Viagem ao Sol: Documentário sobre as ‘crianças Cáritas’ que vieram para Portugal no pós-guerra

Viagem ao Sol: Documentário sobre as ‘crianças Cáritas’ que vieram para Portugal no pós-guerra

Viagem ao Sol: Documentário sobre as ‘crianças Cáritas’ que vieram para Portugal no pós-guerra

Realizadores, Susana de Sousa Dias e Ansgar Schaefer, deixam um olhar sobre o filme exibido amanhã na Casa da Cultura

As imagens de arquivo ganham nova vida quando vistas à luz de contextos e tempos diferentes. Interpelam-nos e revelam uma atualidade surpreendente. É o que acontece ao assistirmos a “Viagem ao Sol”, o documentário de Susana de Sousa Dias e Ansgar Schaefer, baseado em imagens de arquivo de crianças austríacas refugiadas em Portugal após a Segunda Guerra Mundial. Arquivo esse que faz parte da exposição que é inaugurado, este sábado na Casa da Cultura, após a sessão do filme marcada para as 15 horas.

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O projeto de documentário já existe há três décadas. Foi concebido na época em que a dupla de realizadores se conheceu e iniciou uma parceria na produtora Kintop. Essa investigação esteve relacionada ao projeto de doutoramento de Ansgar, dedicado à deslocação de refugiados judeus para Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Ansgar também já tinha trabalhado na sua tese de mestrado sobre crianças de origem alemã em Portugal no mesmo período. 

Este é, ainda, o primeiro documentário coassinado por ambos, que fornece um estudo atualizado sobre os padrões culturais e sociais durante o Estado Novo. “É interessante perceber que essas crianças austríacas fazem parte da memória coletiva de Portugal”, explica o produtor da Kintop, confirmando que o trabalho conta com o apoio de famílias que tiveram contato com cerca de 5500 crianças austríacas que vieram para Portugal — sendo que apenas algumas centenas eram alemãs. Muitas delas tiveram destaque na mídia, alimentando o imaginário da época. No fundo, fazem parte da memória coletiva do País”, como confidenciou a realizadora.

Vale a pena destacar que essa extensa pesquisa de arquivo foi realizada seguindo o método de trabalho utilizado na filmografia de Susana e Ansgar – Natureza Morta (2005), que evoca a opacidade das imagens; 48 (2010), criado partir de fotografias de presos durante o Estado Novo; Luz Obscura (2017), investigando o sentimento de perda de familiares do dirigente comunista Octavio Pato; e Fordlandia Malaise (2019), confrontando a memória e a atualidade da cidade industrial criada por Henry Ford na Amazónia em 1928.

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É importante entender quem tem direito às imagens e quem não tem, pois nem todas as crianças aparecem nelas. “Desde logo, aquelas que tiveram experiências negativas, assim como as que tiveram experiências positivas. É preciso chamar à atenção para quem tem direito à imagem e quem não tem”, como explica Ansgar. “A própria existência de uma imagem prova a forma como essas crianças foram acolhidas, e por quais meios”, complementa Susana.

Mais de 50 entrevistas compuseram o filme

Na segunda fase, a dificuldade foi encontrar os materiais fornecidos pelas próprias famílias, incluindo imagens em que a criança faz parte do registo. Essa abordagem foi completamente nova para ambos, pois não procuravam especificamente crianças, mas imagens em arquivos. “A verdade é que as crianças não aparecem nas imagens de arquivo. Isso é extremamente interessante”, afirma Susana. “Só percebemos isso durante a montagem, na própria investigação. Normalmente, as crianças estão à margem das imagens”.

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É exatamente esse tratamento das imagens e o que elas nos revelam que procuramos entender, especialmente quando se trata de filmes familiares da época. “O que importa na imagem é tentar entender o que ela tem dentro de si. E também perceber o que ela mostra na superfície. É muito interessante olhar para essas imagens e refletir sobre o que elas revelam e o que escondem, pois foram feitas segundo os modos de representação da época, geralmente por homens da família. Existem elementos na imagem que precisam ser interpretados, assim como a ideia de Portugal ao fundo”.

Ao observar as imagens captamos mais do que aparentam. “Certamente, essas são imagens que nos olham e nos interpelam”, diz a realizadora. “Desde logo porque as pessoas olham diretamente para a câmara. Isso cria um efeito de contra-campo, um olhar que nos é devolvido. O filme também trabalha esse aspecto. E o som foi bastante trabalhado, assim como os testemunhos.” Esses elementos são fundamentais para compreender a época.

“De um lado, temos o olhar da criança. Adultos falam, mas, de repente, a criança irrompe no discurso. Tentamos seguir o filme por essa perspetiva: ‘O que essa criança viu? São crianças que vêm, numa situação muito particular, com toda a experiência da guerra. De repente, observam um país que lhes parece estranho e que revela novas dimensões. Isso levanta uma série de questões”, explica Susana. 

Para o filme, Susana e Ansgar entrevistaram mais de 50 pessoas, mas selecionaram cerca de uma vintena. “Tentamos focar nas experiências individuais que elas compartilham. Queremos criar uma voz que transmita, de certa forma, essa experiência, numa dimensão mais coletiva. Este não é um filme de personagens, mas de relatos. Essas pessoas contam suas histórias e oferecem um quadro mais amplo”.

Além disso, há a possibilidade de refletir sobre como essa realidade pode ter ressonância nos dias atuais, especialmente num contexto de guerra na Europa, que gerou um fluxo enorme de refugiados. “Exatamente, isso é muito importante para nós. Como tudo isso se relaciona com o presente. Sabemos que as meninas loiras de olhos azuis eram as primeiras a serem selecionadas, enquanto as morenas ou mais escuras ficavam em segundo plano. Claramente há um padrão nisso”, observa ainda.

É interessante perceber como esses fatores chegam – ou não – ao nosso presente. O foco, na verdade, está na “importância de escavar os fatos e o que foi apagado da história, da memória”. “Algumas memórias são fortes, outras fracas; estas últimas, muitas vezes, são as mais interditas e proibidas”. Afinal, essas crianças provavelmente não poderiam verbalizar suas experiências na época. No fundo, trata-se de “um apelo à memória infantil”, como explica Ansgar.

“Não procuramos adultos refletindo sobre experiências passadas, mas sim o olhar das próprias crianças”, acrescenta a realizadora.

Uma reflexão importante é que o olhar dessas crianças reflete, de certa forma, o das crianças refugiadas das guerras atuais, mesmo que muitas dessas crianças hoje não tenham vivido uma vida de privilégios semelhante às retratadas nas imagens. Ainda assim, o olhar é o mesmo.

PRÉMIOS

[2024] Prémio Sophia para Melhor Documentário Português

[2024] Prémio da Competição Internacional DocLuanda

[2022] New Waves Best Non Fiction Film [Festival de Cine Europeo, Sevilla,
Spain]

[2022] Special Mention [Festival Archivio Aberto, Bolonha, Italy]

[2022] Cinema Falado Award [Porto/post/doc – Festival International de
Cinema, Portugal]

[2022] PressAward [Festival Caminhos do Cinema Português, Portugal]

[2022] Tree of Live Award [IndieLisboa, Portugal].

[2021] Reframe-Creative Use of Archives Nominee [IDFA, Netherland]

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