Duarte Victor: “O texto ‘Em Alto Mar’ chegou a ser ensaiado nos anos 80 mas nunca foi à cena”

Duarte Victor: “O texto ‘Em Alto Mar’ chegou a ser ensaiado nos anos 80 mas nunca foi à cena”

Duarte Victor: “O texto ‘Em Alto Mar’ chegou a ser ensaiado nos anos 80 mas nunca foi à cena”

TAS estreia no próximo dia 26 peça que era para ter subido ao palco há décadas, então com Carlos César, Alexandre Sousa, Carlos Rodrigues e Asdrúbal Teles como intérpretes, revela o encenador

Imagine-se à deriva numa jangada com mais dois companheiros e que a única hipótese de sobrevivência é um ser sacrificado para servir de alimento aos outros. O que podia ser um filme de terror é antes uma hilariante produção, resultante da adaptação do texto “Em Alto Mar” da autoria de Slawomir Mrozek, que o Teatro Animação de Setúbal (TAS) vai estrear no próximo dia 26, pelas 21 horas, n’A Gráfica.
A peça vai estar ainda em cena nos dias 27 e 28 de março e a 9, 10 e 11 de abril, sempre à mesma hora. E promete brindar o público com “um banquete de manipulação retórica onde as normas sociais e políticas são usadas para justificar o injustificável”. Vai ser uma jornada de vale-tudo, com a ética a ser a primeira a ir borda fora.
Duarte Victor, diretor do TAS – a par de Célia David e Miguel Assis – é responsável pela encenação e dramaturgia desta comédia, na qual participa também como intérprete ao lado de Diogo Leiria, Gonçalo Romão, José Lobo e Miguel Assis. O responsável revela as razões para levar agora à cena um texto que data de 1961 e que tem história no TAS. Levanta-se o pano sobre o mundo em que vivemos e apresenta-se esta 153.ª produção do TAS, companhia que cumpre este ano 50 primaveras de arte.

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Porquê agora a escolha desta sátira mordaz de Mrozek? Considera que a sociedade em que vivemos torna este texto tão atual e relevante para o público neste momento ou mais do que isso?
Há várias razões. Uma delas é porque consideramos que este é um texto oportuno. Apesar de ter sido escrito em 1961, está tão atual como naquela época. É um texto que, no fundo, faz uma reflexão. É uma metáfora sobre a natureza humana.
Slawomir Mrozek era um dramaturgo, também era ilustrador e jornalista, cuja obra é marcada pela sátira mordaz, pelo humor contundente e por uma análise profunda da condição humana, sobre os regimes autoritários como o da [então] União Soviética. Mas, há uma outra razão forte para a escolha deste texto agora…

Qual?
É que este texto foi ensaiado por mim nos anos de 1980 e a peça nunca chegou a ir à cena, até por razões um pouco alheias à arte. Pensei fazer isto nessa altura com o Carlos César. Ele, o Alexandre Sousa, o Carlos Rodrigues e o Asdrúbal Teles eram os atores que iriam fazer este espetáculo. Nós ainda começámos os ensaios na piscina de Montalvão, ainda tivemos um mês de ensaios e depois tivemos de interromper porque o diretor das instalações, na altura, achou que estávamos a poluir a água… Tivemos de interromper e o Carlos César acabou por decidir por não se fazer o espetáculo. Portanto, também por essa razão lembrei-me deste texto, de voltarmos a Mrozek, e é também, digamos, uma homenagem ao próprio Carlos César. E isto faz sentido numa altura em que a companhia está a comemorar os 50 anos de existência.

A peça gira em torno de três náufragos numa jangada e na necessidade de um deles ter de ser sacrificado para servir de alimento aos outros. Olhando para o panorama internacional, se esses náufragos fossem figuras políticas quem acha que o público escolheria para ser sacrificado?
Olhe, todos nós, porque no fundo acabamos por ser vítimas desta avalanche que estamos a sofrer, em que nos fazem pensar que o sacrifício é resultado dos tempos que vivemos. Fazem-nos acreditar que somos sacrificados por uma boa causa. Isto é a coisa mais ignóbil que nós podemos, neste momento, estar a viver e é resultado desta desvalorização que está a haver a nível global dos valores humanos, dos direitos humanos, dos valores da vida, no fundo, o desrespeito completo pelo ser humano. O sacrificado é sempre o mais fraco, que somos todos nós.

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Mas se olhássemos apenas para figuras políticas?
Seriam todos aqueles políticos que defendem exatamente aquilo que eu há pouco referi, os valores humanos, os direitos da humanidade, que estão neste momento a ser completamente cilindrados. Queria um nome, não é?

Olhando para a atualidade há Trump, Putin e Netanyahu…
Esses são os protagonistas de tudo isto. Há pouco referia que esta peça é uma metáfora sobre aquilo que o ser humano é capaz de fazer. Estamos a viver momentos em que os valores democráticos estão a ser subvertidos e estão a ser utilizados para fazer valer os valores do autoritarismo. Quem é que está a fazer isso? Logicamente, Netanyahu, Putin e Trump, entre outros… Mas, acho que não são propriamente políticos. Os verdadeiros políticos são aqueles que se interessam por todos nós, que se pautam pela seriedade e pela verdade. Os atrás referidos não considero políticos. Acho que são verdadeiros monstros.

Há um gordo, um médio e um magro. Qual destas personagens é que o público vai reconhecer mais rapidamente, tendo em conta os nossos dias?
O gordo representa o poder, estas figuras que acabámos de mencionar e outras, o médio é o sobrevivente e que no fundo faz a ponte entre o poder e o sacrificado, o explorado. E o magro é aquele que tem a consciência de que está a ser explorado e que é convencido a sacrificar-se. É convencido a tal ponto de se achar herói ao se sacrificar por todos os outros. É realmente aquele indivíduo que vive com dificuldades, a sua vida diária é uma luta e no fundo é o explorado. O médio é de alguma forma um oportunista, mas é tão desgraçado como o magro. O gordo e o médio, no fundo, fazem um jogo duplo para sobreviver e são tão desgraçados como o magro.

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Estrear na véspera do Dia Mundial do Teatro esta comédia sobre sobrevivência pode ser visto como uma ironia sobre as dificuldades de se fazer teatro hoje em dia no nosso país?
É exatamente isso. É uma ironia. Estreamos esta peça na véspera do Dia Mundial do Teatro numa altura em que o TAS cumpre 50 anos e que são 50 anos de uma resistência e de uma resiliência que foi posta à prova, por exemplo, há bem pouco tempo, quando foi a votação os apoios às companhias de teatro na Câmara Municipal de Setúbal. Apoios felizmente aprovados pela esmagadora maioria, mas que foram contestados por dois vereadores [do Chega] que não querem que o TAS e o Fonte Nova façam teatro, porque dizem que este é um teatro político e, portanto, o que é importante é fazer-se eventos que divirtam e que entretenham as pessoas, no fundo, que não as façam pensar. Ora, a arte é exatamente o contrário. A arte existe para questionar e para fazer pensar.

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