16 Abril 2021, Sexta-feira
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São Domingos, um clube centenário no coração da cidade de Setúbal

O São Domingos Futebol Clube celebra 100 anos de história, repleta de glória, sucessos, resistência, desaparecimentos e ressurgimentos. Após 100 anos, continua a ser o orgulho de um bairro e da sua gente. Percorremos a epopeia de um clube pequeno, referência do desporto popular, no ano em que lançará o livro do centenário, assinalando um século de atividade.

 

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A fundação

Da origem do São Domingos Foot-Ball Club (como era denominado no início, à “inglesa”) sabe-se muito pouco. Consensual é a sua data de fundação, 28 de março de 1921, no bairro homónimo. Os sócios foram passando estas histórias, com nomes e protagonistas, de geração em geração, mas quase sem registos que as comprovem. Muitos destes documentos estariam no arquivo do clube, que foi apreendido pela PIDE nos anos 40, aquando do envolvimento de dirigentes do São Domingos na oposição ao regime salazarista, como foi o caso de José Bernardo.

A mais antiga foto de uma equipa do São Domingos Foot-Ball Club, presumivelmente datada entre 1924 e 1926.

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O conhecido anarquista setubalense, que é preso pela polícia política no Tarrafal, é um dos fundadores citados pelos associados mais antigos. O jornal Os Sports, a 6 de março de 1933, entrevistara o jovem presidente do clube à época, José Carlos. Sendo ele próprio dirigente desde a primeira hora, descreve as origens e alguns fundadores: Hermínio Guilherme, Afonso Nunes, Salvador dos Santos, José Guilherme, que até aos anos 40 acumulavam funções de jogador e dirigente, quase indistintos na infância do futebol.

Após os primeiros torneios populares, surge a ideia para um primeiro organismo federado de futebol na cidade: a Liga de Football de Setúbal, criada em 1925, sendo o São Domingos um dos fundadores. Participou nestes primeiros campeonatos até à criação da Associação de Futebol de Setúbal em 1927, agora independente de Lisboa (tal como o distrito), tendo o clube a honra de ser também um dos treze clubes fundadores.

Da glória nos anos 30 ao desaparecimento nos anos 40

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No futebol, os resultados não tardaram a chegar: foi campeão da Divisão Regional – Núcleo de Setúbal em 1930/1931 e 1931/1932. Entre 1935 e 1942, manteve-se entre a elite da Divisão de Honra do Campeonato de Setúbal, com prestações meritórias que deram a possibilidade de aceder aos campeonatos nacionais, um dos maiores feitos desta pequena coletividade. Apesar de os resultados não serem particularmente entusiasmantes, deu grande visibilidade ao clube, que nos três anos de participação na 2ª Liga Nacional (1935/1936, 1936/1937 e 1939/1940, este último já na nova 2ª Divisão) jogou contra clubes de renome: o Casa Pia, o Chelas (jogo que o São Domingos ganhou por 5-2!), o Juventude de Évora, o União Lisboa e o Operário Futebol Clube.

Equipamento do São Domingos numa caderneta de cromos no
início da década de 1930.

Para além do futebol, o São Domingos desenvolveu o seu ecletismo no desporto popular. O futebol era – como na maioria dos clubes – o motor, mas também tinha secções de atletismo, basquetebol, ténis de mesa e sobretudo ciclismo. Tornou-se protagonista da velocipedia do distrito, como organizador de corridas e como participante, com ciclistas que muito dignificaram o manto verde e preto.

Nos anos 40, mesmo continuando a ser um dos clubes mais populares, o São Domingos desaparece. A documentação não esclarece este desaparecimento, de um dia para o outro, do mapa associativo, mas vários fatores influíram: dificuldades económicas próprias das pequenas coletividades; a criação da Direção Geral de Educação Física, Desportos e Saúde Escolar em 1942, que burocratizou a prática desportiva, aumentando as despesas para os pequenos clubes; e a oposição ao Estado Novo por parte de vários dirigentes e atletas. O facto é que, no final da década, o clube tinha fechado portas.

