4 Dezembro 2021, Sábado
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“Depois desta pandemia é preciso voltar à relação próxima entre médico e paciente”

Como médico, esteve em muito ligado à Medicina Familiar. Lembra uma Setúbal que era pobre e fala dos actuais riscos sociais que a pandemia pode implicar a nível mundial, mas também de uma oportunidade para construir uma sociedade melhor

 

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Mário Moura, 93 anos feitos a 13 de Dezembro, é um nome incontornável como médico, escritor e pensador das relações sociais e políticas. Em entrevista, lembra a sua chegada a Setúbal em 1953, as suas vivências como clínico e o envolvimento com uma sociedade então pobre e de sobrevivência amarga.

Reconhecido com a Grande Oficial da Ordem do Mérito da República, concedida pelo antigo Presidente da República Jorge Sampaio, condecorado com a Medalha de Ouro do Ministério da Saúde, com a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal e distinguido com o Prémio Miller Guerra de Carreira Médica, entre outras homenagens, continua a afirmar-se como uma mente desperta e preocupada.

Sobre as restrições sociais que a pandemia da Covid-19 a todos obriga, receia que tenham uma influência negativa a nível económico e nas futuras relações sociais, mas também afirma que, por enquanto, esse condicionamento é incontornável. Por isso, defende que o depois destes dias de medo obriga a novas ideias. Fala mesmo de uma oportunidade para o nascimento de uma nova sociedade, menos virada para o lucro e mais solidária.

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Nascido em Coimbra e tendo-se formado em medicina na Faculdade da Universidade de Coimbra, o que o fez vir para Setúbal?

Como era bom aluno no liceu tive uma bolsa para estudar medicina na Faculdade de Coimbra. Depois de me formar, em Outubro de1952, fiquei desempregado; por uma questão de dias não pude concorrer ao internato dos hospitais da universidade. Na época, os grandes centros hospitalares eram em Coimbra e Lisboa.

Vi então um anúncio num jornal onde o Hospital do Espírito Santo em Setúbal precisava de dois médicos para inaugurar o serviço de urgência, e eu, com o meu primo Rui Moura, que se tinha formado também em medicina no mesmo dia – tal como a sua irmã Maria Amélia Moura – decidimos enviar os nossos dados para a Misericórdia de Setúbal, e fomos os dois aceites. Mais tarde também a minha prima veio para Setúbal. Curioso como uma família da classe média-baixa de Coimbra forma três médicos e no mesmo dia; todos viemos para Setúbal.

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 O que sentiu quando chegou a esta cidade?

Cheguei a 3 de Fevereiro de 1953. Quando sai na estação de Setúbal com dois malões pesados cheios de livros e roupa, olhei à minha volta e não havia casas, eram só laranjais, pensei que me tinha enganado. Perguntei a um senhor de boné se estava em Setúbal, disse-me que sim, mas deveria ter saído mais à frente, no apeadeiro. Tive de ir, eu e o Rui, com as malas pesadíssimas pelo meio dos laranjais até à Misericórdia de Setúbal.

Na altura Setúbal era paupérrima. As mulheres, e alguns homens, trabalhavam nas três fábricas conserveiras que aqui ainda existiam – muitas tinham fechado depois da II Grande Guerra Mundial –, muitos outros homens viviam da agricultura e da pesca. De casas, só praticamente no centro da cidade, de resto muitas pessoas moravam em barracas e acorriam para trabalhar ao apito das fábricas.

Tanto eu como o meu primo viemos para cá a pensar na possibilidade de irmos para Lisboa, mas, por razões várias, acabámos por ficar cá. Eu, em muito, porque casei com uma das filhas de um dos proprietários de duas das fábricas conserveiras de Setúbal, António Silva, foi em 1955.

 Profissionalmente, o que mais o marcou na cidade?   

