Oano de 2025 ficará registado como o periodo em que a Península de Setúbal atingiu um patamar inaceitável no funcionamento do Serviço Nacional de Saúde. Aquilo que a população sentia há muito tempo foi confirmado por relatórios oficiais e por responsáveis políticos: a região tornou-se a mais afetada do país pelos problemas no SNS. Esta realidade não pode ser relativizada nem normalizada.
Durante anos, os sinais de alerta foram-se acumulando. Encerramentos recorrentes de urgências, falta de médicos, escalas incompletas e respostas improvisadas passaram a fazer parte do quotidiano. Em 2025, essa sucessão de falhas conduziu a uma rutura evidente, com dias em que a Península de Setúbal ficou sem qualquer urgência de obstetrícia e ginecologia a funcionar. Situações destas expõem grávidas, bebés e famílias a riscos que um Estado social não pode admitir.
O mais grave é que falamos de uma das regiões mais populosas do país, com forte crescimento demográfico e peso económico significativo. Ainda assim, chegou-se ao ponto de depender de médicos em idade avançada para garantir serviços mínimos, revelando a ausência de uma estratégia eficaz de planeamento, renovação geracional e fixação de profissionais. A dedicação destes médicos merece reconhecimento, mas não pode servir de desculpa para um sistema que falhou.
A situação torna-se ainda mais preocupante quando associada a indicadores como a mortalidade infantil, que em vários concelhos da Península de Setúbal supera as médias nacional e europeia. Num país que apresenta bons resultados globais nesta área, aceitar desigualdades regionais tão acentuadas é admitir um SNS a duas velocidades, em clara contradição com o princípio da igualdade no acesso aos cuidados de saúde.
O reconhecimento público do problema por parte da tutela é importante, mas insuficiente. Anúncios de novos modelos, experiências-piloto ou promessas de reorganização não apagam um facto essencial: em 2025, o SNS falhou gravemente na Península de Setúbal. E falhou de forma estrutural.
O que está em causa não é apenas a gestão de serviços, mas a confiança da população num dos pilares do Estado social. Quando os cidadãos deixam de saber se terão uma urgência aberta em caso de necessidade, algo fundamental deixou de funcionar. A Península de Setúbal não pode resignar-se a este estatuto. Exige respostas concretas, urgentes e responsáveis, porque a saúde não pode depender da sorte ou da geografia.