16 Maio 2022, Segunda-feira
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Carlos Cardoso: “O contrato do estacionamento hipoteca gerações que ainda nem nasceram”

Cabeça-de-lista da Iniciativa Liberal diz que Dores Meira não devia ter feito uma concessão por 40 anos em final de mandato

 

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Candidato independente pela Iniciativa Liberal (IL) tem 59 anos, é gestor, licenciado pelo Instituto Piaget e mestre em Empreendedorismo e Inovação pela Universidade de Évora. Professor na Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal e na Escola Secundária Sebastião da Gama, vive em Setúbal desde os sete anos. Foi jogador do Vitória e do Comércio e Indústria. Trabalhou mais de duas décadas em empresas de marcas automóveis na cidade.

Porque aceitou ser candidato pela Iniciativa Liberal?

Sempre olhei para Setúbal como a minha cidade e achei que seria o momento de fazer algo diferente por Setúbal. Durante estes anos todos em que houve governação tanto do PS como do PCP, achei que a minha cidade não está como eu gostaria e como deve ser encarada. Foi a opção certa para eu, pelo menos, dizer que tentei fazer alguma coisa por Setúbal. O nosso grupo está a trabalhar com novas ideias e acho que poderemos alavancar de novo a cidade. Setúbal, no meu tempo de escola primária, era considerada a terceira cidade do País, depois de Lisboa e Porto, batia-se com Coimbra. Era algo que nos orgulhava. Neste momento, Setúbal é a terceira cidade do Distrito, está a par do Montijo.

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É candidato como independente. Tem alguma reserva relativamente à IL?

Não é uma questão de reserva, mas de ser eu próprio e das pessoas me conhecerem. Nunca me filiei em partido nenhum, estou a lutar por Setúbal. A IL aceitou isso de bom grado.

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Quem são os responsáveis pela queda de Setúbal no plano nacional?

São as pessoas que fazem a governança da cidade. Após o 25 de Abril, tivemos só dois partidos a governar, PS e PCP. O PCP, nestes últimos 20 anos, não conseguiu projectar a cidade. Praticamente não tivemos nenhuma empresa que viesse para cá, temos um dos maiores índices de desemprego do Distrito, temos a nível social um agravamento brutal, e isto tudo tem a ver com a economia. Não criamos atractividade. Isto é um círculo e vai decaindo.

Quer transmitir a todos a vontade de “viver Setúbal”. Como tenciona fazer isso?

Quero fazer da minha cidade uma cidade sustentável. Criar uma melhoria de qualidade para a população, tanto os setubalenses como dos azeitonenses. Queremos mais participação da população, mais transparência, mais sustentabilidade, mais competitividade e mais eficácia. Estes pilares são o que nos irá fazer viver Setúbal e gostar de viver em Setúbal. Tínhamos 120 mil pessoas no concelho e agora, segundo dados da PORDATA, temos 115 mil. Está a sair a força activa de que precisamos e temos de que arranjar maneira de fixar as pessoas. Dou o exemplo da minha casa: a minha filha formou-se e a primeira coisa que fez foi sair de cá, porque não tem condições de vida em Setúbal. Foi para Lisboa.

Objectivo de fixar a população e atrair riqueza também os outros partidos têm. Como é que isso se faz?

Temos planos que irão fazer isso. Para já, não podemos fazer as nossas quintas, temos de falar com toda a gente, apresentar os nossos projectos. Temos de falar com investidores, com as empresas e os empresários. Temos muitas empresas aqui mas a maior parte das fábricas tem o equipamento mais ou menos obsoleto. Temos de perceber o que será necessário fazer, criar algo diferente. Temos de trabalhar com as instituições. Temos de ter mão-de-obra qualificada, que Setúbal não tem, porque existe um voltar de costas entre a Câmara e, por exemplo, o Politécnico.

Disse que há 50 anos que não há uma estratégia para o concelho. Já tem uma?

Tenho. Estamos a finalizar o nosso projecto e terei todo o gosto em lho dar em mão. Temos uma vasta equipa a trabalhar, a projectar o futuro de Setúbal. As coisas têm de ser projectadas a mais de dez anos.

Quais são as linhas gerais?

Temos planos para a cidade, de mobilidade, para a própria Câmara interagir com a população. Tudo isto está programado, visto à lupa para não falhar nada.

Mas quais são os eixos dessa estratégia de futuro? Passa pelo turismo? Pela indústria? Outro sector?

