Pedagogia do bot

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23 Janeiro 2026, Sexta-feira
Professor/Formador de Multimédia e Informática, Tecnologias, Comunicação e Digital Media

Assistimos atualmente a uma verdadeira guerra civil nas trincheiras da educação. De um lado, o Ministro e a tecnocracia dizem-nos que a Inteligência Artificial (IA) é um novo “colega de trabalho” inevitável; do outro, um manifesto de professores grita “proibição!”, temendo um apocalipse de “cretinos digitais”.


Na minha opinião? Ambos têm razão, e ambos estão redondamente enganados.

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O verdadeiro perigo da IA na sala de aula não é a tecnologia eliminar empregos (não é novidade); é algo muito mais subtil e sedutor: é a morte da “resistência”. A aprendizagem humana é, por natureza, ineficiente. Requer dúvida, erro, rascunhos amarrotados e aquele silêncio desconfortável antes de uma ideia surgir. A tecnologia moderna, contudo, vende-nos uma ideia oposta: eficiência pura, a resposta pronta à distância de um clique.


O que a OCDE nos sugere no seu relatório “OECD Digital Education Outlook 2026” é fascinante e assustador: os alunos que usam IA têm melhor desempenho imediato, mas aprendem menos. Porquê? Porque usam a IA como usamos um GPS: leva-nos ao destino sem precisarmos de conhecer o caminho. Estamos a criar uma geração que sabe “chegar”, mas não sabe “caminhar”… quanto mais “correr”.


Mas o meu maior medo nem é a preguiça; é a “esperteza saloia”. Estudos recentes sobre racionalidade mostram que a IA atua como um “super-advogado” sem escrúpulos. Se um aluno tiver uma ideia errada, a IA não o corrige; dá-lhe argumentos sofisticados para justificar esse erro. A IA não nos torna mais racionais; torna-nos apenas mais eloquentes e confiantes nas nossas ilusões.

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O futuro da educação não passa por banir a máquina, nem por nos rendermos a ela. Passa por reintroduzir uma “resistência produtiva”. A sala de aula do futuro pode ser um ginásio cognitivo: a IA é o equipamento de musculação, mas quem tem de suar é o aluno. Vamos avaliar menos o ensaio final (que qualquer chatbot escreve) e mais a capacidade de um aluno discutir, duvidar e, acima de tudo, verificar a realidade com factos concretos. Enfim, o pensamento crítico!


Eventualmente, a escola servirá para nos ensinar a pensar, e que tarefas devemos delegar a uma máquina. E isto, caros leitores, é algo que a escola fez, faz e deve continuar a fazer.

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