Há um fenómeno novo na sociedade a que chamei, numa tese de mestrado: “A Facilidade Ilusória”. Não me assusta a tecnologia que os alunos trazem no bolso, assusta-me a demissão voluntária do pensamento que lhes está a ser vendida. Há uma narrativa a instalar-se, repetida em relatórios internacionais e artigos na comunicação social, de que o professor, “libertado” da carga de ensinar conteúdos pela Inteligência Artificial, deve limitar-se a ser um “mentor” ou “facilitador” e isso é uma demissão voluntária do pensamento.
Vamos ser claros: não sou contra a IA. Não defendo a proibição da tecnologia nas escolas. A IA é uma ferramenta poderosa e os alunos precisam aprender a usá-la. Mas existe uma diferença abismal entre um papagaio e um humano.
O perigo da “facilidade ilusória” é precisamente este: a máquina entrega um resultado perfeito (um texto, um código, uma tradução) sem que o aluno tenha passado pelo processo cognitivo para lá chegar.
Para usar a IA com eficácia, o aluno precisa de saber mais, e não menos. Se eu peço ao ChatGPT para escrever um ensaio sobre História ou corrigir um problema matemático, eu preciso de ter o conhecimento prévio – a cultura, a lógica, as bases – para validar se aquilo é verdade ou se é uma “alucinação” estatística. Usar a IA sem ter as bases do conhecimento não é “usar a ferramenta”; é ser utilizado por ela.
A pedagogia que defende apenas o papel de “mentor” ignora como o cérebro humano funciona. Pensem num ginásio: se eu usar um robô para levantar pesos por mim, não altera o robô. Eu fico flácido. Na escola, a lógica é a mesma. Aprender exige pensamento lógico. Se a IA assume todo o esforço, estamos a criar uma geração dependente. Jovens capazes de apresentar trabalhos impecáveis, mas que ficam mudos quando lhes pedimos para explicar o raciocínio sem a tecnologia na mão.
A ideia de dividir a educação em duas fatias – a cognitiva (para a IA) e a emocional (para o professor) – é um erro filosófico grave. Não existe pensamento crítico sem a dor do esforço intelectual e os algoritmos dão ao aluno apenas o que ele já gosta, o que é fácil, o que não o incomoda. Ora, o meu dever como professor é incomodar! É tirar o aluno da sua bolha, é confrontá-lo com a História difícil, com a Ciência complexa, com o contraditório. Um professor que não ensina conteúdos, que não domina a ciência e a técnica, não é um educador; é um cúmplice da ignorância.
Não confundam acesso a informação com conhecimento. A informação está na IA; o conhecimento é nosso!.
Cuidado com a ilusão de que a tecnologia substitui o esforço. Um educador não é um animador de auditório nem um gestor de tecnologia. Somos os guardiões da realidade e da competência humana. No dia em que aceitarmos ser apenas “mentores” enquanto a IA faz o trabalho sujo de “pensar”, teremos decretado o fim da inteligência humana autónoma. E eu, que sou adepto de toda a tecnologia, vou continuar a resistir a ser um analfabeto funcional de alto nível.