Setúbal é das poucas cidades, que eu conheço, na Europa, em que a parte industrial está para um lado e a parte turística para outro. Na maior parte das capitais da Europa, as coisas estão todas misturadas. Nós temos a vantagem de ter uma parte direita – o rio Sado, uma baía lindíssima, a serra e o mar -, para lazer e turismo, algo que é fabuloso. Setúbal não poderá chegar aos patamares que eu quero se não conseguirmos criar atractividade para a indústria. Do lado esquerdo, temos uma vasta área para a parte industrial. Por causa da pandemia criou-se um novo tipo de turista trabalhador, pessoas que não precisam de um sítio fixo para trabalhar. Temos a vantagem, todas estas condições naturais, temos de criar polos de atractividade em Setúbal. Isso também está no nosso plano, criar polos de atractividade, por exemplo para os turistas nómadas.

A IL fala muito num plano em que o foco seja o mérito e a simplicidade de processos. Numa câmara isso traduz-se em quê?

Numa relação simples de trabalho. Por exemplo, na transparência. Hoje não sei o que se passa na Câmara. Aqui perto, em Palmela, as reuniões de Câmara são transmitidas online. Em Setúbal não. Isso não é transparente. E Palmela é da mesma cor política, do PCP.

A taxa de IMI deve manter-se?

Já lhe respondo. Dores Meira disse, durante todos os mandatos, que não podia baixar o IMI porque o Contrato de Reequilíbrio Financeiro não autorizava. Mantivemos sempre a fasquia mais alta e agora, que vai passar para 0,43, Setúbal tem a décima taxa mais alta do País. Dores Meira, debaixo desta capa de reequilíbrio financeiro, não queria baixar. Por outro lado, André Martins diz que todas as pessoas que pagam IMI é porque têm uma propriedade. Agora, na campanha para Almada, que tem um IMI de 0,36, a primeira notícia, Dores Meira disse aos Almadenses “eu quero baixar o IMI”. Se acharmos que há capacidade para baixar, vamos baixar o IMI, não tenho dúvidas absolutamente nenhumas.

Defende que a água continue a ser privada ou acha que deve passar a ser pública?

Temos de equacionar. Se formos ver, no preço que os cidadãos setubalenses e azeitonenses pagam, o maior valor é das taxas que incidem sobre a água.

Nos outros concelhos também há essas taxas e a factura é mais barata.

Se reparar não é. No primeiro e segundo escalões, em Setúbal, paga-se mais água do que em Lisboa. No terceiro e quarto escalões – fiquei meio estupefacto – paga-se menos do que em Lisboa. Ou seja, se tiver um jardim que gaste bastante água, vou pagar menos do que pagaria em Lisboa. Por sua vez, as pessoas que têm a sua casa no primeiro ou segundo escalão, pagam muito mais do que em Lisboa, que tem um rendimento per capita muito superior a Setúbal. São estas dualidades de critérios, que a Câmara deixa passar para os cidadãos, que eu acho erradas. Nunca vi nada que me dissesse que estamos a ajudar os cidadãos.

Não tem ideia definida se gestão deverá ser pública ou privada?

Se conseguir uma gestão privada que vá beneficiar os cidadãos é bem-vinda mas se tiver que optar por uma solução municipal, terei que adoptá-la.

Sobre a política de estacionamento, qual é o seu entendimento?

Eu dividia este tema. Temos estacionamento tarifado na Avenida Luísa Todi, certo. E temos um contrato feito por Dores Meira que, como candidato à presidência da Câmara, acho que é um presente envenenado para quem entrar naquela porta após as eleições. Porque criou um contrato a 40 anos que vai ter que ser pago, no fundo hipotecou já duas gerações que ainda nem sequer nasceram. Dores Meira podia ter terminado o seu mandato e deixava para a próxima gestão decidir o que queria fazer. Voltando ao que está feito, com a bolsa de lugares de estacionamento que está projectada, entraram nos bairros todos. Só para lhe dar uma ideia de como isto foi feito à má-fé, se eu tiver um carro em casa, tenho que pagar dez euros anuais, se tiver dois carros, por exemplo, um da minha mulher, já tenho que pagar 50 euros – já dá 60 euros anuais – mas, se a minha filha voltar para Setúbal, e passarmos a ter três carros na minha zona habitacional, tenho de pagar 210 euros por ano. Defendemos bolsas de estacionamento para os residentes.

