26 Setembro 2022, Segunda-feira
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João Faria-Ferreira: “As melhorias da geringonça são migalhas”

Candidato do Movimento Alternativa Socialista quer acabar com o capitalismo. Defende o diálogo à esquerda, mas sem o PS, que considera de direita

 

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Licenciado em Estudos Artísticos e mestre em Estudos Editoriais, João Faria-Ferreira, de 24 anos, é trabalhador, precário, em design gráfico. Natural do Barreiro, é activista das causas LGBTI e anti-racistas e aceitou concorrer pelo MAS, como independente, depois de ter-se desencantado com o Livre.

Porquê esta candidatura pelo MAS e como independente?

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Ao longo da minha trajectória política sempre tive muitos problemas com a forma partidária de fazer política, que considero um pouco castradora de ideias que saiam da norma, e esta reticência fez-me estar envolvido na política sempre de fora, como activista. Até, nas eleições de 2019, acabei por me envolver na política partidária, com o Livre, e, depois, desfiliei-me por apoio à deputada [Joacine Moreira]. A minha situação com os partidos piorou ainda mais, distanciei-me, até que houve algumas iniciativas que mobilizei, uma intenção de candidatura presidencial, que tentei ajudar a que se construísse, com movimentos sociais, mas não houve tracção. Ao longo da minha trajectória, mais recente, o único partido que sempre ouviu, respondeu aos emails, foi o MAS, que, ao mesmo tempo sofre de boicote quer mediático, quer dos partidos à esquerda.

Foi João Faria que se propôs ou o partido que o convidou?

Foi partido que me convidou. Com esta proximidade, que foi crescendo, a porta-voz do partido, a Renata Cambra, que é nossa cabeça-de-lista por Lisboa, que já me conhecia destas andanças, convidou-me para integrar as listas. Não tinha ideia, nem sequer a pretensão de ir para cabeça-de-lista, mas disse logo que só aceitaria se fosse para fazer uma campanha a sério, se acreditasse no programa e na cara da campanha. Confio muito na Renata e no programa que apresentamos e, depois, surgiu a situação de eu encabeçar a lista de Setúbal, o que me honrou imenso, porque eu sou daqui, tenho um carinho imenso pelo distrito. Para mim foi uma alegria.

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Diz que “é necessário lutar contra o capitalismo e as suas lógicas perversas, e trazer o diálogo e a empatia para o centro da actuação política”. Como pretende fazer isso?

Os políticos falam, mas, se calhar, não conversam. Estudam muito bem o que o marketing político diz que tem de ser dito, e, depois, não vão directos à questão, fogem ao compromisso que deviam ter com as gentes. Acho que o diálogo é o meu ponto forte. Converso com todo o espectro, desde a esquerda até à extrema-direita. E como se consegue romper com o “capitalismo e a suas lógicas perversas”. O capitalismo vem ditar toda uma monocultura, seja de afectos, seja de pensamentos, da terra, com a produção intensiva. No caso socialista, há uma maneira diferente de estar na economia. De não pensar no crescimento económico.

Defende uma economia de direcção central, com o Estado a determinar o que produzir, como produzir e para quem produzir?

No meu caso há uma grande variação à esquerda socialista, ou comunista. Tenho muita afinidade por algumas ideias anarquistas. Importa-me mais a autonomia, a autogestão, os trabalhadores com o controlo da sua produção. Depois, os quesitos, em concreto, para atingir isso, dependem da diversidade da esquerda, o que acho bonito. Não estou aqui como se o MAS, ou qualquer outro partido, fosse a única solução, o único voto que importa, a única visão de esquerda correcta. Gosto da pluralidade de esquerda e de pensar maneiras de atingir a luta contra o capitalismo, que está em todo o lado. É difícil, até, sonhar um mundo sem o capitalismo, porque todas as nossas relações afectivas, profissionais, são moldadas por ele.

O programa eleitoral do MAS fala em “acordar a esquerda”. Quem está a dormir; os eleitores os outros partidos de esquerda?

