25 Janeiro 2022, Terça-feira
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Lojista do Barreiro continua a trabalhar por paixão aos 90 anos e pretende continuar

Comerciante sente-se um “filho adoptivo” da cidade, onde criou amigos e as suas raízes

 

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É com uma réplica de Van Gogh na parede e uma imagem do comediante britânico Charlie Chaplin que, aos 90 anos de idade, Manuel Carreiro Neves continua a dedicar o seu dia-a-dia à paixão pelo trabalho que sempre teve, numa drogaria da Rua D. João de Castro, situada na Quinta da Lomba, em Santo André, no concelho do Barreiro.

O sócio n.º 5 da Associação de Comércio e Serviços do Barreiro e Moita, recorda com nostalgia a época em que, com apenas 12 anos, começou a trabalhar num negócio de uma tia no lugar de Terena, no concelho do Alandroal [Alto Alentejo], tendo quatro anos depois partido para Lisboa. Foi ali que iniciou a sua actividade, a fazer “produtos farmacêuticos, que não eram medicamentos”, frisou. Lembra-se de ter percorrido todos os cantos da capital, até à data em que decide atravessar o Tejo e vir morar para a terra que o acolheu e onde reside desde há 72 anos.

Apesar de “algumas dificuldades iniciais”, o comerciante recorda o momento em que abriu as portas da sua loja, na altura, com 32 anos, num bairro que ainda tinha pouca gente e onde começou por vender garrafas de gás. “Consegui viver durante este tempo todo, sem grandes sobressaltos”, afirma satisfeito. “Não tenho fortuna e estou muito satisfeito por isso, dá-me gozo continuar a trabalhar e nem podia estar sem o fazer”, garantiu a O SETUBALENSE.

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“A minha idade só está no cartão de cidadão e não consigo imaginar-me a estar em casa, até porque ficaria doente”, admite. “Aprecio estar aqui ao balcão, até porque, normalmente, estou habituado a falar com as muitas pessoas que aqui entram e saem diariamente”, confessa.

Ao longo da sua vida profissional, diz ter aprendido a fazer água de colónia, fixador para o cabelo, laca e até pó-de-talco, bem como massa para os vidros e ceras. “Com o tempo, o conceito de drogaria foi se distanciando daquilo que representava no passado e, só mais tarde, as drogarias foram sofrendo alterações”, explica. “Tínhamos muitos produtos que nos foram retirados porque as farmácias assim o exigiram e, depois disso, estes espaços tiveram que se adaptar, com a venda de materiais de canalização, ferragens, entre outros”, acrescenta. “Hoje vendemos de tudo, incluindo material eléctrico, tomadas, interruptores, acessórios, pregos e parafusos, tintas, entre outros materiais para reparação de casas”, sublinha.

Manuel Neves, ao longo da sua vida profissional, aprendeu a fazer água de colónia, fixador para o cabelo, laca, pó-de-talco e até massa para vidros e ceras

Presentemente, na sua loja, encontram-se disponíveis mais de dois mil tipos de produtos diferentes para venda e é ali que Manuel tem o seu escritório, entulhado de outras peças que estão armazenadas. “É um longo trajecto que foi me deixando muitas saudades, desde a altura em que ainda era um jovem”, recorda. À sua memória vêm os tempos dos relacionamentos com a “malta” do bairro e o próprio contacto com diversas pessoas. “Já em Lisboa trabalhava em todas as zonas, tanto estava em Alvalade como no Campo Grande, no Lumiar ou em Benfica, Carnide, Mouraria, Alfama, e por aí fora, corri aquilo tudo”, lembra.

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“Enquanto me sentir bem continuarei trabalhar”

Reformado desde os 65 anos, Manuel Carreiro Neves decidiu continuar a trabalhar até aos dias de hoje e é isso que lhe dá saúde para continuar a fazer aquilo que sempre lhe deu satisfação. Vive com a esposa, tem dois filhos e está prestes a ter quatro netos. “Não conto deixar de fazer aquilo que mais gosto e enquanto me sentir bem virei trabalhar”, assegurou.

“Tem plásticos para proteger o estendal da roupa?”, interrompe uma das clientes que ao longo da nossa conversa com o lojista, entravam no estabelecimento em busca disto ou daquilo. O diálogo continuou com a situação da pandemia. “Lembro-me da gripe asiática, em 1958, mas não foi tão grande como esta, até chegámos a notar a falta de pessoas em determinadas carreiras fluviais e conhecia muitas das pessoas que contraíram a doença”, disse. Desde o início da crise sanitária, Manuel diz ter ficado em casa mais de um mês, porém, passado um tempo teve que reabrir a sua loja “porque já não conseguia ficar fechado entre quatro paredes”.

Além do seu trabalho, Manuel Neves esteve desde cedo ligado ao associativismo barreirense. Foi sócio-fundador do Grupo Recreativo da Quinta da Lomba, criado em 1953. “Fizeram-se muitas actividades nesta colectividade, mas hoje este meio está morto e as actuais gerações ‘borrifaram-se’ para estes espaços”, lamenta, defendendo que “o colectivismo acabou”. O comerciante esteve ainda vinculado ao Futebol Clube da Quinta da Lomba, que “era a sétima filial do Futebol Clube Barreirense”, relembra.

Na sua memória tem ainda os dias vividos nos tempos áureos do cinema. “O Barreiro tinha vários espaços como os Ferroviários, a Casa da Cultura ou a esplanada do Luso, com a malta toda a ir às sessões de cinema”, disse. “No final da guerra, durante os anos 50, foram os tempos das grandes produções e dos filmes musicais”, altura em que se tornou sócio do Cine Clube do Barreiro. “Foi aqui que fiz a minha formação como homem, criei os meus amigos e as minhas raízes e, por isso, sinto-me um filho adoptivo do Barreiro”, conclui.

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