Juventude inquieta: o ressurgimento dos anos 70 e as novas conquistas

Passaram mais de duas décadas e um grupo de jovens do bairro, ouvindo as entusiásticas narrativas dos antigos sócios, decidiu que o São Domingos devia ressurgir! Os primeiros tempos foram no mínimo frustrantes: nenhum documento, nenhuma taça a relembrar o glorioso passado. Os troféus, segundo alguns, tinham sido vendidos ao ferro-velho e a documentação apreendida nos anos 40 pela PIDE para silenciar e eliminar a história de um clube de opositores ao regime. Mas nada podia parar a juventude do São Domingos. Os anos 70 foram tempos de grande mobilização e inquietação: rifas, bailes, festas, tudo podia ajudar. Os Santos Populares tornaram-se uma quermesse pró-clube. A partir de 1976, com os primeiros órgãos sociais eleitos depois da “refundação” e uma sede condigna (na Rua Gil Vicente), o São Domingos inscreveu uma equipa juvenil no campeonato da Associação de Futebol de Setúbal. A coletividade voltava ao desporto popular de Setúbal de queixo erguido.

Os anos 80 e 90 abriram a porta das conquistas: o ciclismo, o atletismo e o futebol voltaram a rechear as vitrines do clube de troféus. No futebol foram dezenas os torneios ganhos, em todos os escalões. Tinha até uma equipa feminina, estando entre os pioneiros na cidade! Apesar destes sucessos, foi uma nova modalidade a mais titulada no clube: a pesca desportiva. Nesta, o São Domingos tornou-se uma potência na cidade de Setúbal, chegando mesmo a ser Campeão Nacional do INATEL em 2000. Ainda hoje, o clube é presença obrigatória nas competições.

O São Domingos no século XXI

A entrada nos anos 2000 foi muito complicada para o São Domingos: a sombra do desaparecimento voltava a pairar no horizonte. A quebra de atividades, receitas, sócios e novos dirigentes atormentou a coletividade até cerca de 2012, altura em que o clube correu o risco de desaparecer completamente e ver as chaves da sede entregues à Câmara Municipal de Setúbal. Eis que surge uma nova geração de dirigentes que criou as condições para enfrentar os desafios modernos do associativismo, assumindo Miguel Aleixo a direção, até aos nossos dias. Angariaram-se novos sócios (e recuperaram-se antigos) e, de 85 associados em 2012, passaram a ser mais de 600 em 2021. O clube voltou à vida desportiva e cultural de Setúbal, apostou-se no futebol de formação e no futebol de praia e os resultados estão a vista: mais de cem crianças e jovens no futebol de formação (e título dos infantis sub-13 em 2016/2017), mais modalidades, uma nova sede no Jardim do Palhais e, nos últimos dois anos, os sucessos do futebol de praia, com a equipa campeã da Zona Sul do Campeonato Nacional e já com duas participações na EuroWinners Cup, a “Champions League” desta modalidade. É de realçar também o papel social do clube, que voltou a estar à prova na crise económica e na recente pandemia de Covid, com o compromisso solidário (em colaboração com o Centro Comunitário de São Sebastião) no apoio a famílias em dificuldade no bairro.

O São Domingos campeão de futebol de praia, Zona Sul do
Campeonato Nacional de 2018/2019.

De 1921 a 2021, é um século a representar São Domingos, resistindo ao tempo, às dores de crescimento do movimento associativo e ao próprio regime ditatorial. É um século a palpitar como coração deste bairro, juntando diferentes gerações sob a mesma bandeira. Que venham mais cem anos!

Viveiro de craques

O São Domingos formou alguns jogadores que vingaram em patamares superiores do futebol nacional e internacional. Das fileiras do clube, nos anos 30, saíram jogadores com carreiras brilhantes como Manuel Baptista e Cardoso Pereira, estrelas no Barreirense e no Vitória Futebol Clube. No entanto, o mais conhecido jogador que passou pelo São Domingos é certamente José Semedo: ele próprio recorda com carinho que é com aquela camisola verde e preta que começou a jogar futebol a sério, nos torneios populares, antes da brilhante carreira no Sporting, no futebol inglês (Charlton e Sheffield Wednesday) e no Vitória, onde é hoje capitão. Também o guarda-redes do Casa Pia, Ricardo Batista, jogou no São Domingos enquanto criança. A aposta dos últimos anos no futebol de formação transformou o clube num viveiro de jogadores e já são alguns a dar nas vistas em grandes equipas, como é o caso de Tiago Neto (jovem guarda-redes do Vitória), de Carolina Santana (Benfica) e Guadalupe Bravo (Sporting).

José Semedo com a sua antiga camisola no São Domingos.
Fonte: Arquivo do São Domingos Futebol Clube.

Por Eupremio Scarpa e João Santana da Silva

 

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