A dignidade humana não vai a votos

A dignidade humana não vai a votos

A dignidade humana não vai a votos

, Gestor de Programas do Sector Social (migrações) e Dirigente Associativo
6 Fevereiro 2026, Sexta-feira
Gestor de Programas do Sector Social (migrações) e Dirigente Associativo

Num tempo de incerteza e de ruído político, há uma pergunta que devia anteceder qualquer debate eleitoral. Que ideia de ser humano estamos dispostos a defender. As eleições presidenciais de 8 de fevereiro não são apenas um exercício formal de escolha institucional. São, sobretudo, um teste moral à nossa democracia.


Assistimos, em Portugal e um pouco por toda a Europa, ao crescimento de discursos que normalizam a exclusão, relativizam direitos fundamentais e apontam os migrantes como problema estrutural. Estes discursos apresentam se muitas vezes com uma linguagem aparentemente pragmática. Falam de controlo, de ordem ou de segurança. Mas escondem uma visão perigosa. A de que a dignidade humana é condicional, negociável ou hierarquizável.

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Essa ideia não é nova. A história europeia conhece bem os momentos em que a lei do mais forte tentou substituir se ao primado da razão, do direito e da ciência. Sempre que isso aconteceu, os resultados foram devastadores. Erosão da democracia, perseguição de minorias, normalização do ódio e enfraquecimento das instituições. Quando a política abdica do humanismo, deixa de servir as pessoas e passa a servir o medo.


Os imigrantes tornam se, nesses contextos, o alvo preferencial. Não porque representem uma ameaça real à democracia, mas porque são politicamente úteis como bode expiatório. Reduzidos a números, a rótulos ou a suspeitas permanentes, são despojados daquilo que deveria ser inegociável. O reconhecimento pleno da sua condição humana.


É precisamente aqui que a Presidência da República assume um papel central. Não governa, mas define o tom ético do regime. Não legisla, mas legitima ou trava derivas que colocam em causa o Estado de direito. Um Presidente não pode ser neutro perante projetos políticos que defendem centros de detenção indignos, políticas migratórias baseadas na humilhação ou narrativas que confundem diversidade com ameaça.

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Defender os direitos dos imigrantes não é um capricho ideológico. É uma consequência lógica do compromisso constitucional com a dignidade da pessoa humana, com a igualdade perante a lei e com os direitos universais. Quem aceita abrir exceções nestes princípios para alguns prepara o terreno para que amanhã sejam retirados a muitos.


Portugal construiu se, enquanto democracia, a partir da recusa do autoritarismo, do dogma e da exclusão. Esse património não é apenas histórico. É uma responsabilidade presente. Cada eleição é uma oportunidade de reafirmar que não aceitamos soluções fáceis baseadas no medo, nem projetos políticos que sacrificam pessoas em nome de uma falsa ideia de ordem.


Neste contexto, o voto ganha um significado que vai muito além da preferência pessoal. Votar numa candidatura claramente inscrita no espectro democrático é um ato de responsabilidade cívica. É afirmar que a Presidência da República deve continuar a ser um espaço de defesa da Constituição, dos direitos humanos e da dignidade de todas as pessoas, sem exceções nem hierarquias.

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A candidatura de António José Seguro representa essa tradição democrática assente no diálogo, no respeito pelas instituições e numa visão humanista da sociedade. Uma candidatura que não alimenta o medo nem explora fraturas, mas que reconhece na diversidade e na inclusão pilares essenciais de uma democracia madura.


No dia 8 de fevereiro, mais do que escolher um nome, escolhemos um limite. O limite que separa uma República fundada no humanismo de uma democracia vazia, onde tudo é aceitável desde que seja popular. A dignidade humana não é negociável. Não se relativiza. E, sobretudo, não vai a votos.


Cabe a cada cidadã e a cada cidadão lembrar que a democracia só sobrevive quando é defendida, inclusive quando isso exige coragem política, clareza moral e uma escolha consciente em defesa dos valores que nos definem enquanto comunidade política.

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