Na madrugada do dia 23 de janeiro de 1973, “uma quadrilha de assaltantes percorreu várias artérias da cidade, um mês e meio após outra onda de vandalismo ocorrida em 13 de dezembro de 1972. Foram detidos três menores do sexo masculino, considerados os autores: dois de 11 e um de 10 anos de idade. Os menores foram detidos e enviados a Tribunal”.
É com estas palavras que O SETUBALENSE da época dá conta das informações recolhidas junto das autoridades locais, a propósito de duas ondas de assaltos seguidas. Estávamos a pouco mais de um ano da Revolução de 25 de abril de 1974.
Vale a pena continuar a acompanhar em direto, por vários números do jornal, o relato deste caso, para se ter uma ideia de como o salazarismo-marcelismo e as autoridades locais encaravam as crianças das classes populares empobrecidas durante os 48 anos do chamado estado-novo. Continua O SETUBALENSE na edição do dia 24 de janeiro de 1973:
“Os rapazes de 10 e 11 anos de idade já possuíam largo cadastro, na polícia e no tribunal, continuando a ser vistos na rua, entregues à sua vida desregrada. Oito estabelecimentos foram assaltados. Os buracos dos vidros das portas quebrados por onde entraram apresentam dimensões de 15 por 25 centímetros, o que significa tratar-se de indivíduos com condições físicas idênticas às dos menores incriminados”. Dois de 11 e um de 10 anos de idade.
Repare-se agora no tipo de estabelecimentos assaltados, sempre nas palavras do jornal e com base em informações fornecidas pelas autoridades e outras fontes:
“Casa de Malhas e Artigos para Crianças: Sapataria Mundo do Calçado: Armazém de Mercearias: Mini-mercado: Cafés Ribatejano e Diamantino, ambos localizados no Mercado do Livramento… Estabelecimento de pronto-a-vestir, onde, segundo informações do gerente, os assaltantes vestiram roupa nova, deixando a usada, mas tendo o cuidado de usar a sala de provas que, por sinal, ficou com manchas de sangue, visto se terem cortado nos vidros ao entrarem no estabelecimento”. Três assaltantes. De 10 e 11 anos de idade!
Mais à frente ficamos a saber que pelo menos um dos três miúdos morava num dos 22 bairros de barracas que albergavam um quarto da população da cidade por volta de 1970, segundo um Relatório interno da Câmara Municipal. Sobre as circunstâncias das detenções que aconteceram rapidamente: um de 11 anos de idade foi capturado “quando se encontrava dentro da Mercearia A Barateira”, enquanto os outros dois, de 10 e 11 anos respetivamente, foram “detidos quando se encontravam no interior de um estabelecimento de fazendas, no Bairro da Camarinha, quando tinham já preparada uma trouxa com cobertores e outras roupas”.
Para concluir, há que recordar o que o regime fascista tentava esconder com total violência e que está por detrás desta história. Após a escola primária, a maioria das crianças ia trabalhar, ou ajudar os pais, ou ficavam ao deus-dará, descalças e de roupa remendada. Com a precaridade dominante, o desemprego sazonal, a falta de estado social, grassava a fome em muitas casas, a começar pelas barracas: a mendicidade era obrigatória e as crianças eram quem garantia muitas vezes a sobrevivência da família. Famílias numerosas e pobres, como Salazar apreciava e apregoava. Com cinco, dez, doze filhos, em que uma parte morria à nascença ou logo a seguir, sem cuidados.