18 Maio 2022, Quarta-feira
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Campeã Mundial de Atletismo “Maria de Portugal” diz que agora só corre pela família mas continua a competir

Aos 82 anos, no atletismo é a mais medalhada de Portugal. Sempre a rir, admite que a corrida ocupa agora o segundo plano

 

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“Cuidado com o degrau, filhinho”, pede Joaquina Flores ao marido. A tactear a parede, Januário Flores encontra o interruptor e faz chegar a luz ao anexo, revelando centenas de medalhas, milhares de troféus e um número incontável de condecorações que competem por espaço entre as vitrines.

“Se soubesse que ela se ia tornar atleta tinha construído uma garagem com o dobro do tamanho”, brinca Januário. Aos 82 anos, Maria Joaquina Flores podia gabar-se de ser Campeã Mundial de Atletismo e a atleta mais medalhada de Portugal, não fosse a humildade impedi-la. “A maior parte dos dias, nem sequer me lembro”, confessa.

Equipada a rigor e com a trança característica a acompanhar-lhe os movimentos, a octogenária prefere mostrar os presentes que lhe são oferecidos e que guarda religiosamente num espaço dedicado a si, na vivenda em Vale de Milhaços, concelho do Seixal.

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“Esta ‘florinha’ foi me dada por um velhote na Irlanda”, diz apontando para uma flor amarelecida. “Mandou parar o autocarro onde seguiam as atletas e entrou com a flor na mão. Pensei que a fosse oferecer a alguém mais jovem e bonito, mas escolheu-me. Fiquei muito comovida”.

Já perdeu a conta às conquistas e é o carinho dos fãs que lhe alimenta a alma vivaça. Até aos 49 anos nunca tinha praticado desporto e foi numa brincadeira com o irmão, atleta, que descobriu este mundo.

“Nunca tinha calçado uns ténis na vida”, comenta. “Ia levar o meu irmão aos treinos em Alvalade e ficava à espera que terminasse. Um dia, fui treinar com ele para passar o tempo e, quatro meses depois, estava a participar na minha primeira prova no Moinho da Maré [Corroios]. O meu irmão disse-me para ir na desportiva, que era tudo uma brincadeira”.

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Rodeada de atletas mais jovens e sem nunca ter competido, foi ao conquistar o primeiro lugar do pódio numa prova de 15 quilómetros que Joaquina descobriu que tinha uma extraordinária capacidade de resistência. “O que é que a velha está ali a fazer?”, gritavam na plateia. “A velha não só chegou ao final como ganhou àquela gente toda”, ri.

Educada rigorosamente no seio de uma família numerosa, entre os pais e irmãos, a surpresa foi geral. “Chamavam-me ‘maluquinha’. O meu pai era muito rígido e sempre me disse que o lugar da mulher não era a correr, mas com o tempo foi ficando orgulhoso. Nunca me o disse, mas eu sabia que sim”.

Sentindo o sabor da vitória, nunca mais parou de correr. Para orgulhar os feitos da companheira, Januário apressa-se a folhear documentos escritos por si que comprovam a participação de Joaquina em mais de 190 provas nacionais e 60 internacionais, sagrando-se campeã do Mundo e da Europa nos 10 mil metros pista na categoria veteranos.

“O meu marido tem tudo apontado. É o meu empresário”, declara a desportista. “Às vezes, dizia-lhe que não queria viajar para não deixar os netos, mas não me dava hipótese. Saía de casa sem dizer nada e quando regressava já trazia tudo pago”.

“Marquinhas, não te rias. Dedica-te à prova”

Quem corre por gosto, não cansa e ‘Marquinhas’, como é conhecida entre a família, é a encarnação do velho ditado. O segredo, diz, é gostar do que faz e levar sempre um sorriso no rosto. Quem não se diverte tanto com o cenário é o irmão e treinador que prefere que a atleta se concentre. “Oh Marquinhas, não te rias. Dedica-te à prova”, ralha.

Foram a simpatia e o sorriso “de orelha a orelha” que a distinguiram das restantes atletas num Campeonato dos Estados Unidos, originando o cognome “Maria de Portugal”, que perdura até aos dias de hoje. “Quando cortei a meta em primeiro lugar, os americanos ficaram doidos. Comentavam que não parava de rir e nem parecia cansada”.

Com mais de 30 anos dedicados ao atletismo, a veterana admite que já não tem intenção de competir. Porém, a última prova foi disputada no passado domingo, no 14.º Grande Prémio de Fernão Ferro, tendo obtido o 3.º lugar em +65, e em Fevereiro tinha participado no 35.º Grande Prémio de Carnaval do Alto do Moinho, onde alcançou o segundo lugar no escalão +65 anos, mas admite tê-lo feito “na desportiva”.

Uma avó de mimos

Esposa, mãe e avó, também na família, Joaquina Flores tem medalhas de distinção. “Daqui a nada vou fritar o bife e as batatinhas para o jantar do meu menino”.  Enquanto isso, um olhar de relance para o relógio é suficiente para a recordar dos afazeres: “Ai perdi-me nas horas, tenho de ir buscar o meu netinho à escola”.

Tiago Gavino, de 17 anos, está habituado aos mimos da avó e confessa gostar de toda a atenção. “É muito querida, a minha avozinha. Muito brincalhona também. Está sempre à espera do melhor momento para me pregar partidas”, conta o jovem.

A energia efusiva de Joaquina é agora depositada em momentos com a família. Januário ainda mantém a esperança de tornar a ver a esposa representar o País num Campeonato Mundial, mas a veterana afasta a ideia. “Correr? Agora só pela família”, frisa.

O hábito desportivo nunca a abandona e assume que gosta de “esticar as pernas” acompanhada pelo marido, na Herdade da Apostiça, em Sesimbra. “Damos uma voltinha devagarinho e, quando ele [Januário] se cansa, senta-se no carro a comer a laranjinha e eu dou uma pequena corrida. Tem de ser assim. Parar é morrer”, remata.

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