Atrasos em fisioterapia, carências alimentares e cuidados médicos irregulares são as principais queixas
Depois da polémica em que a Casa dos Marcos – Raríssimas, no concelho da Moita, esteve envolvida em 2017, com o desvio de milhares de euros por parte da presidente, a instituição volta a estar sob escrutínio, desta vez por familiares que denunciam negligência no cuidado aos utentes.
Imobilização desadequada de pacientes, pessoas que passam mais de 15 horas na cama, fraldas cheias de urina que não são trocadas durante longos períodos, escassez de comida nas refeições dadas aos utentes e falta de condições de segurança e higiene são algumas das muitas queixas que O SETUBALENSE recebeu por parte de algumas famílias.
Carlos Marinho é uma das pessoas que tem uma familiar internada na área dos Cuidados Continuados Integrados (CCI), vítima de um AVC sofrido no último mês de janeiro. Uma vez que a Casa dos Marcos tem um protocolo com a segurança social para este tipo de situações, a familiar de Carlos foi encaminhada para a instituição até se reabilitar. No entanto, desde o mês passado, já foram apontadas várias situações alegadamente negligentes tidas por quem lá trabalha. “São doentes que são colocados na cama às 17h30 e, algumas vezes, são levantados apenas ao meio-dia do dia seguinte. Chegam a ficar com a fralda cheia de urina durante imenso tempo. Ao nível das refeições, estas são muitas vezes insuficientes. Para que se tenha uma ideia, às vezes os utentes querem repetir o chá e as funcionárias dizem que não há. Chegam até a dar metade de uma sandes aos doentes e eles ficam com fome na mesma”, relatou Carlos Marinho.
Esta familiar necessita ainda de fisioterapia durante o protocolo de 90 dias que tem com a instituição. No entanto, Carlos Marinho conta que a Casa dos Marcos está dependente de uma única fisioterapeuta e, quando esta tem de se ausentar, ficam sem uma resposta para os utentes. Indica ainda que já fez várias queixas, tanto no livro de reclamações como por e-mail, sendo que a única resposta que obtém é a de que estão a tentar resolver o problema.
Imobilização de doente violou normas clínicas e gerou indignação
Gabriela Paiva é uma das outras pessoas que denuncia práticas irregulares nesta instituição. As fotografias que enviou ao jornal comprovam aquilo que diz: “As condições são altamente impossíveis. Neste momento a minha filha está numa cama quase toda desmontada. Encontrei-a imobilizada, sendo que a médica dela já tinha referido que essa imobilização era proibida”.
Esta mãe de uma mulher de 27 anos que se encontra na Raríssimas há cerca de cinco anos, conta que fez já várias reclamações e exposições às quais não obteve uma resposta que justificasse aquilo que acontecia com a filha.
Num e-mail a que O SETUBALENSE teve acesso, a Raríssimas indica como resposta a Gabriela Paiva que “a instituição enfrenta dificuldades financeiras significativas, que poderão a curto prazo conduzir à suspensão e/ou condicionantes na prestação de serviços”.
Instituição assegura monitorização diária e cumprimento das normas legais
Numa resposta a um conjunto de questões enviadas ao presidente da Casa dos Marcos, este nega as acusações de que a direção é alvo ao referir que “não é prática da instituição a ocorrência de situações em que utentes permaneçam imobilizados por períodos prolongados sem alteração de posição”.
“A monitorização diária do estado físico e clínico dos utentes é assegurada pelas equipas de enfermagem, em articulação com os profissionais médicos. A instituição dispõe de supervisão permanente de enfermagem e de acompanhamento médico regular”, pode ler-se na resposta dada pela direção da Casa dos Marcos, que acrescenta ainda que esta se encontra “sujeita a auditorias internas e a inspeções externas por parte das entidades competentes, no âmbito normal do seu funcionamento. Paralelamente, a Direção tem vindo a desenvolver diligências contínuas junto das entidades relevantes com vista a reforçar os recursos disponíveis, nomeadamente ao nível do rácio de profissionais, garantindo o cumprimento das normas legais em vigor”.


