ODia dos Namorados (que se celebrou no passado sábado) é um dia dedicado a celebrar o amor, o afeto e a união – um amor que assenta, antes de tudo, na amizade e no respeito. Infelizmente, muitos têm uma visão distorcida do que é realmente amar, e a própria sociedade contribui para alimentar essa ideia.
Este dia não traz apenas rosas e chocolates, carrega também consigo um profundo silêncio das vítimas do “amor”, uma poderosa arma capaz de esconder marcas. Não me refiro só a marcas de violações físicas ou sexuais, pois essas são as mais notórias e socialmente reconhecidas (e, por isso, também as mais julgadas), mas principalmente a marcas não visíveis, que causam danos irreversíveis e, frequentemente, impossíveis de provar. Não será este tipo de violação o mais violento?
Pasmem-se, pois esta é a mais comum…
Na escola, no metro, no café, no trabalho, na mesa em que jantamos – independentemente da idade, do nível educacional, do género, da orientação sexual, da extroversão ou, mesmo, da maturidade da pessoa – pode estar diante de nós, sem que nos apercebamos, uma vítima. Nem mesmo os amigos e familiares mais próximos se dão conta desta realidade até ao dia em que, por consequência de um jogo psicológico adorado por autores destas violações, a vítima isola-se.
Muitas creem que ainda são donas da própria mente, quando, por vezes, há muito que já não o são. Outras minimizam o comportamento do(a) agressor(a), culpabilizando-se pelas condutas violentas de que são alvo. E não há como censurá-las por acreditarem piamente em tal coisa, uma vez que a sociedade o presume e verbaliza diariamente, perpetuando esta ideia errada.
A normalização social deste comportamento tem ainda uma outra consequência severa e alarmante: o/a perpetrador/a é incapaz de ter consciência de si enquanto violador(a). É tamanha a manipulação, que acabam por acreditar na sua própria encenação. Já os que se reconhecem como tal revelam descaramento e ausência de pudor.
A vergonha só devia estar de um lado, no entanto, recai, na grande maioria dos casos, sobre a vítima, sobretudo quando esta é do sexo masculino, em resultado de um discurso misógino de terceiros, muitas vezes “amigos” da vítima, que a consideram menos masculina. Quando, na verdade, a única masculinidade que tais posições defendem é a masculinidade tóxica. Por outro lado, este mesmo discurso torna-os cúmplices quando se fala de um agressor homem, ao incentivarem tal ato, mesmo que indiretamente, tornando, assim, a violação confortável e favorável ao agressor.
Apelo à atenção de todos para observarmos ao nosso redor: amigos, familiares e, mais importante, nós mesmos, numa tentativa de ajudar ou identificar uma relação marcada por este “amor” – o amor ao controlo. Ou, não querendo ou não podendo ser o herói da vítima, só não sejas o “álibi” do(a) violador(a), pois a culpa só tem um lado. Realço, por fim, para toda a sociedade, que quando se fala de qualquer tipo de violação, absolutamente ninguém se mete “a jeito”. Todos podem ser vítimas e todos podem ser violadores, mas apenas um destes é uma escolha.