Quando os versos dizem a Cidade

Quando os versos dizem a Cidade

Quando os versos dizem a Cidade

, Professor
11 Fevereiro 2026, Quarta-feira
Professor

Perante a cidade, o nosso olhar corre sempre sobre uma construção, um artifício, que muito nos diz sobre o tempo e sobre a história, sobre as pessoas e a sua relação com o mundo. Descobrimos a cidade, criamos relações com ela. Tentamos desenhá-la, dizê-la ou mostrá-la de acordo com as cores e as linhas que nos tocam e, muitas vezes, deixamos que aquele corpo urbano nos surpreenda, nos faça pensar e nos ensine, mesmo que nem sempre a cidade corresponda à utopia que idealizámos. São de Luís Filipe Castro Mendes, viajante e poeta, os versos “De todas as cidades que atravessámos / nenhuma nos deu o mágico elixir, / mas todas nos ensinaram alguma coisa / daquilo que cresce ainda dentro de nós.” (in “A misericórdia dos mercados”, 2014).

A cidade como motivo poético foi o desafio que a Associação Casa da Poesia de Setúbal propôs aos seus membros como tema para a antologia “A Cidade e Outros Poemas” (2025), a nona desde que este projecto começou e que, em anteriores edições, já abarcou: homenagem a figuras como Bocage, Calafate, Frei Agostinho da Cruz, Maria Adelaide Rosado Pinto ou Sebastião da Gama; defesa de valores identitários como o significado do 25 de Abril ou os Direitos Humanos; momentos de surpresa e de aprendizagem com que a vida nos contempla, como foram a pandemia ou a guerra. Desta vez, a cidade, como tela para que as palavras a pintem, como janela por onde vemos o mundo e a vida, como espelho de histórias, impõe-se e alimenta os versos de 31 autores, acrescentando-se ainda neste livro um grupo de poemas de tema livre (onde há espaço para a evocação do amor, o olhar por vezes crítico sobre a sociedade, o sentimento perante a ausência do outro, o sonho como construtor do futuro, o valor da poesia, a sensibilidade do eu, a afirmação de valores e de referências ou retratos de identidade) assinados por 19 nomes, grande parte deles colaborando nas duas partes da antologia.

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As emoções perante a cidade são, muitas vezes, contraditórias, o que não espanta, porquanto a cidade é uma construção, um artifício, com todas as vicissitudes e qualidades que lhe possamos adivinhar.

Por este mapa urbano passam cidades várias — Setúbal, obviamente, mas também Lisboa, Reguengos, Porto — como estão presentes recantos específicos de algumas delas — Praça de Bocage, Sado, Arrábida, Fontainhas, no caso de Setúbal, ou Alfama e a Rua dos Fanqueiros, relativamente a Lisboa, ou o Bolhão, na geografia do Porto. Há ainda marcas simbólicas destes espaços, como o rio, os eléctricos, a tipologia das casas, os monumentos, as chaminés das fábricas, os sons das ruas, as figuras características, a mancha urbana… sempre numa tentativa de se misturarem as cores, os ecos, a paisagem e os sentimentos de quem escreve, fórmula que permite, muitas vezes, que resulte uma sobreposição da imagem da cidade com o percurso autobiográfico do autor, sobretudo quando ocorre a comparação da cidade que existiu com a cidade que está ou quando se recorda a cidade da infância com o olhar sobre a cidade de agora, formas, afinal, de garantir a vida, independentemente dos sentidos em que ela corra.

Quando o retrato da cidade se cola ao percurso da vida, à memória, o sentimento é o do refúgio na cidade da infância, gerando-se alguma estranheza na cidade de agora, por vezes até um sentimento de rejeição e de tristeza relativamente às imagens do presente, de desenraizamento — seja pela paisagem urbana, pelo barulho, pelo anonimato e pelo distanciamento entre tantos, pelo desaparecimento do verde e das flores ou pelo tom excessivo do artificial. Por outro lado, há a procura das sensações da cidade quando tudo adormece, quase como sendo necessário invocar o silêncio da noite para que a cidade se permita entender.

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As sonoridades da cidade surgem, normalmente, associadas ao ruído, o que dificulta a sua aceitação; no entanto, em alguns poemas, é notória a necessidade de este espaço ser povoado pelo sussurrar das conversas e dos becos e pelos sons das crianças, anúncios de felicidade e de futuro. Surge, por vezes, a imagem da cidade como o palco ou cenário ideal onde tudo pode acontecer, incluindo a cidade feliz, o espaço da alegria ou a cidade como o reino da utopia. E, aspecto importante, as visões apresentadas da cidade resultam dos passos acontecidos pelas ruas e em tempos diversos, num evidente olhar pensado, em que as palavras acompanham também o deambular desses passos, porque… só podemos falar da cidade se a percorrermos.

Assim, estes olhares de “A Cidade e Outros Poemas” apresentam-se como uma re-invenção ou uma forma de apropriação dos espaços. Que o digam as vozes que por esta antologia ecoam — textos que se deixam enredar pela cidade, por vezes nomeando-a, por vezes iluminando os seus símbolos, por vezes laborando na cidade que gostariam que fosse… Palavra a palavra, verso a verso, são bairros de poemas que avistamos, lemos, imaginamos. A cidade fica mais humana com o tom da voz e das emoções, sorridente porque a paleta das palavras a ajudou a mostrar-se.

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