16 Maio 2022, Segunda-feira
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Vítor Pinto: “Defendemos a aposta na ferrovia”

Pessoas, Animais e Natureza quer reforço das linhas do comboio entre a Península de Setúbal e o Litoral Alentejano e a opção pelo aeroporto em Beja

 

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Militante do PAN desde 2019, Vítor Pinto foi já candidato do partido à Câmara de Almada nas últimas autárquicas. Natural de Almada, tem 43 anos, e é técnico de Acupunctura e Medicina Tradicional Chinesa.

Nas últimas eleições, o PAN elegeu uma deputada pelo distrito de Setúbal, Cristina Rodrigues, que, entretanto, rompeu com o partido. Não receia que esse facto possa prejudicar o PAN nestas eleições?

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Não. Não acredito que isso tenha influência sobre a votação actualmente, porque, independentemente desse episódio, o trabalho do PAN, a nível legislativo, das propostas que tem feito no Parlamento, e todo o trabalho que tem executado a nível autárquico, com os deputados municipais, tem feito ver que é uma força que tem de ser considerada no panorama político nacional como algo incontornável.

Que avaliação faz da actividade da deputada Cristina Rodrigues?

É difícil de não adjectivar porque ela foi eleita pelo partido e, a partir do momento que entra em dissidência, o mandato perde legitimidade, na medida em que ela foi eleita pelo partido. Se foi essa bandeira foi a que a levou ao lugar de deputada, a partir do momento em que ela entra em ruptura, devia ter cedido o lugar. Essa seria a conduta correcta. A partir daí, a postura dela tem sido da sua inteira responsabilidade e nós continuámos a fazer o nosso trabalho, e a demonstrarmos, perfeitamente, a justificação para o PAN continuar no Parlamento. Acreditamos que vamos manter a representação, e queremos aumentar, para continuar a levar as nossas bandeiras. A grande preocupação é o ambiente, que é a pedra basilar pela qual estruturamos as nossas políticas, de protecção animal, social, saúde ou economia, aqui para o distrito também.

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Tem dito que a economia é “incontornável”. Até que ponto a economia é essencial para si?

A economia é fundamental, aliás, uma coisa não é dissociável da outra, porque as indústrias e o desenvolvimento económico têm de seguir a linha da sustentabilidade. Temos de estar na linha da frente se queremos ter um futuro promissor e de sucesso. Nesse sentido, o nosso distrito está numa localização geográfica privilegiada, temos um património natural invejável, que nem sequer é comparável com a margem norte, é melhor, com condições excepcionais. Entre os estuários do Tejo e do Sado, a Arrábida, os 80 quilómetros de costa pristina, a península de Tróia, no distrito temos um património incalculável. Crescemos mais de 10% ao ano a nível turístico, o grande motor da economia, pelo que não ter a preocupação ambiental de garantir que este património é explorado de forma sustentável e garantido para o futuro, é algo gritante e que não pode ser. Os atentados ambientais que têm sido feitos no distrito têm de estar em cima da mesa e ser prioritários. As dragagens no Estuário do Sado, com impacto para todos os ecossistemas, as descargas de lama, mais recentemente, com o impacto nas pradarias subaquáticas, a co-incineração há décadas feitas pela Secil na Arrábida, os depósitos de resíduos no Vale da Rosa, são políticas que não podem ser continuadas. A transição energética é economicamente viável e ambientalmente, absolutamente, imprescindível. Por exemplo, o distrito é caracterizado por uma dicotomia gritante entre a Península de Setúbal e o Litoral Alentejano, tanto a nível demográfico como dos indicadores económicos, existe uma diferença muito grande. É necessário haver estratégias de coesão do distrito, e o papel dos transportes é fundamental. Se não houver uma estratégia integrada de promoção de coesão através de redes de transportes e de comunicação bem delineadas, o desenvolvimento económico é muito difícil. Defendemos a aposta na ferrovia. O distrito onde entram mais de 50% das mercadorias por via marítima, a nível nacional, não tem uma rede de transportes como deve ser? Isto é discriminatório. É fundamental reatar as linhas regionais, estender e aumentar a linha do Litoral Alentejano e criar uma rede de transportes colectivos de qualidade para aquelas populações, sujeitas a uma discriminação gritante. É fundamental também estender o metro de superfície ao Barreiro e Alcochete. São apostas que, para além de fazerem a transição para uma descarbonização, desenvolvem o distrito.

Como pode ser feita a compatibilidade entre o desenvolvimento sustentável e a tradição industrial da região de Setúbal, que assenta em sectores tradicionais?

É uma transição que se deve fazer. Descontinuámos a produção através do carvão, em Sines, e agora há indicações de que se pretende apostar no hidrogénio, uma energia renovável em que merece a pena apostar e tem de ser no quadro dos fundos comunitários, do PRR. É necessário fazer uma reorganização das zonas administrativas porque Setúbal tem sido prejudicado, gritantemente, pois andamos a subscrever os fundos europeus com indicadores de uma área geográfica privilegiada.

O defende nessa matéria das NUTS e da organização administrativa, até com vista à regionalização?

Defendemos a NUT II e NUT III. A NUT II já está prometida há muito tempo, tem vindo a ser falada, mas nunca foi efectivada, e isso, em termos de financiamento por parte da União Europeia é fundamental, para trabalharmos com os indicadores do nosso distrito e não andarmos a reboque de Lisboa. Estarmos sucessivamente a ser prejudicados e Lisboa a ser beneficiada, muito ao colo de António Costa, que tem o seu bebé em Lisboa e acaba por adiar esta partição que tem de ser feita. A NUT III é fundamental para conseguirmos ter dados estatísticos.

