Este monumento de interesse público encontra-se atualmente numa situação de acelerada degradação
Várias associações e instituições ligadas à salvaguarda do património apelaram a uma intervenção urgente para salvar a Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, no Seixal, um monumento de interesse público que sofreu inundações durante as intempéries.
O apelo foi feito em comunicado pelas associações portuguesas de Arqueologia Industrial (APAI), de Museologia (APOM) e do Património Industrial (APPI), assim como pelo grupo de trabalho de Estudo e Preservação de Património Industrial e Científico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, pelo ICOM Portugal — International Council of Museums e pelo ICOMOS Portugal — International Council on Monuments and Sites.
A Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços é um sítio patrimonial pós-industrial, localizado no concelho do Seixal, e faz parte do Ecomuseu Municipal do Seixal desde 2001. Foi classificada em 2012 como monumento de interesse público.
Segundo as organizações, este monumento de interesse público, que está sob tutela direta da Câmara Municipal do Seixal, encontra-se atualmente numa situação de acelerada degradação do património imóvel e do património móvel integrado, que “rapidamente poderá resultar na perda deste importante local”.
Na sequência das condições atmosféricas adversas, explicam as organizações, desde o dia 04 de fevereiro que o espaço tem sido “severamente afetado por uma inundação de grandes proporções, com impacto numa área significativa, abrangendo diversos imóveis, estruturas históricas e equipamentos”.
Numa publicação feita na sua página no Facebook, no dia 06 de fevereiro, a APAI indicou que mais de um terço do recinto da antiga unidade fabril, com cerca de 13 hectares, terá ficado submerso, afetando mais de metade dos imóveis do complexo.
“A inundação atingiu com particular gravidade as máquinas centenárias, quer as caldeiras quer as máquinas a vapor, provocando estragos significativos”, descreveu a associação, adiantando que “só uma intervenção muito significativa poderá restaurar o que foi estragado”.
O sistema de produção de energia mecânica a vapor existente naquele espaço é constituído por uma caldeira geradora de vapor, de 1911, e uma máquina a vapor, de 1900, que ainda funcionava, mostrando ao mundo da era digital como trabalhava uma fábrica na era do vapor.
De acordo com os subscritores do comunicado enviado à agência Lusa na segunda-feira, “os resultados devastadores desta ocorrência relacionam-se com o prolongado desinvestimento público e com a insuficiência de medidas e meios de manutenção, que conduziram a uma degradação estrutural do património em causa”.
Em 2025 foi reconhecida relevância excecional ao património da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços, com a nomeação ao programa europeu “7 Most Endangered 2026”, promovido pela Europa Nostra e pelo EIB Institute — iniciativa que identifica patrimónios em risco iminente de degradação ou perda irreversível e cuja salvaguarda é considerada prioritária.
As associações adiantam que é do conhecimento público a necessidade de concretização de medidas no âmbito das infraestruturas de águas e saneamento, que permitiriam a preservação do sítio patrimonial e dariam resposta ao crescimento urbano na envolvente da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços.
Sustentam que já noutras alturas ocorreram inundações no perímetro da Fábrica de Pólvora.
Apesar de serem de menor gravidade do que a que se verifica desde o dia 04 de fevereiro, salientam que desencadearam sucessivos alertas para riscos que colocavam em causa “não só o bem patrimonial, como toda a área urbana envolvente e que trazem repercussões negativas para toda a comunidade local”, situação que se veio agora a verificar.
As associações e instituições apelam assim a uma conjugação de esforços e à implementação de medidas concretas que invertam o processo de perda do património da Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços e potenciem, no futuro, a sua valorização, assente na fruição pública e na sua sustentabilidade enquanto monumento de interesse público.
Manifestando-se preocupadas com a situação, as organizações pedem que a intervenção seja urgente e concertada entre a entidade tutelar e a administração central do património cultural, de acordo com as responsabilidades legais.
“A inação resultará na perda irreversível de um bem único da história industrial, científica e tecnológica portuguesa, com consequências graves para o património cultural nacional e internacional”, salientam.