Tempestades

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Tempestades

, Deputada da IL
16 Fevereiro 2026, Segunda-feira
Deputada da IL

Há momentos em que a palavra “tempestade” descreve mais do que o estado do tempo e, por isso, escrevo sobre duas que marcaram os últimos dias: uma política, em torno das eleições presidenciais; outra bem real, de vento e chuva, que deixou marcas profundas em várias comunidades. São realidades diferentes, mas ambas revelam fragilidades que há muito adiamos enfrentar, e a esperança de que, depois da turbulência, venha a bonança.

As eleições presidenciais deixaram em muitos portugueses a sensação de que poderia ter existido um rumo diferente. A candidatura de João Cotrim Figueiredo trouxe esperança a quem acredita que Portugal precisa de reformas estruturais e reforçou a convicção de que o Presidente da República, pela influência institucional que tem, deve assumir um papel ativo: desafiar governos, questionar o conformismo e incentivar mudanças. Foi essa possibilidade que muitos sentiram ter ficado pelo caminho. O tal impulso reformista de que o país precisa, num momento que exige mais ambição e menos resignação perante o status quo.

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O resultado eleitoral deixou-nos, assim, com um Presidente que dificilmente assumirá esse papel mais exigente, com um Governo que, até ver, tem revelado pouca ambição, apesar de todas as promessas. Não está em causa a legitimidade democrática, claro, mas a vontade de promover mudanças estruturais. Sem maior exigência institucional, arriscamo-nos a anos de mera gestão corrente. E o imobilismo paga-se caro em oportunidades perdidas.

Entretanto, outra tempestade impôs-se com violência. As condições meteorológicas provocaram grande destruição em várias zonas do país, interrompendo rotinas, desalojando famílias, encerrando empresas, comprometendo infraestruturas e deixando muitas pessoas sem saber quando poderão regressar à normalidade.

Em Leiria registaram-se danos significativos. Ao longo do Tejo e do Vouga, várias zonas foram atingidas por cheias e inundações. Em Alcácer do Sal, o Sado subiu e deixou partes da cidade debaixo de água. Em Coimbra, o risco mantém-se muito elevado, parte da A1 ruiu, e existem planos para a eventual deslocação de milhares de pessoas.

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Aqui mais perto, também há zonas fortemente atingidas. As situações mais preocupantes acontecem em Almada: no Porto Brandão, onde cerca de 400 pessoas foram retiradas das suas casas devido ao risco de deslizamento de terras; no Olho de Boi, onde os moradores estão praticamente isolados há vários dias; e na Costa da Caparica, onde a instabilidade da Arriba causou estragos em várias habitações e obrigou à evacuação de outras. Uma nota pessoal sobre esta última situação: estive no local e foi impossível não sentir a vulnerabilidade de quem vê a sua segurança ameaçada e a sua vida suspensa.

A todas as vítimas deixo uma palavra de solidariedade. E deixo uma palavra de reconhecimento a todos os que estão no terreno, em condições difíceis, a apoiar as populações.

Para o futuro, estes acontecimentos devem servir de alerta. Os municípios precisam de mais meios de resposta e de maior capacidade para investir seriamente na prevenção. É essencial planear melhor, intervir nas zonas de risco, e evitar a construção em locais reconhecidamente sujeitos a cheias ou deslizamentos. Prevenir exige visão e responsabilidade. E são as mesmas qualidades que faltam quando adiamos reformas e decisões estruturais.

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