Normalmente, tende-se a olhar para esse slogan como um ataque à esquerda parlamentar. Não é essa a intenção, não é, necessariamente, um ataque ao BE, ou ao PCP, e também não é sugerir que os eleitores estão a dormir, mas a essa esquerda, esse bloco colectivo, abstracto, que não tem a força mobilizadora, de combate, de ir às ruas. Por exemplo, não temos visto manifestações de grande porte, e as greves importantes, que têm sido feitas, têm sido boicotadas pelo PS com requisições civis. A esquerda, que está num momento a apoiar o PS, tem-se esquecido desse papel de mobilizar e de ir para as ruas, de realmente defender o que propõe na Assembleia, não ficar só em bonitos projectos-de-lei e de resolução.

Falta agitar socialmente com vista à revolução social, ao socialismo?

Não falamos dessa revolução, mas de exigir o que é nosso de direito, por isso é que um dos eixos da nossa campanha é “fartos de migalhas”. Nós reconhecemos que nos seis anos da “geringonça”, em comparação ao governo de direita, anterior, houve melhorias, também graças à luta dos partidos de esquerda que deram apoio ao PS. No entanto, vemos que essas melhorias são migalhas. Houve o aumento do salário mínimo, mas não foi suficiente para combater a inflação.

Então, o socialismo que defendem é democrático?

O que defendo, e o MAS também, é o socialismo democrático. Eu não quereria um governo MAS de maioria absoluta, nem um governo BE de maioria absoluta. Gosto, justamente, dessa pluralidade de esquerda. Agora, eu e o MAS não consideramos o PS de esquerda, ainda que possa ter algumas tendências, às vezes, sociais-democratas, tem políticas neoliberais na mesma, são é mais fofinhas.

Entre as 12 medidas que o programa eleitoral apresenta, além do aumento dos salários e das pensões, está o fim das propinas e das empresas de trabalho temporário, o investimento na saúde, cultura e transportes, na ferrovia em particular, e a semana de quatro dias de trabalho. Temos economia para isto?

Esse é o argumento dos liberais contra nós. Mas veja-se, por exemplo, os apoios sociais como o RSI, que é tão atacado: todo o dinheiro que o Estado gasta com RSI é um investimento porque faz rodar a economia. Num aumento de salários, que não é por acaso que defendemos, o dinheiro que as pessoas recebem a mais não vai para a Suíça ou para offshores. Quem recebe o salário mínimo gasta o dinheiro na economia nacional. Infelizmente, também permitimos as grandes cadeias, como a Jerónimo Martins e a Sonae, tomarem completamente os negócios locais.

Tem sido discutida a necessidade de criação de uma NUTS para a Península de Setúbal. O que defende sobre isso?

Vi essa discussão das NUTS recentemente, porque não me tinha cruzado, ainda, com essa questão. Não digo que não seja uma questão importante, mas não acho seja um assunto tão prioritário assim. Percebo que tem a ver com investimento da União Europeia, mas acho é que há coisas mais importantes no debate, actualmente, do que uma NUTS.

A regionalização é mais importante ou é igualmente pouco importante?

Eu acho que é importante, mas acho que é, também, outro assunto paralelo que se levanta. Há coisas mais prementes agora, estamos no meio de uma pandemia, a Assembleia foi dissolvida.

Sendo assim, o coloca no centro das prioridades?

Justamente por isso é que temos um programa com 12 medidas urgentes, o que consideramos o que realmente precisa de ser feito agora e que vai melhorar a vida das pessoas. As rendas que não param de aumentar, o emprego precário. Sobre as rendas, a proposta do MAS é que não possam ultrapassar 30% do rendimento E, o que é curioso, a banca reconhece isso quando se pede um empréstimo para a casa. Os bancos sabem bem que as pessoas não vão conseguir pagar facilmente se o esforço ultrapassar aqueles valores.

Como se conseguiria operacionalizar? Não haveria situações do género: uma família arrenda uma casa, manifestamente superior às suas condições económicas e depois o proprietário tem de baixar o valor para 30%? Nessa perspectiva eu podia ir morar para um palácio.

