20 Maio 2022, Sexta-feira
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Carlos Gomes: “As pessoas habituaram-se a viver numa pseudo-democracia”

Candidato diz que trabalhadores foram “empurrados para uma situação de miséria” e que o comunismo continua a ser uma solução possível para Portugal

 

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Candidato já “experimentado” em diversas eleições, tantos autárquicas como legislativas, sempre pela região, Carlos Gomes volta, aos 67 anos, a ser a aposta do PCTP/MRPP. Reformado e natural do Barreiro, é formado em Engenharia Química e militante do partido há cerca de 50 anos.

Que diferença pode fazer esta candidatura?

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A principal diferença tem a ver com o desmascarar uma situação que não tem nada a ver com democracia. E toda a situação que se vive hoje, a nível mundial, de o sistema imperialista estar a impor todo um conjunto medidas que estão a agravar mais a condição do povo, incluindo o português. Desmascarar isto e partilhar com os operários e trabalhadores é um objectivo importante. Se houvesse democracia, todos os partidos teriam a mesma possibilidade, o mesmo tempo de antena, etc. Isso não existe, as pessoas habituaram-se a viver numa pseudo-democracia e o PCTP/MRPP aproveita estas alturas para chegar o mais possível aos operários, para esclarecer o seu programa.

O PCTP participa em eleições desde 1976 e nunca conseguiu eleger deputados. Não é uma longevidade estéril?

Na sociedade em que vivemos, sabemos que tudo aquilo que passapelos órgãos de desinformação é filtrado. O PCTP/MRPP nunca foi, nem é, um partido de dinheiro, é um partido que vive do apoio dos seus militantes, do apoio do povo quando faz as suas colectas de fundos. Obviamente que, para chegarmos à população, não é da mesma forma que um partido da burguesia, um PS ou PSD, ou outro. Isso não ajuda a que as pessoas entendam quais são os nossos princípios e o nosso programa. Por exemplo, nós sempre defendemos que estar na União Europeia é uma forma de o povo português estar subjugado a interesses, que não têm a ver com os seus. Obviamente que isto é censurado. O povo português não pode nunca desenvolver-se, enquanto estiver agarrado. Aliás, nós não temos independência, a realidade é essa.

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Propõe, além da saída da EU, não pagar a dívida externa do país, como pode ler-se no manifesto do partido. Como poderemos ter uma sociedade desenvolvida sem esses elementos que têm sido estruturantes?

Não têm sido estruturantes como se diz. Repare, há agora a bazuca, em que o país vai vendendo dívida, e essa venda, mais cedo ou mais tarde, traduz-se no Banco Central Europeu receber, num circuito de taxas que está estabelecido, essa mesma dívida. Em compensação, dá o dinheiro que é necessário para o governo puder pagar as suas dívidas, porque nós não temos economia. Somos um país sem economia.

A solução, para o PCTP/MRPP, é o socialismo?

Primeiro, uma sociedade comunista, uma sociedade em que as pessoas vivem em pé de igualdade. A produção económica a funcionar segundo as necessidades do povo, dos operários, dos trabalhadores.

Uma economia de direcção central, com o Estado a decidir o que produzir, como produzir e para quem, e proteccionismo, nas fronteiras, às importações?

Não propriamente. Esse cenário não é, propriamente o cenário certo.

Então, se pudesse dizer, em linhas gerais, qual é o modelo económico que defende, ficávamos a entender.

Por exemplo, na questão da alimentação, nós temos condições para, a médio prazo, criar condição de não estarmos subjugados como estamos, à necessidade de importarmos, por exemplo, o trigo. A filosofia está errada. A questão não é se é mais barato ou mais caro, é saber servir os interesses dos operários e trabalhadores. A primeira coisa que deve estar em jogo é satisfazer os interesses dos operários e trabalhadores.

É possível reverter a situação actual? Como se pode garantir o bem-estar da população portuguesa e, ao mesmo tempo, criar essas condições para fazer crescer a produção interna?

Neste momento, o que estamos a observar é a destruição de todo o que é economia. Vamos ver essa destruição nos próximos meses. Empresas como a Fisipe e outras que existem aqui, a própria Autoeuropa, vão desactivar, porque o sistema imperialista, pretende uma saída para a situação de bolha, de degradação da economia e das finanças, em que se vive. O próprio sistema pretende arranjar uma solução que passa, precisamente, por essa destruição, e não só. Aquilo que sempre propusemos, e propomos, é que a economia seja organizada, em torno das nossas principais riquezas. Somos um porto [Sines] da Europa, aliás, podemos ser a porta de entrada para todas as mercadorias na Europa, temos um mar…

Mas o PCTP/MRPP aceita a economia de mercado ou que tem de haver uma economia de Estado?

Isso vai acontecer progressivamente. Defendemos uma economia planeada segundo as necessidades que os operários e trabalhadores têm. Não é como os exemplos que as pessoas dão quando falam em comunismo, da Rússia ou da China. Esses países não têm nada a ver com o comunismo, nem nunca tiveram.

Há algum que tenha?

