23 Maio 2022, Segunda-feira
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“Ser cigano é ser alegre, revolucionário e não ter medo de enfrentar a vida”

Nascida na comunidade cigana e cansada de ser discriminada, Susana Silveira criou uma associação que prevê mudar a vida de uma cultura

 

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Susana Silveira sempre sentiu que era diferente das restantes crianças, mas foi aos oito anos, ao procurar no dicionário o significado para a palavra ‘cigano’, que sentiu na pele o peso da discriminação. ‘Traficante’, ‘trapaceiro’ e ‘bárbaro’, três adjectivos que definiam de forma negativa a sua etnia. “Eu não sou assim. A minha família não é isto”, pensou.

Passadas mais de duas décadas, a definição continua a apresentar um sentido depreciativo e o desprezo pela etnia cigana tem vindo a ser mais comum. Cansada de ver a cultura em que cresceu associada a um “rótulo negativo”, em 2019, Susana sentiu que estava no momento de “dar voz” e “credibilidade” a uma comunidade e, em conjunto com duas amigas, criou a Costume Colossal.

Sediada no Feijó, em Almada, a associação tem levado a cabo projectos em conjunto com a Câmara Municipal e participado em iniciativas a nível nacional que promovem a integração da comunidade cigana, procurando mitigar desigualdades que a fundadora considera “impensáveis em pleno século XXI”.

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Educação como motor para a mudança

Ciente da complexidade do problema que enfrenta, acredita que o primeiro passo para a integração está na educação: “Queremos abrir os horizontes das crianças, incentivando-as a estudar e a ganhar ferramentas para que possam ter outra qualidade de vida”.

Para isso, a Costume Colossal faz questão de promover e associar-se a projectos que apoiem a educação cigana, como ‘ROMA Educa’, um programa do Alto Comissariado para as Migrações (ACM) que, mais do que ajudar financeiramente, através da atribuição de bolsas de estudo a estudantes do ensino básico, abre portas para um mundo repleto de possibilidades.

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“Existem famílias que ainda são muito cépticas em relação ao papel da escola e dos estudos. Acreditam que os filhos precisam mais de aprender o ofício de comerciante, mas assim que vêem os progressos dos filhos quando recebem estes incentivos escolares, ficam orgulhosíssimos e acabam por nos agradecer por toda a ajuda”, conta Susana.

A par com a sensibilização para a progressão dos estudos, a Costume Colossal planeia começar ainda este ano a desenvolver ‘workshops’ direccionados para a entrada no mercado de trabalho. Como construir um currículo, o que vestir numa entrevista de emprego ou qual a postura a adoptar são noções aparentemente simples, mas que podem fazer a diferença para quem sempre se dedicou à venda ambulante.

“Muitas das pessoas podem não ter estudos, mas têm uma experiência de vida muito boa e outras capacidades que não são valorizadas. Queremos pegar nessas pessoas e torná-las em algo melhor para que não pensem que têm de se limitar ao comércio”, frisa.

Uma luta bilateral

Não obstante todo o trabalho da associação para incentivar a mudança dentro do povo cigano, são diárias as queixas e pedidos de ajuda recebidos que espelham questões profundas de racismo e preconceito.

“Estamos a acompanhar um rapaz que está no emprego para o qual estudou e tem de ouvir diariamente piadas sobre a etnia dele, apesar de não saberem que é cigano. Quando a mãe o vai buscar ao trabalho tem de se esconder no carro para não ser identificada porque tem traços bastante característicos”.

Perante estas situações, a luta diária da Costume Colossal é saber como encontrar forças para incentivar alguém “a sonhar mais alto” se, mais tarde, tem de “aguentar a discriminação constante”. No entanto, Susana Silveira acredita que a única solução para a mudança passa pelo reforço da convivência diária.

“Somos um povo que está em Portugal há mais de 500 anos e nem sequer somos referidos nos livros de História. O desconhecimento de todo o nosso passado só gera ainda mais receio perante a cultura maioritária”.

Em parceria com a Câmara de Almada está a ser elaborado um Plano Local de Integração das Comunidades Ciganas onde a associação defende a importância do realojamento desta etnia na malha urbana.

“Existem pessoas ciganas que viveram sempre no mesmo local e convivem constantemente no mesmo ambiente, sem interacção com a cultura maioritária. Só através da convivência e da partilha de costumes é que podem realmente existir mudanças de ambas as partes. Assim é que se cria a inclusão, não é através da criação de guetos ou bairros sociais”.

Numa sociedade que receia o desconhecido, a fundadora da associação garante carregar com orgulho a identidade com que nasceu: “Ser cigano é ser alegre, revolucionário e não ter medo de enfrentar a vida. Se isto é mau, então eu quero ser assim”, remata.

Números de uma realidade ainda em apuramento

Estima-se que existam entre 45 a 50 mil pessoas de etnia cigana a viver em Portugal, um valor expressivo, mas maioritariamente impreciso que não contempla a quantidade de famílias que não está referenciada em organismos públicos.

Em 2021, o ‘Observador’ avançava que a falta de medidas para integrar os ciganos em Portugal foi alvo de críticas pelo Comité Europeu de Direitos Sociais do Conselho da Europa que considera que o País continua a violar os direitos de uma comunidade que vive em condições precárias. Os números revelam isso mesmo.

No que diz respeito à habitação, cerca de 37% da comunidade cigana vive em bairros de lata ou acampamentos em mais de 70 municípios. Na educação, a taxa de abandono escolar é muito superior e o sector da saúde é preocupante, uma vez que, um indivíduo de etnia cigana vive, em média, menos 18 anos do que a restante comunidade.

Com o intuito de tornar a realidade mais precisa em Almada, a Costume Colossal tem dedicado o último ano a identificar a totalidade das famílias residentes no concelho, apurando as respectivas condições de vida.

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