23 Setembro 2021, Quinta-feira
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Praias na Arrábida desaparecem e aglomerados na Costa podem ficar submersos

As alterações climáticas já se fazem sentir. O académico alerta para as consequências nefastas. Baixa de Setúbal, Caparica e península de Troia são áreas mais sujeitas a galgamentos costeiros

 

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Já começaram, à escala planetária, e vão aumentar os fenómenos extremos, como tempestades, quer em termos de periodicidade quer de magnitude, com maior capacidade destrutiva. Vêm com as alterações climáticas, ligadas ao aumento da temperatura média global. A precipitação, por exemplo, vai acontecer com menor frequência, mas em maior força.

“Vamos ter menos água. Menos chuva, mas a ocorrer de forma mais intensa e concentrada num determinado período curto de tempo. Logo à partida, vamos ter de gerir melhor a água”, alerta José Carlos Ferreira, professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente e investigador da FCT Nova.

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Alterações climáticas que vão implicar “consequências negativas, como o aumento do nível médio do mar, a propagação de algumas doenças, a escassez de alimentos, perdas económicas, perdas na biodiversidade”, aponta.

E tudo o que está relacionado com perdas pode verificar-se “através de catástrofes: o aumento dos ciclones, das ondas de calor, das inundações, das secas”. Está-se perante “uma grande mudança no clima à escala do Homem”, que não deixa nenhum território de fora.

O Distrito de Setúbal não é excepção. Ainda para mais quando se trata de uma região litoral, com dois dos maiores estuários – o do Tejo (um dos maiores da Europa) e o do Sado (talvez o segundo maior a nível nacional), conforme lembra José Carlos Ferreira –, além de uma extensa zona costeira banhada pelo Atlântico.

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E os impactes vão ser grandes, sobretudo, os relacionados com a subida do aumento do nível médio do mar, que pode crescer dois metros dentro de poucas décadas. “Se pensarmos a 10, 50 ou 100 anos – que são normalmente as tendências que gostamos de usar para os principais impactes das alterações climáticas – e olharmos sobretudo para o nosso distrito, quer na Península de Setúbal quer na parte sul, teremos o aumento do nível médio do mar, que afectará o nível médio das águas e também o tipo de ondas, de agitação marítima”, indica.

Logo, adianta, “como há mais vapor de água na atmosfera, porque a temperatura média está mais alta, vai haver, e já começou a registar-se, um aumento dos fenómenos extremos”. Consequências? “Aumento da erosão na nossa zona costeira. As praias do distrito, sobretudo as mais pequeninas, aquelas da Arrábida, vão ficar mais pequenas, emagrecer, e muitas vão desaparecer”, assinala o especialista.

E reforça: “A Costa de Caparica é uma área baixa e arenosa e é uma preocupação. E também a zona do Meco e toda a zona da Troia”. Mais: “Todas as zonas que são arenosas, onde existe praia e duna, ficam mais afectadas. Como também as arribas. O mar vai chegar mais próximo da base da arriba e vai tentar galgamentos. Hoje já temos estudos que mostram isso e temos vindo a assistir a um emagrecimento das praias, das dunas e a um aumento da erosão das arribas. Não é preciso ficar à espera 10, 50 ou 100 anos.”

Galgamentos e erosão costeira

Por isso, defende, é imperativo tomar medidas de adaptação a estes fenómenos que “vão ser mais intensos”. E além da erosão, “há que contar com o galgamento costeiro”. A Costa de Caparica, a baixa de Setúbal, toda a península de Troia, avisa, “são áreas onde os galgamentos podem ocorrer”. E as repercussões podem revelar-se nefastas. “Podem ser destrutivos, podem provocar perda de vidas e bens, e também inundações.”

Alguns locais podem mesmo vir a ficar submersos. A Cova do Vapor, no concelho de Almada, corre esse risco.

“Quer a erosão quer o galgamento costeiro quer as inundações – porque a onda galga e depois inunda no interior, com a água a ficar ali retida – podem causar submersão de alguns aglomerados, não há dúvida.”

Mas isto não se aplica a todos os aglomerados. Até porque, vinca, “não se está a falar de nenhum tsunami, mas sim de um fenómeno que vai ocorrendo por falta de sedimentos, por aumento da energia das ondas, entre outros”.

Identificados como locais de risco estão, “além da Cova do Vapor, a linha de frente da Costa de Caparica, a zona onde estão os bares, os parques de estacionamento e também a zona das dunas, todas a sul, a Fonte da Telha…”, acrescenta, ao mesmo tempo que junta: “No nosso distrito essa é, talvez, a situação mais preocupante. Depois ainda temos as pequenas praias e nos estuários temos também estes problemas, não é só nesta zona costeira.”

Salinização contamina aquíferos

Os impactes não se ficam, no entanto, por aí, faz notar José Carlos Ferreira, que foca de seguida “a influência marinha nos estuários e nas bacias”.

