O Dia Mundial do Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, é uma iniciativa global da União Internacional de Controlo do Cancro (UICC), a maior e mais antiga organização dedicada à luta contra o cancro. Como se pode ler na página da Liga Portuguesa Contra o Cancro, o 4 de fevereiro tem como principais objetivos aumentar a consciencialização sobre a doença e promover a prevenção, a deteção precoce e o acesso equitativo a cuidados de qualidade.
Num contexto em que milhões de pessoas vivem com cancro e enfrentam desafios físicos, emocionais, sociais e económicos únicos, alerta a Liga, este dia reforça a necessidade de sistemas de saúde que coloquem as pessoas no centro dos cuidados. Por isso, lê-se ainda no site da LPCC, assinalar esta data é essencial porque o cancro é a segunda causa de mortalidade mundial; mais de um terço dos casos de cancro pode ser prevenido; outro terço pode ser curado se detetado e tratado a tempo; e fazer ouvir a voz das pessoas afetadas é fundamental para melhorar a experiência e os resultados dos cuidados prestados.
João Rato, especialista em oncologia médica e coordenador do Centro de Oncologia do Hospital da Luz Setúbal, ajuda-nos a compreender melhor a importância de assinalar o Dia Mundial do Cancro com a resposta a algumas perguntas simples sobre este tema.
O cancro continua a ser uma doença cujo diagnóstico muitos receiam. Uma mensagem responsável deve ser mais otimista ou mais assustadora?
A mensagem deve ser verdadeira. Nem alarmista, nem ingénua. O cancro continua a ser uma palavra que assusta — e é natural que assim seja. Mas hoje, em 2026, a realidade é muito diferente daquela que muitos ainda têm na memória. Temos mais diagnósticos precoces, terapêuticas mais eficazes, tratamentos personalizados e taxas de sobrevivência que aumentaram de forma muito significativa em várias patologias. Assustar pode gerar medo. E o medo paralisa. Informar com verdade gera responsabilidade.
A mensagem deve ser esta: o cancro existe, é uma doença séria, mas cada vez mais tratável — e, em muitos casos, curável. Quanto mais cedo diagnosticado, melhores os resultados. O objetivo não é criar pânico. É criar consciência.
A prevenção é mesmo “o melhor remédio” no caso da doença oncológica?
Sem dúvida. A prevenção primária — não fumar, manter peso saudável, exercício regular, vacinação, alimentação equilibrada — reduz claramente o risco de vários tipos de cancro. Mas muitas vezes esquecemo-nos da prevenção secundária: os rastreios.
Muitos dos tumores que tratamos com sucesso foram detetados em fase inicial, antes mesmo de causarem sintomas. E isso muda tudo.
Como oncologista, vejo diariamente o impacto da prevenção. Não é uma frase bonita. É um facto clínico. Prevenir e diagnosticar cedo salva vidas e reduz sofrimento.
O cancro é cada vez mais prevalente entre populações jovens. Verdade ou mito? E sabe-se porquê?
É parcialmente verdade. Globalmente, o envelhecimento da população continua a ser o principal fator para o aumento da incidência de cancro. No entanto, em alguns tipos específicos — como o cancro do cólon, por exemplo — temos assistido a um aumento em faixas etárias mais jovens. As razões não são totalmente claras, mas pensa-se que estejam relacionadas com alterações nos estilos de vida, obesidade, sedentarismo, padrões alimentares, fatores ambientais e possivelmente alterações do microbioma.
Importa dizer algo com equilíbrio: o cancro continua a ser mais frequente em idades avançadas. Mas não devemos ignorar sintomas persistentes em pessoas jovens. Informação e acesso atempado a cuidados são essenciais.
De que modo o Hospital da Luz Setúbal é distintivo nesta área?
O que nos distingue é a combinação entre ciência, organização e humanidade. No Hospital da Luz Setúbal, o doente não é apenas um diagnóstico. É uma pessoa com uma história, família, medos e expectativas. Trabalhamos em equipas multidisciplinares estruturadas — senologia, digestivo, urologia, pulmão — garantindo decisões partilhadas e baseadas na melhor evidência científica. Temos acesso a terapêuticas inovadoras, participação em ensaios clínicos e circuitos organizados que evitam atrasos desnecessários. Mas aquilo de que mais me orgulho é da proximidade. Conhecemos os nossos doentes pelo nome. Acompanhamos o percurso. Não tratamos apenas a doença — tratamos a pessoa. E acredito genuinamente que o Hospital da Luz Setúbal tem ainda um caminho muito promissor pela frente. Estamos a consolidar projetos de sobrevivência oncológica, acompanhamento a longo prazo e integração de cuidados que nos permitem olhar para o futuro com confiança.
O cancro exige competência técnica. Mas também exige compromisso humano.