Líderes de Sesimbra, Almada e Seixal faziam parte do órgão distrital e apresentaram demissão. Nuno Gabriel refuta acusações
Vários militantes do partido Chega dizem que a distrital de Setúbal do partido de André Ventura está a passar por uma “crise interna” e apontam responsabilidades ao atual presidente da estrutura, Nuno Gabriel. Nos últimos dias três coordenadores concelhios, que fazem parte da comissão distrital, abandonaram os cargos.
Numa informação assinada por João Pereira, esclarece-se que neste momento a estrutura distrital está a funcionar com “mera gestão corrente” depois de, nas últimas semanas, seis membros da comissão política distrital terem pedido a demissão. Contactado por O SETUBALENSE o antigo coordenador do Chega Almada, João Pereira, diz que não é o autor desta carta.
Mas, aliás, João Pereira é um dos nomes mencionados quando se fala em demissões tanto dos órgãos concelhios como da distrital do partido. Nuno Capucha, do Seixal, e Diamantino Laja, de Sesimbra, são outros dos visados e, confirmou O SETUBALENSE, os três demitiram-se da Comissão Política Distrital. Diamantino Laja e João Pereira também abandonaram a coordenação concelhia e Nuno Capucha diz ter sido informado em novembro de 2025 que iria ser substituído nesta função.
Sobre esta matéria Nuno Valente, que além de vereador na Câmara do Montijo é presidente da mesa distrital, não faz comentários, mas explica que os pedidos de demissão do órgão são remetidos à direção nacional do partido.
Diamantino Laja admite que a saída da coordenação foi ditada por “divergências com o presidente da distrital”. As desavenças, garante, começaram durante a escolha dos candidatos autárquicos quando, a duas semanas da entrega das listas, o também deputado à Assembleia da República decidiu mudar os nomes dos candidatos às juntas de freguesia do concelho de Sesimbra.
Numa das missivas é explicado que o mal-estar com o órgão distrital já se fazia sentir, mas intensificou-se depois das autárquicas de outubro do ano passado. “Em particular, gerou perplexidade o facto de, na Câmara de Sesimbra — onde o próprio Nuno Gabriel exerce funções como vereador — ter sido viabilizado, através da abstenção, um orçamento apresentado pela CDU, para muitos uma traição aos valores do partido e aos eleitores que depositaram o voto numa mudança ideológica”. Os sentidos de voto em várias matérias autárquicas, nomeadamente a viabilização dos orçamentos municipais para o presente ano, são outras das questões dos militantes.
Queixam-se de “falta de apoio às estruturas autárquicas” e admitem que a situação é agravada por “orientações consideradas inconsistentes ou contraditórias para a atuação política local”. Pedem “uma clarificação política e organizativa nos próximos meses”.
Os dedos estão apontados a Nuno Gabriel, que é também deputado na Assembleia da República. “A atividade parlamentar exige dedicação intensa, presença constante em Lisboa e foco na agenda nacional. Quando essa responsabilidade se soma à liderança de uma distrital politicamente complexa como Setúbal, o resultado previsível é o afastamento da estrutura local. O distrito fica sem liderança efetiva e os militantes ficam sem orientação”, lê-se numa outra informação, esta assinada por Helena Carvalho, que diz ser militante dentro do distrito.
“Nunca permitirei que a lealdade deste distrito ao André Ventura seja posta em causa”
Contactado por O SETUBALENSE o presidente da Comissão Política Distrital do Chega entende que as acusações que lhe são feitas não são inocentes. “Estamos em ano de eleições para a Comissão Política Distrital então é a altura em que as concelhias começam a perder o fio à meada e a esquecer-se que o bem maior é o partido e atacam o presidente distrital, que sou eu, que por acaso venci nas últimas legislativas no distrito de Setúbal”
Não se mostrando melindrando é perentório e diz que está a ser feito um “jogo sujo e pouco digno” que não beneficia o partido. “Estou mais preocupado com aquilo que é o interesse do partido e não o interesse individual de cada um”.
Enquanto entende que o Chega tem de ser um partido diferente dos restantes, deixa uma garantia. “Nunca permitirei duas coisas. Que a lealdade deste distrito ao André Ventura seja posta em causa, e também eu não permitirei que nenhum militante ganhe dinheiro neste distrito à conta do partido”.
Confrontado com as recentes demissões da estrutura distrital admite que esta “está em gestão” desde a saída de membros há cerca de três anos e admite ter conhecimento da saída dos líderes de Sesimbra e Almada, “mas não muda nada”.
“Aqueles que não tiverem interesses pessoais ficarão, aqueles que tiverem interesses pessoais e patrimoniais vão abandonar. Comigo ninguém mexe em dinheiro do partido e comigo não altera a linha de diálogo ao partido”, reitera.