aí que o SNS tem de ir e não a despejar dinheiro para interesses privados”.


Jéssica Pereira, da CUSP do Barreiro e vereadora da autarquia barreirense eleita pelo PCP, encerrou as intervenções. “É inacreditável como se deixam as mulheres de Barreiro, Alcochete, Montijo e Moita sem um serviço essencial, pelo qual as populações lutaram. Sim, esta é uma luta que nos deve unir, mas também a cardiologia que foi fechada nos deve unir. Se calhar está na hora, não das populações se juntarem aos autarcas, mas sim dos autarcas estarem aqui independentemente da cor do Governo”, concluiu.

Partilhe esta notícia
- PUB -

Notícias Relacionadas

- PUB -
- PUB -

Apoie O SETUBALENSE e o Jornalismo rumo a um futuro mais sustentado

Assine o jornal ou compre conteúdos avulsos. Oferecemos os seus primeiros 3 euros para gastar!

Quer receber aviso de novas notícias? Sim Não