Precisamente a pobreza que aqui existia. Quando morreu o médico Álvaro Gomes que trabalhava na Associação de Beneficência Familiar, uma associação que só reunia associados dos bairros pobres, – a qual acabou há uns anos –, fiquei nas suas funções a cuidar das classes mais pobres, isto para além de continuar a exercer clínica no Hospital do Espírito Santo. Isto agarrou-me ainda mais a Setúbal.

Em 2013, aos 85 anos, recebe o Prémio Miller Guerra de Carreira Médica pela sua carreira na medicina familiar.

É um prémio criado pela Ordem dos Médicos, e foi-me atribuído na sua primeira edição. Não me candidatei, foi por proposta de doentes que acompanhava, e apreciação do meu currículo. Foi um reconhecimento como médico, pelos livros que escrevi e pelas muitas outras actividades em que me meti. Depois de ter recebido o prémio considerei colocar um ponto final na minha carreira médica, mas mantive-me mais uns anos, até que tive mesmo de parar para cuidar da minha mulher, que durante quatro anos esteve gravemente doente, e veio a falecer.

Anos antes, em 1995, recebeu a Medalha de Honra da Cidade de Setúbal. Que significado atribui a essa distinção?

Gostamos sempre de ser reconhecidos. É uma Medalha de Paz e Liberdade, não só pela minha função como médico, mas essencialmente pela minha actividade cívica e na área cultural.

Foi presidente, durante 12 anos, da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral, a qual passou a designar-se Medicina Familiar. Como vê, actualmente, a relação médico paciente?

Agora sou membro honorário. Uma das coisas terríveis da situação pandémica que estamos a viver é a Medicina Familiar combinada com a Clínica Geral tender a desaparecer. É preciso considerar as pessoas no seu ambiente social e familiar, isso não é possível com consultas por telefone, como acontece agora por causa da Covid-19. O fundamental na medicina familiar é a relação pessoal entre médico e paciente.

Antes da pandemia, a Ordem dos Médicos em Portugal e organismo similar em Espanha, estavam a considerar propor a Medicina Familiar como matrimónio imaterial da humanidade, agora esse processo está parado.

O médico de família necessita sempre de cultivar uma relação afectiva com o seu doente. Com a Covid-19 essa relação acabou, os médicos não têm tempo de conversar com os doentes e conhecê-los no seu contexto social; este conhecimento é importantíssimo para os ajudar e tratar.

Quando diz que a pandemia veio alterar o relacionamento entre médico e paciente considera que chegámos a um termo, ou estamos apenas perante um hiato de tempo?

A grande maioria dos doentes não Covid estão a ser seguidos por telefone – eu próprio estou fechado em casa há cerca de um ano -, e embora os médicos dos centros de saúde não esqueçam os seus pacientes, há doenças que estão a ser menos acompanhadas.

Depois desta pandemia é preciso fazer um esforço para se voltar à relação próxima entre médico e paciente, acredito que isso voltará a acontecer, mas não sei quando será. Só teremos hipótese de travar esta pandemia quando 50% da população estiver imunizada com a vacina. Portanto, só poderá existir algum recuo destes problemas em 2022.

Num dos seus textos de opinião publicado no jornal O SETUBALENSE, refere que as restrições impostas pela pandemia podem, futuramente, influenciar negativamente a formação social das crianças. Como chega a esta conclusão?

As pessoas vão construindo-se si próprias. Nos primeiros três meses de vida estão dependentes da relação com a mãe, depois é através do ambiente familiar que as crianças aprendem a relacionar-se. Na escola, para além das matérias lectivas, são ensinadas a sociabilizarem-se, ora a prática desta relação está agora a ser colocado em causa. Para além do uso de máscara, os alunos têm de guardar distância uns dos outros, portanto, o comportamento das crianças passa por serem obrigadas a evitarem os contactos com os outros; o normal convívio social está presentemente condenado. Mesmo com a vacina, os epidemiologistas dizem-nos que temos de continuar a usar máscara e manter distanciamento social, e não sabemos por quanto tempo irá durar.