“A intrusão salina vai aumentar, devido também às alterações climáticas. Vai salinizar os solos, contaminar os aquíferos. Todos estes fenómenos juntos – a precipitação, o aumento da temperatura, que depois tem como consequências a erosão, o galgamento costeiro, as mudanças costeiras, a influência marinha nos estuários… – vão provocar a contaminação dos aquíferos, a perda de biodiversidade. Vamos perder habitats que são muito importantes”, afirma.

Além disso, junto às cidades mais costeiras vão existir consequências impactantes em “equipamentos”, como por exemplo “nas ferrovias, nos portos, em algumas rodovias, no abastecimento de água…”, garante.

Aeroporto no Montijo “Não se deixa de fazer por causa da subida do nível médio do mar”

A subida do nível médio das águas tem sido um dos pontos utilizados em torno da discussão da implantação do novo aeroporto no Montijo, em zona estuarina. José Carlos Ferreira admite que possa haver impacte, todavia insuficiente para constituir impedimento à construção da infra-estrutura no local.

“Obviamente que no futuro, daqui a cem anos, a zona onde vai ser implementado, se for, o segundo aeroporto de Lisboa, é uma zona que, quando existir um aumento do nível médio do mar mais significativo, será afectada. Na minha opinião, enquanto especialista em alterações climáticas, mas sobretudo em ordenamento de território, não se deixa de fazer esse aeroporto por causa da subida do nível médio do mar, porque há imensas técnicas [para resolver a questão]. Basta elevar a pista, fazer um plano de acordo com as previsões. Há impactes muito mais sérios”, defende.

E adianta: “Acho que o impacte sobre as aves do estuário é mais preocupante do que a subida média do mar. Acho que o impacte sobre a qualidade de vida das pessoas que vivem na Baixa da Banheira, sobretudo uma classe mais desprotegida, pobre e com casas menos preparadas para o ruído, é muito mais importante do que a subida do nível médio das águas do mar.”

 

“Tem de haver uma retirada de pessoas e indústrias que estão em maior risco”

Solução imperiosa é a “relocalização das estruturas que estão em risco, seja nos estuários, seja nas zonas costeiras…”, sustenta o investigador.

“Quando temos áreas em risco, pessoas e bens têm de ser retiradas, não é? Tem de haver uma retirada imediata ou progressiva, tem de se retirar as indústrias que estão em maior risco, localizadas em áreas de risco de galgamento costeiro, de erosão, de instabilidade. Tem de se começar a pensar em retirar, estou a falar da Mitrena e outras áreas”, atira.

Só que o processo é reconhecidamente difícil. “Nada é fácil”, contrapõe José Carlos Ferreira. Para essa dificuldade podem concorrer dois factores de peso: falta de coragem política e, sobretudo, o avultado investimento necessário para o efeito.

“Quando estamos a falar em relocalizar estruturas que estão em risco estamos a falar sempre de grandes investimentos e, muitas vezes, não são suportáveis pelas autarquias, tem de ser um Governo. E, muitas vezes, o Governo tem de se socorrer dos fundos europeus. Mas estamos a falar de segurança, de pessoas e bens. Portanto, não é só uma questão de coragem, porque coragem há desde que exista dinheiro”, considera.

A par disso, faz notar, é fundamental “trabalhar com as comunidades”. “Há muita falta de literacia sobre o risco. Uma das grandes soluções é educar as comunidades. É fundamental para se mudar este paradigma. Não basta haver boas leis, até haver dinheiro, se depois as pessoas estão contra e não percebem o político. A preocupação do político é salvaguardar as pessoas e bens, mas também tem de ser eleito. Portanto, este paradigma só muda se as pessoas perceberem por que têm de alterar comportamentos face ao risco”, complementa.

 

Medidas de adaptação às alterações climáticas entre a fama e o proveito

José Carlos Ferreira é um dos rostos por detrás do plano já finalizado de adaptação às alterações climáticas para a Área Metropolitana de Lisboa, que inclui a Península de Setúbal.

E está a trabalhar agora num outro, ainda mais específico, para os territórios da Arrábida (Setúbal, Palmela e Sesimbra), que foi lançado no primeiro semestre do ano e que deverá estar concluído dentro de “nove meses”.

O investigador considera que “não há outra forma” de combater as alterações climáticas senão a de adoptar as medidas estudadas. Isto num País onde, reconhece, se guardam estudos e planos na gaveta.

“Temos realmente a fama, e algum proveito, de termos bons estudos, bons planos, mas depois a prática tem a sua dificuldade”, observa, antes de juntar: “Os planos são bons se forem eficientes e efectivos. Um bom processo de planeamento a nível do ordenamento do território tem de ser efectuado, conseguido do ponto de vista técnico, depois decidido pelo político e depois tem de ser implementado na realidade através das forças que transformam o território (os investidores, os privados, o investimento público).”

