6 Outubro 2022, Quinta-feira
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Brasileiro Alceu Valença viaja pelas histórias de uma vida única

O artista revela memórias desde os tempos de menino até aos dias de hoje. A covid levou-o a cancelar 56 concertos

 

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Alceu Valença, um dos maiores nomes da música do Brasil, vai estar hoje no Fórum Municipal Luísa Todi, em Setúbal. Com 75 anos, 50 de carreira e mais de 60 álbuns gravados, Alceu Valença é um poço de energia, talento, simpatia e sentido de humor.

Em contagem decrescente para subir ao palco setubalense, o artista passa em revista a sua história e destaca vários episódios vividos.

“Cá estou de novo. Há já uns 15 anos que venho a Portugal em Janeiro e em Junho. No início de 2020 fiz uns shows em Portugal e quando voltei para o Brasil fiz um show de Carnaval no Recife e… tivemos todos covid”, começa por revelar.

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Seguiu-se o confinamento, que trouxe o violão… “É. Tive de ficar em casa. Tinha 40 shows no Brasil e 16 na Europa. Foi tudo cancelado. Fiquei em casa, no Rio de Janeiro, sem o que fazer. Nunca tive o hábito de tocar violão. Mas aí comecei. A gente começa a tocar uma música e essa puxa outra. Por exemplo, canto uma música de Luís Gonzaga, logo vem outra de Luís Gonzaga. Aí a minha mulher começou a ver que havia uma conexão entre os temas. Um fio condutor”, conta.

Desse fio condutor saiu material que, num ano, foi editado em três discos: “Sem pensar no amanhã”, “Saudade” e “Senhora estrada”. Títulos que não foram escolhidos ao acaso e que dariam origem à tournée que o traz agora a Portugal e que marca o regresso de Alceu Valença aos palcos.

A conversa salta no tempo e as memórias soltam-se. “A minha família tocava muito, não eram profissionais mas tocavam. É a música do nordeste profundo, dos boiadeiros, dos sanfoneiros, que levam a Luís Gonzaga e Jackson do Pandeiro. A vitrola do meu avô, na época, tocava fado, música erudita.”

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E terá ideia de algum nome do fado nessa época? Alceu responde a cantar: “Lisboa velha cidade, cheia de encanto e beleza…” Diz que era menino e que não se lembra de quem cantava o tema.

Mas, de menino, há histórias que não esquece. “O meu pai tentou afastar-me da música, ainda eu era criança. Porque o meu pai tinha dois irmãos que tentaram carreira na música e não deu certo. E os outros irmãos tinham formação superior, um era juiz, outro procurador do Estado e tinham uma vida mais tranquila. Aí ele não deixava, eu não podia nem chegar perto da música”, confessa.

O primeiro violão

Só que há sempre um mas… “Um dia eu estava jogando futebol na rua e alguém disse que a mamãe estava me chamando. ‘Meu filho vamos lá na Rua da Imperatriz, que eu tenho de fazer umas compras”.

“Chame minha irmã, que mulher gosta mais de compra do que homem. Não deu. Quando cheguei lá na rua, ela passou na frente de uma loja e disse: ‘Meu filho escolha um instrumento para você’. Aí fiquei com um medo. Se eu comprasse aquele violão… Era caríssimo e eu disse: ‘Mamãe me dê aquele cavaquinho’. ‘Meu filho você merece um violão’. Comprou o violão e eu ponho ele nas costas. Aí ela disse: ‘Meu filho tire esse violão das costas, você está parecendo o Juca Chaves. Seja original”, recorda, ao mesmo tempo que solta gargalhadas.

Depois vieram os estudos, mas o violão não mais o largou. “Entro na Faculdade de Direito, fiz um curso de férias de Verão nos Estados Unidos e nem levei o violão. Estava lá um rapaz brasileiro que tinha um violão e eu ia para a rua tocar. Os hippies enlouqueceram. Um dia passou um jornalista da cidade de Fall River, parou e perguntou: ‘Que tipo de música é essa?’ É do Brasil. ‘Não é samba?’ Não. ‘É de quem?’ É minha. ‘Vem de quem?’ Vem de mim… Faço música contra a ditadura no Brasil.”

Estava-se em 1968, no auge da música associada a movimentos de protesto políticos. “É. No dia seguinte, o jornal de Fall River dizia: ‘Alceu Valença, the brazilian Bob Dylan. The protest song. Eu nunca tinha ouvido falar de Bob Dylan. Sei quem é. Fui, uns anos depois, a um show dos Rolling Stones e do Bob Dylan, lá numa praça do Rio de Janeiro. Quando voltei para o Brasil, comecei a trabalhar como jornalista. Um dia vejo a história de um festival internacional da canção. Aí faço uma música, apresento no festival e de repente ela passa no festival”, lembra.

Geraldo Azevedo no início

Mas o momento da mudança para o mundo da música estava ainda para acontecer e Geraldo Azevedo marcaria definitivamente a vida de Alceu Valença. “Fui a uma festa na casa de um amigo nosso e lá encontro Geraldo Azevedo. Quando chego e vejo Geraldo fico nervoso, porque ele tocava demais. Toquei uma música e Geraldo diz: ‘Gostei, rapaz. Vai lá na minha casa, bicho.’ Fiquei nervoso, nem dormi, fui a pé até casa dele (são 9 kms) e às 9 horas estava à porta. Ele estava dormindo. Eh pá ele acordou, pega uma música chamada Talismã (a música é dele, a letra é minha, foi a primeira canção e que está no primeiro álbum), me mostra e eu compus na hora”, conta.

E adianta: “Aí ficámos amigos, depois somos compadres e fizemos o primeiro disco”. Mais tarde, Alceu para o Rio de Janeiro para gravar “Molhado de Suor”, o primeiro disco a solo.

“E aí aconteceu que o produtor ficou doente e teve de ir embora. Fiquei sozinho a fazer tudo, produzir… Foi a minha sorte, nunca mais ninguém mandou em mim”, revela, antes de se debruçar sobre o disco “Cavalo de Pau”.

“Mostrei na editora, o pessoal gostou, mas o director alertou que o pessoal da venda de discos dizia que tinha de ter 11 temas. Este tinha oito. ‘Não faço mais, não. O disco está fechado’. Sabe quantos discos vendeu o ‘Cavalo de Pau’? Dois milhões e meio. Foi o que mais vendeu”, conclui.

Gostos Entre Gisela João, Carminho e Villaret até chegar a Pessoa

E quem visita tanto Portugal, o que conhece da actual música portuguesa? “Gisela João, gosto da Gisela. E Carminho, com quem gravei o tema ‘Saudade’, que está no disco ‘Amigo da arte’”.

A relação com Portugal, confessa, já existia há muito tempo. E relata um episódio curioso. “Sabe quando estudava descobri que queria ser o intelectual [solta uma gargalhada], e um tio mostrou-me um disco de João Villaret, declamando Fernando Pessoa. Aí eu começo a ler Fernando Pessoa”, confessa.

Voltando à tour que o traz a Setúbal, Alceu Valença, além dos três discos gravados na pandemia, apresenta sucessos incontornáveis como “Anunciação”, “Belle de Jour” ou “Tropicana”. “Se não cantar, as pessoas ficam com uma tristeza danada”, remata.

*Opinião musical

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