18 Maio 2022, Quarta-feira
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Exposição sobre três artistas judeus perseguidos reúne em Azeitão mais de 1 200 peças

Erich Kahn, Eugen Hersch e Fritz Lowen foram os artistas escolhidos para evocar um tempo de perseguição de opositores do regime

 

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Mais de 1 200 obras de três artistas judeus perseguidos pelo regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial, Erich Kahn, Eugen Hersch e Fritz Lowen, compõem a exposição que é inaugurada hoje no Bacalhôa Adega Museu em Azeitão, Setúbal.

A exposição, intitulada “Geração Esquecida”, divulga a obra destes artistas sobreviventes dos “tempos sombrios” da Alemanha Nazi, que marcaram o século XX, mas que “parecem ter cada vez mais actualidade”, segundo o curador da mostra, Álvaro Silva.

“Optámos por este tema de artistas de uma geração esquecida porque, volvidos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, e da celeuma que foi o nazismo e os tempos conturbados da Europa, agora, no século XXI, assistimos a movimentos de deslocados, a exilados, a campos de contenção, parecendo que a História contemporânea não aprendeu com um episódio ainda tão presente na nossa memória”, comentou o curador, contactado pela agência Lusa.

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Erich Kahn (1904-1980), Eugen Hersch (1887-1967) e Fritz Lowen (1893-1970) foram os artistas escolhidos para evocar um tempo de perseguição de opositores do regime – no caso, por serem artistas e judeus -, e as suas obras em pintura, gravura e desenho surgem como testemunho artístico de um “martírio pessoal e colectivo”.

A política segregacionista de Adolf Hitler atingiu todos os sectores da cultura, e afastou violentamente os artistas modernistas, tendo o chanceler alemão afirmado, num comício do partido, em 1934, que “todas as tolices artísticas e culturais dos cubistas, futuristas, dadaístas e afins não são nem seguras em termos raciais, nem toleráveis em termos nacionais”.

Nessa linha, três anos mais tarde promoveu a exposição “Entartete Kunst” (“Arte Degenerada”), com o objectivo de ridicularizar os modernistas, que foram apelidados de criadores de “monstruosidades e insanidades”, e “da mais absoluta degeneração”.

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Algumas das obras integradas nesta exposição nazi – para onde o regime de Hitler mobilizou o transporte de centenas de alemães com o intuito de propaganda – desapareceram, grande parte queimada em Berlim, em 1939.

Questionado sobre o critério de selecção dos três artistas, Álvaro Silva indicou que “todos são de origem judia, dois nascidos na Alemanha e um na Áustria, viram as suas carreiras interrompidas e a sua vida em risco, sendo forçados ao exílio na Grã-Bretanha, com o advento do partido nazi e o estalar da guerra”.

No Reino Unido, acabaram por fazer parte de movimentos artísticos e singrar na sua actividade criativa, “dois deles mais marcados pelo trauma do abandono da pátria e exílio forçado”, apontou, referindo-se a Erich Kahn e a Fritz Lowen.

Erich Kahn foi o mais marcado pelo Holocausto, “com várias obras que retratam figuras atormentadas, numa expressão interior indiciadora desta experiência traumática, e o único que esteve num campo de concentração”, apontou Álvaro Silva.

A exposição inicia-se com os trabalhos deste artista judeu nascido em Estugarda, em 1904, que se vê aprisionado no campo de concentração de Welzheim, nos arredores de Estugarda, em 1938.

Após o encarceramento de cinco semanas, saiu em liberdade com a condição obrigatória de abandonar a Alemanha num período de seis meses, chegando a Londres em Julho de 1939, semanas antes do início da Segunda Guerra Mundial.

São apresentados desenhos a sanguínea, aguada, tinta-da-china, grafite e caneta, evidenciando-se quase duas centenas de diários que o artista cobriu integralmente com desenhos a partir da década de 1950, até à sua morte, em 1980.

Por seu turno, Eugen Hersch “tem um trabalho mais ligado à continuidade da vida, num momento histórico a tornar-se pacífico, com uma representação humana celestial”.

Nascido no seio de uma família judia na capital alemã, em 1887, Eugen Hersch fez a sua formação na Academia Imperial de Artes de Berlim, destacando-se a sua formação clássica em desenho, pintura e gravura.

Com a vida cada vez mais dificultada para os judeus no regime nazi, tornou-se impossível para Hersch trabalhar na Alemanha e, com a ajuda do filho, estabeleceu-se no Grã-Bretanha, com a mulher, em 1939. No pós-guerra reconstruiu lentamente uma carreira de sucesso como artista e professor, tornando-se membro da Royal Society of Portrait Painters.

Fritz Lowen “consagrou-se nas artes publicitárias, e acabou por desenvolver uma carreira de sucesso nesta gramática, ao tornar-se bastante activo na propaganda contra o regime nazi através do seu trabalho”, apontou o curador à Lusa.

Judeu nascido em Viena, em 1893, Lowen destacou-se com as suas ilustrações para publicações de livros e revistas de reconhecidos grupos editoriais, mas com o advento da perseguição nazi, mudou-se para a Grã-Bretanha, em Julho de 1937, trabalhando na mesma área.

O seu reconhecido trabalho, enquanto artista publicitário, ilibou-o dos campos de internamento, a que os exilados no Reino Unido foram sujeitos em 1940.

A exposição “Geração Esquecida” – com obras da Associação Coleção Berardo – tem inauguração marcada para as 18:00 de quinta-feira, no Bacalhôa Adega Museu, em Vila Nogueira de Azeitão, distrito de Setúbal.

AG

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