4 Dezembro 2021, Sábado
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Casos covid no Hospital de Setúbal diminuíram mas estado de catástrofe ainda não foi levantado

Os casos covid baixaram com o confinamento apertado, mas José Poças, director do Serviço de Infecciologia do Centro Hospitalar de Setúbal, não descansa a exigir respostas da tutela

 

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O director do Serviço de Infecciologia do Centro Hospitalar de Setúbal é critico, pela negativa, da forma com o Ministério da Saúde está a gerir a pressão que a pandemia incide sobre os hospitais, nomeadamente no Hospital de São Bernardo. José Poças diz que a unidade de Setúbal tem de se reinventar todos os dias numa luta contra a falta de meios e profissionais. Não aceita o silêncio da tutela e da Comissão Parlamentar da Saúde a uma missiva enviada, no ano passado, assinada por um grupo de directores hospitalares, sobre as assimetrias transversais que existem na gestão do sector.

Não tem dúvidas de que a taxa de esforço de todo o Hospital de São Bernardo é incomensuravelmente superior à da grande maioria dos hospitais do País e da região.

Sobre o estado de catástrofe decretado pela administração do hospital em Janeiro, diz que ainda não houve ordem em contrário. E embora o número de casos de infecção covid que chegam à unidade sejam preocupantes, existe um ligeiro alívio, mas a preocupação está de pé.

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Afirmou que a situação no Hospital de São Bernardo em Janeiro, devido a casos covid-19, era avassaladora. Actualmente, com o confinamento mais apertado, a conjuntura mantém-se?

É preciso contextualizar e relativizar as afirmações. Reafirmo tudo o que disse. Ao dia de hoje, [11 de Fevereiro] a situação relativa a casos covid mantém-se muito grave, embora já tenha sido muito mais grave; mas não deixa de ser grave.

Quando um hospital tem dois terços das suas camas afectas a uma actividade – 200 camas -, sendo que se não houvesse pandemia não tinha nenhuma, isto implica uma taxa de esforço, segundo o que apura a ARSLVT [Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo] pela metodologia que entende, mas traduz, de facto, a capacidade de conseguir corresponder às solicitações sem que o número de camas tenha crescido. É desviar o internamento de uma área para outra sempre com o mesmo número de profissionais. E muito poucos foram contratados nesta pandemia, tanto para Setúbal como para todo o lado.

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Portugal está muito carenciado de meios humanos, os que existem em muitos sectores estão exaustos. Trabalham muito mais horas, em condições de stress mais pronunciadas e sem terem o descanso que deveriam, aceitaram-no, mas é um acumular de cansaço físico e psicológico avassalador; não há outra palavra.

Quando referiu que a taxa de esforço da unidade de infecciologia de Setúbal era de 76%, qual o significado em relação a outros hospitais do distrito?

Não disse isso! De facto, isso tem sido referido, mas nunca o disse. Em entrevista à SIC Notícias, rádios e imprensa as minhas declarações foram que o meu Serviço [Infecciologia] está reduzido a um número muito pequeno de camas, que nunca são as fixas, para eu tratar os doentes não covid.

Disse que a grande maioria das pessoas que trabalham no meu Serviço de Infecciologia, especialistas, internos e estagiários estão dedicados ao covid, mas não são só os meus, também os dos serviços de Medicina Interna, Pneumologia, Cuidados Intensivos e de quase todas as especialidades do hospital. O esforço que estamos a fazer nunca poderia pesar apenas sobre uma especialidade ou um serviço.

A metodologia usada pela ARSLVT não é, infelizmente, transversal a todos os hospitais, mas não tenho qualquer dúvida que a taxa de esforço de todo o Hospital de São Bernardo é incomensuravelmente superior à da grande maioria dos hospitais do País e da região. É seguramente das mais elevadas, ou a mais elevada, porque a maioria dos outros hospitais têm muito mais camas, logo têm mais profissionais.

Um documento assinado pelas administrações de sete hospitais, numa iniciativa de grande coragem, pôs a nú essa assimetria transversal a quase todos os hospitais da periferia de Lisboa. Uns ficaram provisoriamente aliviados através de uma acertada transferência de doentes, mas é necessária uma política de distribuição do esforço envolvendo todos os hospitais e não apenas um ou dois.

Quais as linhas de força reivindicadas nesse documento?

Uma das reivindicações foi chamar a atenção sobre a necessidade de existir uma centralização da gestão de camas a funcionar no País, ou na região; o que acabou por ser feito, mas muito tardiamente para os Cuidados Intensivos, só que a maioria dos doentes que precisam de estar internados não estão nesse serviço. Está-se a pegar apenas numa ponta minoritária do problema; o problema é que os hospitais, nomeadamente o de Setúbal, não tiveram grande ajuda. Não houve uma política centralizada de gestão das camas de internamento hospitalar, isso reflecte-se na taxa de esforço absolutamente díspar entre os diferentes hospitais.

A 2 de Fevereiro enviou uma carta aberta à ministra da Saúde, Marta Temido, onde apresentou o retrato de “uma realidade que pesa muitíssimo sobre um hospital já de si carenciado”. Já obteve resposta? 

