FACTO DO ANO 2025 NO DISTRITO DE SETÚBAL. A saúde é a área que tem dado maiores dores de cabeça aos portugueses e ao Governo e a região de Setúbal surge como a região mais afetada. Em 2025 a península destacou-se pela negativa
A população já sentia no corpo, há vários anos, que os hospitais e centros de saúde da Península de Setúbal funcionam com muitos problemas, sobretudo devido á falta de pessoal médico, mas, em 2025, o estatuto de pior região do país no que diz respeito ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) foi “formalmente” confirmado.
Tanto as estatísticas – sobre o encerramento das urgências ou a mortalidade infantil -, como os responsáveis políticos, comprovaram que o grau do problema é mais grave na nossa região.
Por exemplo, o relatório da Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) revelou em ano e meio urgências de obstetrícia da Península de Setúbal funcionaram menos de metade do tempo e que, no Hospital de São Bernardo, esse serviço esteve encerrado 371 dias durante este período. Nas outras duas urgências da região o cenário não foi muito melhor.
O relatório da IGAS mostra que, ao longo de 547 dias, entre janeiro de 2024 e junho de 2025, o serviço do Hospital de São Bernardo, em Setúbal, esteve fechado 371 dias, no Barreiro fechou 324 dias e no Garcia de Orta, em Almada 296 dias.
Nos primeiros seis meses do ano, a região ficou três dias sem qualquer urgência de obstetrícia e ginecologia a funcionar, uma vez que a 20, 25 e 26 de abril nenhum hospital abriu o respetivo serviço de urgência.
Este relatório avaliou a capacidade das urgências de obstetrícia na Península de Setúbal, sendo que, segundo o documento, o principal problema é a falta de especialistas em obstetrícia nos três estabelecimentos de saúde. Em Setúbal, dos 11 especialistas que ali trabalham só três têm menos de 50 anos e, por isso, fazem todo o tipo de urgências. No Barreiro, dos 9 que fazem urgências há 4 que têm mais de 59 anos e que realizam “bancos” sem qualquer obrigação. Já o Garcia de Orta está dependente dos internos para conseguir ter escalas.
De acordo com a lei, a partir dos 50 anos os médicos estão livres de fazer bancos noturnos e após os 55 podem não fazer quer de noite quer de dia. Em comparação entre os primeiros seis meses de 2025 e 2024, o relatório aponta que em Setúbal, o aumento de dias de fecho foi de 102 para 148 dias, no Barreiro de 98 subiu para 112, e no Garcia de Orta passou de 62 dias para 89,5 o número de dias sem funcionar.
Envelhecimento dos médicos preocupa
A falta de médicos, juntamente com a idade dos que trabalham nestes hospitais, são apontadas como as causas maiores do problema. De acordo com o relatório, no Hospital de São Bernardo há 11 médicos e cinco internos, mas, dos especialistas, quatro têm entre 50 e 60 anos e outros quatro mais de 60. Tendo em conta esta situação, a IGAS deixa o alerta para o “vazio geracional preocupante”. Ainda assim, são precisamente alguns destes médicos com mais de 50 anos que têm garantido a abertura de portas das urgências, uma vez que quatro deles, com 59, 61, 63 e 65 anos, aceitam fazer bancos de urgência, embora o possam recusar por lei, sendo graças a estes profissionais que o hospital conta com nove médicos para as escalas.
Ainda assim, no meio do ‘caos’, os inspetores da IGAS deixaram um elogio à forma como no Hospital de São Bernardo foi feito o planeamento dos dias de férias dos médicos.
Ministra reconhece “situação preocupante”
A ministra da Saúde reconhece que a situação que se vive na Península de Setúbal, no que diz respeito ao encerramento das urgências de obstetrícia/ ginecologia, é “muito preocupante”. “É insustentável termos a Península de Setúbal, como aconteceu este fim de semana, sem uma única urgência aberta. Isso não é possível”, disse Ana Paula Martins em Almada, em Setembro 2025.
O Governo procurou resolver o problema com a criação de um novo modelo de urgências regionais, aprovado no Conselho de Ministro em outubro, para arrancar como experiência piloto na região de Setúbal.
A ideia era juntar os recursos num único serviço, no Hospital Garcia de Orta, em Almada, mas o processo não ficou concluído até ao final do ano.
Península de Setúbal: Taxa de mortalidade infantil supera médias nacional e europeia
A taxa de mortalidade na Península de Setúbal é superior à média europeia e contrasta com a situação de Portugal, que está entre os melhores países da Europa. O alerta foi dado pelo bastonário da Ordem dos Médicos (OM), Carlos Cortes, realçando que na região a situação é mais preocupante, com uma taxa 3,7 casos por mil nascimento, acima da média europeia (3,2), enquanto na Grande Lisboa é de 2,6 por mil nascimentos.
Segundo dados do Eurostat divulgados no ano passado, em 2023, a mortalidade infantil em Portugal foi de 2,5 casos por mil nascimentos, abaixo da média europeia (3,2) e colocando o país no nono lugar entre os 27.
Em 2024, morreram 261 bebés com menos de um ano, sendo que na região de Lisboa e do Vale do Tejo os óbitos fetais e neonatais quase duplicaram em 2023, com mais de 106 casos em relação ao ano anterior, num total de 238.
Perante estas afirmações, a Unidade Local de Saúde da Arrábida (ULSA) veio garantir que mortalidade infantil na sua área de acção – Setúbal, Palmela e Sesimbra – é inferior à média nacional. Em 2024 foi de 2,78 por mil nados vivos, sendo inferior à média nacional que é de três óbitos por mil nados vivos. Já as ULS do Arco Ribeirinho e Almada e Seixal, que abrangem os restantes seis concelhos da península, e que ficam na fotografia como aquelas que sustentam o agravamento da mortalidade infantil, não se pronunciaram publicamente.