Também não é assim. Não é qualquer casa tabelada aos 30% de qualquer salário. Obviamente, para uma pessoa individual não é arrendar um T5 a 30% do seu salário.

Mas é um modelo que carece de um regime muito complexo.

Com certeza, e um debate muito grande. Isto pode ser feito através de taxação agressiva, penalizações e incentivos fiscais. Há várias maneiras que podemos pensar. Seria uma discussão não apenas para os deputados do MAS, não temos essa pretensão, que outros partidos têm, de que sozinhos descobrimos a chave para tudo. Naturalmente, que é uma discussão que se faz à esquerda. Esta ideia dos 30% tem de ser trabalhada, depois, com as forças que se montarem no Parlamento, e com pressão nas ruas, porque as pessoas também interessam nessa baixa das rendas.

Sobre o aeroporto, o MAS tem posição definida?

O aeroporto é outro caso emblemático da região. Eu e o MAS somos contra o Aeroporto do Montijo, até porque não sabemos se aquela zona está cá daqui a 50 anos. E é prioridade, um novo aeroporto? Acho, por exemplo, que o aeroporto de Lisboa deveria fechar, porque dentro da cidade é perigoso e pela qualidade de vida.

Mas para fechar o de Lisboa, tem que se construir um noutro lado.

Para fechar o de Lisboa é preciso um aeroporto capaz de comportar tudo isso. A mim e ao MAS, não interessa que Portugal vire uma montra turística. Já vimos isso em Lisboa e a acontecer nas capitais, como o Porto, e talvez comece a acontecer para o resto da Área Metropolitana de Lisboa, para Setúbal. Eu não quero que Setúbal seja só turistas, vamos esvaziando.

Mas, em Setúbal, estamos, ainda, muito longe da saturação.

Sim, em Setúbal ainda estamos longe, mas vimos o que aconteceu em Lisboa. Não é assim tão descabido. Então, é preciso criar um aeroporto capaz, e temos um, não tão longe assim, em Beja. Isto é uma opinião minha, não estou a dizer que é necessariamente a do MAS. O aeroporto de Beja poderia levar esse investimento para ser o novo aeroporto internacional de Portugal, que serve a capital. Isso obrigaria ao foco no interior, que está desertificado e a que ninguém liga para o interior, e, depois, ao investimento na ferrovia, que nós defendemos há muito tempo. Um comboio de alta velocidade que ligaria Beja a Lisboa muito rapidamente, e aí talvez, uma terceira travessia do Tejo, no Barreiro, como está planeada também. E a travessia a pensar na ligação Barreiro-Seixal, para ligar o Metro Sul do Tejo, de que não se fala disso. A Câmara do PS do Barreiro boicotou isso, porque as obras novas, juntos aos barcos, boicotam qualquer hipótese fácil de fazer essa ligação. Com as novas a solução implica mais dinheiro, mais custos para destruir a rotunda que foi feita.

O MAS nunca elegeu deputados. Acredita que desta vez é possível?

Acredito, não só na eleição da Renata Cambra, mas que é possível aspirar a um grupo parlamentar. Vão dizer, por ter 24 anos, estou a sonhar muito alto, que não tem cabimento. Conheço a minha colega, Renata Cambra, confio nela, vejo as capacidades que tem, e que são construídas também no partido. É militante do MAS já de há muitos anos, uma pessoa que foi construindo. A Renata tem muita capacidade e, pelo que tem sido visto agora, houve uma quebra do cerco mediático. Houve uma óptima prestação no debate [na televisão].

O MAS está a conseguir aparecer mais e isso dá-lhe esperança de conseguirem eleger?

Já imaginava que isso fosse acontecer, já sabia que quando Portugal conseguisse ouvir Renata Cambra iria gostar, iria querer mobilizar-se nessa causa. Sabia que as pessoas quando conhecessem o MAS, as nossas propostas, que se iriam rever, especialmente neste contexto, agora, em que as pessoas estão um pouco aborrecidas com a esquerda real, à esquerda do PS, e com a situação que aconteceu com dissolução da Assembleia, que deu a queda do governo.

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