Todos os anos, quando são apresentadas as contas do Município do Montijo, ouvimos a mesma narrativa: os executivos congratulam‑se com o saldo de gerência, apresentando-o como prova de rigor, estabilidade e boa gestão. Mas esta leitura, repetida quase mecanicamente, ignora o essencial: um saldo de gerência elevado não é, por si só, um indicador de boa gestão. Muitas vezes, é precisamente o contrário.
O saldo de gerência representa aquilo que ficou por fazer. É a diferença entre o que foi orçamentado e o que realmente se concretizou. Quando sobra muito dinheiro, isso significa que não se executaram obras, não se reforçaram serviços, não se cumpriram compromissos. O dinheiro existe, mas não chega às pessoas. E isso não é rigor: é incapacidade de transformar recursos em resultados.
No Montijo, esta realidade tem sido particularmente evidente. Orçamentos ambiciosos são aprovados ano após ano, mas a execução fica aquém do prometido. Projetos anunciados não avançam, equipamentos ficam por concluir, respostas sociais são adiadas. E no final, o que sobra é um saldo de gerência que o executivo tenta apresentar como medalha de mérito, quando deveria ser motivo de preocupação.
A verdade é simples: se sobram milhões, é porque ficaram milhões por fazer. Ficaram ruas por requalificar, escolas por melhorar, espaços públicos por cuidar, equipamentos culturais e desportivos por concretizar. Ficaram oportunidades perdidas para melhorar a vida das pessoas.
O saldo de gerência não é um troféu político. É um espelho. E o que este espelho mostra é um município que arrecada receitas, mas não consegue transformá‑las em investimento. Mostra executivos que prometem muito, anunciam muito, mas concretizam pouco. Mostra uma gestão que se habituou a confundir estabilidade financeira com imobilismo.
O Montijo não precisa de saldos gordos. Precisa de execução, planeamento, capacidade de concretização. Precisa de uma autarquia que não se limite a gerir dinheiro, mas que gere soluções. Que não acumule folgas, mas que acumule resultados.
A população não vive de saldos. Vive de obras feitas, serviços reforçados, respostas concretas. E é isso que deve ser exigido: que o orçamento municipal seja um instrumento de ação, não um exercício de contabilidade.
O que falta no Montijo não é dinheiro. O que falta é execução.