A actual solução de acesso às praias da Arrábida é boa?

Como estava não era solução. As pessoas estacionarem os carros onde queriam, não era solução. Como foi dito e bem, por causa de qualquer problema que houvesse de fogo, alguma emergência, com carros estacionados de um lado e de outro, não era solução. Mas também acho que, com a solução criada, aquela zona entre o final da praia da Figueirinha e o princípio do Creiro, fica sem acesso nenhum.

Qual é a sua solução?

Iremos direccionar os nossos cidadãos. Hoje, para uma família com dois filhos, uma viagem para a Figueirinha, para a Galapos ou Galapinhos – que é considerada uma das melhores praias da Europa – custa-lhe dez euros por dia.

Agora há o passe metropolitano que dá nos autocarros para as praias.

No ano passado ainda não deu. Quero ver se este ano dá. Dores Meira também dizia que ia fazer o mesmo para os barcos para Tróia – porque toda a população conhece Tróia e viveu Tróia e hoje é proibitivo passar o barco para o outro lado. Dores Meira falou que iria fazer com os barcos o mesmo que tentou fazer com os passes para os autocarros, mas não conseguiu.

A autoridade de transportes é a Área Metropolitana de Lisboa, que não abrange a ligação a Tróia. Grândola é Comunidade Intermunicipal do Alentejo Litoral.

Quanto aos transportes urbanos na cidade, os autocarros são antigos e levam quatro ou cinco pessoas. Porque não temos horários como tínhamos antigamente. De quinze em quinze minutos o autocarro passava, hoje não passa.

Para a nova concessão, o vencedor do concurso ganhou precisamente porque oferece autocarros mais novos e vai haver mais carreiras.

Mas, por exemplo, para Azeitão a carreira é de hora a hora. Sei isto porque tenho alunos, na Escola Sebastião da Gama, que moram em Azeitão, e dizem “professor perdi o autocarro, só daqui a uma hora…”. A sorte é que tenho aulas de duas horas, e eles, na segunda hora, conseguem apanhar alguma coisa do que foi dito na primeira. O mesmo acontece para Palmela ou nos comboios. O comboio para Lisboa é de meia em meia hora das 7 até às 9h30 e depois passa a ser de hora a hora. Lisboa, que é a capital, está a 20 minutos de carro. Não posso estar dependente de um comboio de hora a hora. Para ir para o Algarve, tenho de ir para a estação de Pinhal. As coisas estão mal feitas, isto é inconcebível. A Câmara Municipal e Dores Meira, que vai sair, nunca projectou a cidade para as pessoas deixarem o carro em casa e terem autocarro de dez em dez minutos. Assim as pessoas ficam desconfiadas, olham para o relógio, e, em vez de apanharem o autocarro, vão no seu carro.

Vê futuro para o Vitória? O município tem algum papel a desempenhar nessa solução?

Todos nós, os setubalenses, nos revemos no Vitória de Setúbal. Relativamente à Câmara, acho que temos de apontar para o Vitória de Setúbal, para o Comércio Indústria, que também é um clube centenário, ou o São Domingos, o Clube Naval, e ainda não falámos de todo o potencial que tem o rio. Mas agora vamos ao Vitória. A Câmara Municipal terá que apoiar todos os clubes desportivos, na formação.

A questão que se coloca relativamente ao Vitória é a sobrevivência. O município deve envolver-se na preservação do clube ou apenas na formação?

O Vitória como está tem uma estrutura profissional. A câmara terá o dever de apoiar a formação. A nível profissional, acho que até já existe um financiamento ou um possível comprador da SAD do Vitória. A Câmara só tem que congratular-se se for possível o Vitória voltar a ascender ao lugar de onde nunca devia ter saído.

Está disponível para ajudar a formar maioria no executivo municipal se não houver maioria absoluta?

Estou empenhado nesta candidatura a presidente da Câmara de Setúbal, não pelo Carlos Cardoso – por que, se fosse assim, já teria entrado na política há muitos anos -, mas para a minha cidade. Uma coligação para que a cidade cresça poderá ter o meu apoio. Saí da minha zona de conforto, quando podia ficar em casa a ver o resultado das eleições, em Outubro, e disse à minha mulher: “este ano possivelmente não vamos ter férias, mas vamos fazer alguma coisa pela nossa cidade”.

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