A ministra ainda não respondeu. Mas o grave não é a falta de resposta à carta aberta agora enviada, o mais grave é a falta de resposta a um documento enviado por um grupo de directores hospitalares, em Julho [2020], também à Comissão Parlamentar de Saúde onde é feito um pedido formal de audiência. Era bom a Comunicação Social perguntar à senhora ministra e à Comissão Parlamentar de Saúde a razão de não responderem.

Na carta aberta enviada à ministra da Saúde [Marta Temido], que redigi e foi assinada internamente por muitas pessoas, é feita uma exposição sobre como no Hospital de Setúbal tivemos de nos reinventar para aumentar o número de camas em Cuidados Intensivos, e também sobre o desfasamento equitativo das respostas que uma ou outra vez houveram para atender a este ou aquele hospital.

Não me canso de repetir que, para o Hospital de Setúbal, existe um plano de obras eternamente adiado pelo Ministério da Saúde. Há muito tempo que estamos perante a circunstância de ter de fazer face à nossa actividade corrente com os meios que temos, isto mesmo antes da pandemia.

Ainda se pode falar em estado de catástrofe no Hospital de Setúbal, decretado pela administração em Janeiro?

A situação de catástrofe tem várias nuances. Foi decretada pelo conselho de administração que ainda não decretou que não está.

Apesar da situação no hospital estar menos mal do que estava, continua a ser de grande debilidade. É uma situação dupla, temos de fazer face à demanda de doentes covid, que ainda é grande, e também fazer face aos doentes não covid que, quanto mais tarde tiverem respostas no internamento, na componente cirurgia e consultas, maiores serão as repercussões muito nefastas no prognóstico das diversas doenças.

Nos próximos meses vamos continuar a atravessar uma fase de crescimento da pandemia?

Não! Mas depende do que for decidido politicamente, e também da velocidade da vacinação contra a covid e da eficácia da vacina. Depende da disseminação de novas estirpes e da sua transmissibilidade e capacidade das vacinas sobre as mesmas, depende também do comportamento individual dos cidadãos, depende do ritmo com que o desconfinamento for feito; existem imensas variáveis. Diria que, desejavelmente e expectavelmente, a situação já passou a pior fase, pelo menos desta vaga, e espero que não haja mais nenhuma, mas não tenho essa certeza.

“A vacinação é seguramente importante”

São várias as opiniões sobre a imunidade de grupo à covid mas, como diz José Poças, ainda estão longe de ser confirmadas. Quanto à necessidade desta vacinação entrar no nosso ciclo de vida, o clínico diz que depende se a mutagenicidade do vírus é como o da gripe

A imunidade de grupo realmente existe?

A imunidade de grupo existe para todas as doenças infecciosas, é um conceito válido em que pessoas não imunes estão protegidas porque a grande maioria dos seus circundantes o estão. Nesta doença tudo oque se possa dizer são apenas opiniões mais, ou menos, bem fundamentadas, mas ainda estão longe de poderem estar confirmadas.

A vacinação é seguramente importante. Agora se vai ser uma vacina com os resultados das que existem para outras doenças, ou se será uma vacina para um vírus com elevada mutagenicidade como é o da gripe, provavelmente é algo que ficará próximo da vacinação da gripe. Na minha perspectiva, as actuais vacinas contra a covid poderão não nos proteger para o resto da vida sem necessitarem de ser reforçada; redesenhadas a cada passo.

“O hospital e o meu serviço estão a responder normalmente a casos de outras infecções”

A resposta aos casos provocados pelo coronavírus SARS-CoV-2 têm ‘sufocado’ o Hospital de São Bernardo, mas os doentes com outras infecções continuam a ser acompanhados. A preocupação do director do Serviço de Infecciologia é existirem doentes que deixam de ir regularmente ao hospital com receio de serem contaminados com a covid         

 Com a ocupação da doença provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2, em que situação está o controlo de doentes com doenças infecciosas como HIV/SIDA e hepatites virais acompanhadas no Centro Hospitalar de Setúbal?

Embora com uma necessária adaptação e correspondendo a mais um desafio, o hospital e o meu serviço (Infecciologia) estão a responder a estes casos quase como se fosse uma situação normal. E digo quase porque neste momento, por regra, as consultas são não presenciais. Mas se os doentes o solicitarem ou sempre que a equipa médica o requeira, é efectuada a observação presencial.

Inclusivamente, as novas consultas são presenciais. Houve um rearranjo na disposição funcional, e não houve uma suspensão do que temos de fazer.

Desde a primeira vaga [Covid-19] temos o cuidado de não deixar doentes que não podem ser tratados fora do nosso serviço hospitalar. Noutro lado não têm acesso à medicação e ser seguidos, sobre isso existe um condicionamento legal, embora não seja assumido explicitamente.

Isto faz uma diferença substancial relativamente a outras patologias. São doenças transmissíveis e temos cumprido os desígnios de não os abandonar à sua sorte. O facto é que existem doentes que, devido a pandemia, deixaram de vir ao hospital com a regularidade que vinham.

 

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