Não há vitórias pré-anunciadas. Vivemos no tempo das sondagens, em que todos os dias somos confrontados com gráficos, percentagens e projeções sobre quem vai ou não vencer eleições. Mas só se vence quando os votos estão contados.
Este debate não é sobre as sondagens “acertarem” ou “falharem”. É sobre a forma como influenciam o eleitorado e o comentário político. Nos últimos anos, assistimos a uma verdadeira comercialização das sondagens, que levou a um aumento exponencial da sua produção e difusão.
Esse excesso provoca análises precipitadas, e muitas vezes erradas, sobre o que vai acontecer no dia das eleições. Cria a perceção de que o vencedor já está escolhido ou, pelo contrário, de que já não vale a pena votar porque o candidato em que se acredita está condenado à derrota.
Um dos exemplos mais claros aconteceu nas eleições autárquicas de 2021, em Lisboa. Durante meses, praticamente todas as sondagens apontavam para uma vitória confortável de Fernando Medina, com maioria absoluta garantida. O ambiente era de segurança, de resultado fechado, de eleição decidida à partida.
No dia das eleições, o resultado foi exatamente o oposto. Medina perdeu a Câmara Municipal de Lisboa. Não apenas porque as sondagens falharam, mas porque ajudaram a criar um contexto de desmobilização eleitoral. A sensação de maioria absoluta afastou das urnas um eleitorado menos convicto.
Este cenário está hoje novamente presente nas eleições Presidenciais de 2026.
Algumas sondagens apontam para uma vantagem muito expressiva de António José Seguro sobre André Ventura, sugerindo diferenças esmagadoras. Independentemente da leitura técnica desses números, o efeito político é claro: instala-se a ideia de que o resultado é inevitável.
E quando se acredita que uma eleição está decidida, muitos eleitores ficam em casa.
É aqui que as sondagens deixam de ser apenas instrumentos de análise e passam a ter impacto direto no funcionamento da democracia. António José Seguro enfrenta, paradoxalmente, o maior desafio de mobilização. Sendo uma candidatura agregadora, que junta eleitores da esquerda, do Partido Socialista e da direita democrática, corre o risco de afastar eleitores mais distantes ideologicamente. Uma vitória pré-anunciada pode levar comunistas mais convictos ou liberais mais à direita a sentirem que já não é necessário ir votar. Afinal, “Seguro já está eleito pelas sondagens”.
Mas as sondagens não votam. A democracia decide-se nas urnas.