Com isto, a geração que está agora nos primeiros anos de escola não recebe impulso para se sociabilizar, isto vai modificar o seu comportamento. Por agora não há outra solução, tem de ser assim para a protecção de todos, mas se isto durar muito tempo vai ser complicado.

Contudo, o depois da pandemia, apesar de ser esperada uma crise económica e social, pode ser uma oportunidade para modificar a estrutura tanto social como política – menos orientada pela necessidade do lucro -, e construir uma sociedade nova que corte com o abismo entre as classes ricas e as pobres, e entre países ricos e pobres. Isto vai levar o seu tempo, haverá muitos opositores, mas os jovens, cansados da falta de oportunidades que lhes são apresentadas, poderão ajudar a um novo pensamento. Sou médico e não um político, apenas analiso.

Tem vários livros publicados. O que reflecte na sua escrita?

O meu primeiro livro foi uma colectânea de artigos publicados em jornais, depois escrevi livros sobre situações médicas, um outro de contos passados entre médico e pacientes como vistas ao domicílio, escrevi ainda uma autobiografia, isto entre outros.

Gosto de escrever, e faço-o também em colaboração com jornais como O SETUBALENSE. Inclusivamente, antes do 25 de Abril de 1974, e por muitos anos, fui director de um jornal ligado à igreja, o Notícias de Setúbal, que reflectia uma linha editorial que não era aceite por alguns.

Para O SETUBALENSE escrevo há mais de 40 anos, praticamente foi quando me converti ao socialmente, foi um processo ao longo da vida, uma tentativa de encontrar respostas para problemas e questões iniciais, como se há ou não um criador. São questões que vamos colocando até aceitarmos que existe. Não faz sentido nascermos e depois sermos apenas reduzidos a um fogacho de vapor de água e uma caixinha com cinzas; não faz sentido.

Temos de responder a essas interrogações filosóficas e exotéricas que se nos colocam. Quando me converti comecei a escrever e a enviar artigos para os jornais, entre eles O SETUBALENSE.

 O que significa quando diz ter-se convertido ao social?

Quando se é cristão isso é um verdadeiro interesse. Jesus Cristo veio à Terra para nos dizer como devemos viver, como tratar dos pobres e dos doentes; o que a sociedade ainda não aprendeu. Quando os outros nos ajudam na formação pessoal, também nos obrigam a ter interesse pelo relacionamento social, sendo ou não cristão, é uma questão de cidadania.

As universidades seniores são de “grande importância”

Colaborador, como professor, na UNISETI – Universidade Sénior de Setúbal desde o início desta instituição, em 2003, Mário Moura afirma este ensino como de “grande importância” para o envelhecimento activo, “mais ainda agora em que, por causa da pandemia, temos os velhos isolados, sem convivência”.

Mas não só agora nestes tempos, o que estas universidades já proporcionavam antes da pandemia “tem de continuar”. Para além de permitirem uma ocupação para quem tem mais idade, abrem caminhos para “aquisição de mais conhecimentos em diversas áreas e promovem a sociabilização”, por isso reforça: “é importante que assim continuem”.

Depois de um interregno de alguns anos, por necessidade de cuidar da sua mulher, o que o obrigou a ficar em casa, Mário Moura regressou ao ensino na UNISETI mas agora, por causa da pandemia, tem de o fazer a partir de casa, através de tecnologia online. “A minha idade não me permite arriscar saídas”, comenta.

Mesmo assim não pára e, já este ano lectivo, também com a universidade obrigada a gerir aulas não presenciais, o médico lecciona a disciplina de Gerontologia, estudo de tudo o que se relaciona com o envelhecimento, tanto do ponto de vista médico como social, “mas falo de muitas outras coisas, histórias e casos clínicos”, e afirma estar “disponível para continuar”.

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