Neste momento não há, infelizmente. Nem nunca ouve. Portanto, é uma ideia nova a ser aplicada, com as experiências que teve, ao longo do tempo, mas que passa, efectivamente, por uma necessidade de haver um planeamento de toda a economia, segundo as nossas bases e as nossas riquezas naturais. Nós temos todas as condições.

Acha possível, no mundo em que vivemos, montar um sistema desses num país com a dimensão de Portugal, ainda que de forma progressiva?

É possível. Disso não tenho dúvidas absolutamente nenhumas.

Não receia que essa posição, para alguns já anacrónica, assuste as pessoas?

Não propriamente. Porquê? O que é que o trabalhador ou operário tem hoje a perder? Foram empurrados para uma situação de miséria. Aliás, no ano de 2020 houve o confinamento, e o gabinete de crise, que foi criado para avaliar a situação, unanimemente disse que não fazia sentido fazer-se o confinamento. E fez-se rigorosamente o contrário. Ou seja, há uma narrativa do imperialismo que dita tudo aquilo que se passa. Esse confinamento, que não era necessário, mandou para o desemprego milhares de pessoas, mandou famílias inteiras para uma situação miserável.

Sobre o manifesto eleitoral, que outras medidas destaca?

A falência da economia, como estamos a verificar. Estas eleições têm um objectivo, que não tem nada a ver com questões económicas. Estas eleições têm, como principal objectivo, aniquilar a Constituição. O objectivo que PS, PSD e todos os ditos partidos do Parlamento têm é esse.

Estas eleições ou todas as eleições legislativas?

Estas, em concreto, têm um objectivo claro. Para eles poderem impor aquilo que os imperialistas querem, que é a destruição da economia, visto que o campo financeiro está controlado e a moeda digital vai ser a forma de tirar toda a liberdade a todo o ser o humano. Esta situação que se está a viver, em particular na Europa, é uma situação contra a qual nós nos devemos levantar, organizar as pessoas, os operários e trabalhadores, nas fábricas, para não permitirem.

O MRPP diz sempre que as eleições são burguesas, mas estas são piores ainda, têm essa agenda?

Precisamente. São eleições burguesas pela simples razão de que aquilo que se promove nas eleições não tem nada a ver com uma democracia, com a partilha e arranjar forma de as pessoas conhecerem os vários pontos de vista. Se eu tiver o tempo de antena que o PS, ou PSD, têm, obviamente que as pessoas vão perceber a riqueza dos nossos campos, aquilo que nós podemos fazer.

Atribui o fraco desempenho eleitoral do MRPP a esse bloqueio mediático?

Bloqueio mediático não, é a ditadura em que se vive. É uma ditadura burguesa, que não tem nada a ver com liberdade de expressão. Viu-se nestas eleições [um debate para uns partidos e outro para os restantes], o que é uma aberração. Acho incrível que os ditos partidos pequenos aceitem estas coisas. O critério para esses debates é um critério fascista.

Relativamente à necessidade da criação de NUTS especificas para a Península de Setúbal. É a favor ou contra? Ou acha que não é importante?

Não é que não seja importante. Tudo deve ser enquadrado, segundo uma perspectiva de desenvolvimento económico, segundo as necessidades dos operários e trabalhadores. Olhar para a economia, não como uma forma de lucro, mas uma forma de servir operários e trabalhadores. Neste quadro, a NUTS terá a sua importância.

Quanto à regionalização. O MRPP é contra.

Sim, o MRPP é contra. Temos de perceber que a regionalização não faz sentido. É outra forma de arranjar mais uns tachos para os amigos, na actual forma burguesa. Numa situação diferente, a organização da sociedade também será diferente, não haverá juntas de freguesia, haverá outras comissões, será diferente. Agora, nesta forma tudo o que se faça para se alterar o que está é para arranjar tacho para os amigos. Vivemos num país corrupto, dos mais corruptos, temos vários exemplos. E contra isso nós temos que nos levantar. Mas, mais uma vez, a questão fundamental é organizar, os operários e trabalhadores ganharem consciência da importância de se organizarem para imporem uma nova forma de economia. O nosso país tem todas as condições para independente, porque o país precisa de ganhar a sua independência, voltar à sua moeda, independentemente do que isso possa implicar, nos primeiros cinco anos, na economia. Com vamos isso criar as condições para podermos ser um país independente e livre do jugo dos imperialistas, europeus e não só.

O PCTP teve, em 2019, 36 mil votos, 0.69%. Desta vez há condições para ser diferente?

Vamos ver. Condições há, porque a esmagadora maioria, mais de 60%, da população portuguesa está contra esta situação que se vive, contra os partidos ditos da situação, precisamente porque já não querem saber de todo o compadrio.

Então, este ano espera um resultado melhor para o PCTP/ MRPP?

Os resultados são capazes de não ser melhores, porque este ano não concorremos a todos os círculos. Mas há uma coisa importante de que não falámos, que é a situação da saúde. Em Setúbal, temos um Hospital que rebenta pelas costuras. Aliás, a nível nacional, os hospitais recebem dinheiro por pessoas que vão para lá com covid e morrem lá com covid. Essa situação tem que acabar, os hospitais não podem receber dinheiro pelas pessoas que morrem com covid.

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