Há que proteger a linha de costa. Como? “Como tem sido feito. Por exemplo, a limitação artificial de praias, com a colocação de areia na praia. É uma medida que tem sido feita e que é recomendada; voltar a construir dunas; estabilizar as arribas, em situações como na Caparica, antes de retirar os esporões, as obras mais pesadas, também tem de se construir… nem sempre a solução mais natural é a mais ideal. Todas estas medidas já estão identificadas há muito tempo. Gastámos muitos milhões de euros para proteger a zona costeira, a limitar dunas, praias… Nós até fazemos, mas não de forma planeada e preventiva e sim reactiva. A gestão dos nossos riscos é reactiva, não há uma cultura verdadeiramente de planeamento”, lamenta.

É uma espécie de política à portuguesa. Tal como diz a sapiência popular: ‘casa arrombada, trancas à porta’. Age-se reactivamente. “Há um grande episódio de inundação, então agora vamos fazer a bacia de retenção, por exemplo. Há um grande galgamento, uma grande erosão costeira, como em 2014, então, após isso, vamos fazer limitações artificiais”, exemplifica.

Porém, faz justiça aos tempos mais recentes. “É verdade que, nos últimos anos, sobretudo com este ministério, houve algumas limitações artificiais preventivas, mas é caso raro.”

 

Agricultura tecnológica e cidades mais verdes fazem parte da solução

A adaptação da agricultura às alterações climáticas, sobretudo “à precipitação, à mudança da temperatura média, a uma cultura que use menos água e menos intensiva e que não deteriore tanto os solos”, é decisiva.

“Isto é uma grande medida que tem de ser feita para o nosso distrito”, destaca José Carlos Ferreira, que defende a aposta numa agricultura tecnológica. “Temos no nosso distrito a maior faculdade de ciências e tecnologia do País que é a Nova. Temos tecnologia, trabalhamos com drones, agricultura de alta precisão, mas trabalhamos para outros municípios, nem sei se trabalhamos muito aqui para o distrito. Depois temos o Instituto Politécnico de Setúbal que é só dos melhores do País. Estas duas instituições fantásticas têm de estar ao serviço do desenvolvimento sustentável, e na agricultura também”, frisa.

Gerir a água é de capital importância. Tal como, de resto, “a adaptação das cidades e das áreas urbanas” onde vivemos. “Através da introdução de mais processos naturais na cidade. Uma cidade que consuma menos energia, que também seja produtora de energia, uma cidade mais verde, onde circule mais o ar e adaptada à intensificação da precipitação. Ou seja, vai chover mais em menos tempo, precisamos de uma cidade, por exemplo, com bacias de retenção onde a água escoe com mais facilidade, onde se aproveite água nesses períodos.”

Tudo isto sob pena de se sofrer uma perda considerável de biodiversidade, conforme se prevê. “A Arrábida daqui a 15 anos não será a mesma, será outra do ponto de vista ecológico. O estuários do Sado e do Tejo serão outros, as lagoas costeiras serão outras. Temos de nos adaptar a esta mudança que vai existir com o aumento da temperatura da água, com o aumento da salinidade, o aumento da acidez, a mudança das espécies. Vão desaparecer algumas espécies, mas vão aparecer outras”, salienta, ao mesmo tempo que aponta: “Toda a gente, basicamente, vive no litoral. Se pensarmos, os três grandes problemas do território costeiro do nosso distrito têm a ver com a ocupação, com um ordenamento do território inadequado à sensibilidade ecológica”.

E reforça: “Não temos um modelo de ordenamento de base ecológica… são muitos erros urbanísticos do passado.”

Novos PDM para Setúbal e Almada são exemplo

O novo PDM de Setúbal já vem responder a esse desafio. Só falta ser aprovado. E é “verdadeiramente inovador”. “Somos os responsáveis pelo modelo de ordenamento ecológico desse PDM e deixe-me dizer que o modelo de ordenamento de território de Setúbal baseado na estrutura verde e na estrutura ecológica é um caso de estudo internacional”, aponta. E o de Almada segue o mesmo caminho. “Não estamos envolvidos, não conheço tudo, conheço alguns colegas que estão envolvidos e também me parece que é um PDM que já vai ao encontro disso”. “Se nós tivéssemos feito este tipo de gestão de base ecológica há 40 ou 50 anos, não tínhamos os erros urbanísticos e de ocupação que temos hoje. O dinheiro já não pode ser o pretexto, e não sendo o pretexto, então vamos ter de fazer alguma coisa. Vamos ter de tirar pessoas da zona de risco”, conclui.

Turismo balnear Efeitos também podem ser positivos

As alterações climáticas não implicam apenas impactos negativos. Também podem acarretar aspectos positivos.

“As consequências negativas são muitas, devido à grande incerteza e, sobretudo, porque nós queremos viver nas zonas de risco, zonas costeiras. Mas há algumas consequências positivas”, confirma o investigador, que destaca desde logo como a mais positiva “o aquecimento das águas”.

“Isso vai acrescentar maior capacidade ao turismo balnear. Tal como o aumento do número de dias de Sol, com menor precipitação na maior parte do País, nomeadamente na nossa região, também poderá ajudar bastante no turismo balnear”, faz notar.

“Portanto, ainda há outras dimensões que nunca abordamos, porque estamos mais preocupados com os efeitos negativos, que são muitos. E é por isso que temos de pensar em medidas de adaptação”, remata.

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