Sobre a regionalização, defende que Setúbal deve ficar em que região? E dividida entre o Litoral Alentejano e a Península de Setúbal ou o distrito todo do mesmo lado?

Acredito que o distrito todo seja mais consequente, mas a forma como a regionalização vai ser feita, faz toda a diferença. É preciso, tal como Inês Sousa Real, a nossa porta-voz, tem preconizado, um grande debate na forma como queremos a regionalização. Compreendemos que para anular as assimetrias, a regionalização e a transferência de competências é, absolutamente fundamental, sendo que os municípios já estão a receber transferência de competências, mas não têm recebido as transferências financeiras para que consigam assegurar essas funções. Esse processo de regionalização é fundamental, mas resta salvaguardar que não há uma desmultiplicação de tachos e ‘tachinhos’.

Relativamente ao aeroporto, o que defende?

Achamos um erro o aeroporto no Montijo. Vamos visitá-lo de galochas, daqui a uns anos. Não é uma solução, é um atentado contra a natureza. Estamos a falar de uma área de nidificação excepcional, a nível europeu, de diferentes espécies que não fazem esse processo em mais lado nenhum. Tem um potencial, ecológico e de turismo de natureza, brutal, e nós estamos a depauperar aquela zona. Para além disso, é um risco, porque, com a subida do nível médio dos mares, o concelho e o Estuário do Tejo, vão ser mais afectados, e as aves aumentam grandemente o perigo para os aviões. Temos, de facto, de considerar Beja. E isso insere-se numa estratégia de reforço e de integração da rede da ferrovia, porque é necessário haver uma descentralização. Por muito que os interesses instalados queiram manter a centralidade no litoral e nas grandes capitais, se queremos desenvolver o país, temos de apostar no interior, e isso faz-se através da ferrovia também.

Está a falar da ferrovia que temos, ou de alta velocidade?

Das duas.

Do programa do PAN, que é extenso, que medidas destaca?

O nosso distrito é testemunha, todas as semanas, praticamente, do embarque de animais vivos, seja no Porto de Setúbal, seja no Porto de Sines. Nós preconizamos que esse transporte não deve ser feito dessa forma, os animais não devem ser transportados vivos, por várias razões, entre elas o facto de as condições constituírem um problema de saúde pública. Os animais vão ser transportados para zonas sem protecção animal. Temos este problema também internamente, porque também importamos, e estamos a comer – quem come – animais que passam por condições que sabe Deus e isso vai ter impacto na saúde dos animais e na nossa saúde, inevitavelmente. Outra medida que defendemos é um atlas para as alterações climáticas, para conseguirmos definir estratégias a nível de desenvolvimento. Porque o nosso distrito vai ser fortemente afectado. Neste momento, estamos a construir empreendimentos e campos de golfe em cima de duna primária e a explorar as reservas hidrológicas, recorrendo aos aquíferos, numa zona de afectação tremenda do processo de desertificação.

Há pessoas que acusam o PAN de preocupar-se mais com os animais do que com as pessoas e é curioso que nas medidas que destacou não incluiu as pessoas.

Não concordo com essa observação. Quando eu falei nos animais, disse logo que esse transporte vai implicar na saúde humana. É este prisma que está subjacente, quando falamos em preocupações ambientais. Não há como construir soluções para as pessoas, para os animais, sem levar o ambiente em consideração, primeiramente, e isso é a nossa pedra base. Nós quando preconizamos soluções para o ambiente, temos em mente um futuro melhor para as pessoas, não é para mais nada. Não é para uma construção abstracta da natureza, como uma entidade, é porque nós não vivemos sem a natureza.

Há propostas do PAN sobre a terceira idade. Quer destacar alguma?

Temos um problema de inversão da pirâmide social, por isso devemos, até por salvaguarda do SNS, apostar numa saúde preventiva, de envelhecimento activo. É necessário salvaguardar que esta população tem acesso aos cuidados de saúde, e, no nosso distrito, a instalação do Hospital do Seixal é absolutamente fundamental. No envelhecimento activo e numa perspectiva de saúde preventiva, por exemplo, preconizar que também as pessoas na terceira idade possam descontar em sede de IRS as actividades desportivas. A forma como interceptamos as diferentes dinâmicas, as diferentes políticas para a terceira idade, inclui a questão da mobilidade suave, tudo deve ser integrado para promover um grande projecto de saúde preventiva.

A líder do PAN tem dito que está disposta a ser parte da governação, tanto do PS como do PSD. Prefere um governo de esquerda ou de direita?

Não tenho preferência. O que nos interessa são soluções, sendo que é mais comum a esquerda manifestar estas preocupações a nível ambiental. Mas não temos uma posição dogmática. Somos progressistas e ecologistas, somos ‘ecocentricos’, e as políticas económicas, mais de direita ou de esquerda, sejam elas com maior presença do Estado, ou maior preponderância do mercado, são instrumentos na prossecução de um bem maior. Não podemos ser absolutamente dogmáticos e dizer que o Estado tem de estar em todo o lado, senão, não tarda muito, somos marxistas, ou, do outro lado, que a mão invisível vai resolver todos os problemas. Já chegámos a uma época que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. E este equilíbrio é o que o PAN procura.

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