2 Fevereiro 2023, Quinta-feira
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Tenor sadino conta o que viu na Ucrânia e desafia municípios a organizarem espectáculos solidários

O cantor lírico esteve em Lviv em dois concertos solidários para com o povo ucraniano. Sentiu pessoas que vivem com medo e incerteza

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Para João Mendonza a grande arma da Rússia na guerra que levou à Ucrânia é “o medo constante” e a “incerteza”. Foi o que o tenor natural de Setúbal viu e sentiu quando esteve na cidade de Lviv para dar dois concertos solidários para com o povo ucraniano. Foi a 26 e 27 de Novembro, datas que foram confirmadas mesmo em cima da hora. “Lá está tudo muito instável. Só soubemos dos concertos uma hora antes”, conta.

A cada momento havia a possibilidade de os concertos serem canceladas devido à queda de um míssil russo, de um bombardeamento ou um corte de electricidade. Aliás, a falta de energia eléctrica é outro dos grandes problemas que o cantor lírico aponta existirem em cidades como Lviv, e mais ainda em Kiev, onde esteve também para actuar.

“A falta de electricidade não é só o corte de luz, são as comunicações que não funcionam, os bancos que quase não conseguem operar, os supermercados, assim como os restaurantes, e isto mesmo tendo geradores”. Além disso, “as pessoas não sabem o que comprar para comer; não sabem se têm, ou não, frigorifico para preservar os alimentos”, conta João Mendonza.

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Com o gás a um preço “muito elevado”, a energia eléctrica seria também o garante do aquecimento das casas, mas os cortes impedem que estas sejam aquecidas e com isto outro problema: “O frio não é suportável”. E como as casas foram construídas com bom isolamento, não recebem o aquecimento vindo de fora, do Sol. “É estranho, mas chega a estar mais quente na rua do que dentro de casa”.

Sem iluminação pública, “à noite não se consegue andar nos passeios, as pessoas caminham na estrada orientadas com as luzes dos automóveis”. E tudo isto com a incerteza constante de “nunca saberem como vai ser o dia, se cai um míssil, ou se continuam a ter casa”.

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Quando a Rússia começou a guerra contra a Ucrânia, em Fevereiro, ou seja, há nove meses, João Mendonza tinha acabado de lançar um disco e decidiu doar a receita da venda do mesmo para contribuir financeiramente na ajuda à Ucrânia. Outra ideia foi propor o disco aos municípios para organizarem concertos solidários com o povo ucraniano, “uma campanha que continua de pé”, afirma.

Inicialmente contava ir à Ucrânia apenas no final da guerra para fazer concertos solidários, mas recentemente, durante uma actuação promovida pela Câmara de Cascais, onde esteve com uma comunidade de refugiados ucranianos, entre eles músicos que vieram para Portugal, veio a ideia de ir actuar já na Ucrânia. “Surgiu o convite e pensei em ajudar ainda em tempo de guerra, e também para dar exemplo a outros artistas para irem ajudar aquele povo”.

Na estada de duas semanas, o tenor sadino previa actuar em Lviv e Kiev, mas como na capital ucraniana a energia eléctrica é toda canalizada para bens mais essenciais, ficou-se por Lviv. Além disso, era uma cidade onde os bombardeamentos aconteceram no início da guerra e, nos últimos meses, não tinha sofrido ataques. Porém, poucos dias antes de viajar, a cidade voltou a ser atacada, inclusivamente, um míssil caiu para lá da fronteira com a Polónia, matando dois homens.

Manteve a viagem, com chegada e partida em Cracóvia, no sul da Polónia, mas os concertos previstos para a Catedral Assunção de Maria passaram para a Catedral Dominicana. Cantou temas do último disco, dedicado a Nossa Senhora, foram-lhe pedidos fados de Amália, cantou “Lágrima” e “Foi Deus”, e encerrou o concerto com uma música popular ucraniana cantada na língua do país, para a qual se preparou com a ajuda do seu amigo ucraniano Andrey Pracht, que esteve a viver em Setúbal, mas acabou por se mudar para a Dinamarca porque “por cá não conseguiu trabalho”.

“Senti um povo com sede de cultura. Ambos os espectáculos estiveram cheios. Neste momento na Ucrânia o acesso à cultura é muito escasso, e vir alguém da outra ponta da Europa para fazer concertos gerou um sentimento de gratidão. No fim, as pessoas vieram falar comigo, vi-as tristes, mas gratas”. Mesmo com o pouco que têm, pagaram o bilhete e contribuíram ainda mais num gesto de solidariedade para os militares. “Num contexto de lei marcial, todos os fundos são dirigidos para a parte militar” que os gere para ajudar também a parte civil”.

Acompanhado da sua namorada, a actriz Rita Ferraz que também produz os espectáculos, João Mendonza encontrou-se com representes da Cultura ucraniana e visitou instituições de solidariedade onde esteve com refugidos de Kherson, cidade que está devastada. “Passámos dias com as crianças e, apesar da dificuldade da língua, percebemos que se sentiram mais confortáveis”.

Agora, João Mendonza faz planos de, no próximo ano, voltar a cantar na Ucrânia, mas também trazer artistas ucranianos, das várias artes, a Portugal. E deixa um desafio aos municípios portugueses para que organizem espectáculos solidários para com o povo ucraniano.

 

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