23 Maio 2024, Quinta-feira

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Não estamos cá só para bater palmas

Não estamos cá só para bater palmas

Não estamos cá só para bater palmas

Em março próximo, deixarei o Parlamento e cessarei a minha comunicação convosco aqui n’O Setubalense, ao qual desde já agradeço, bem como a todos que dedicaram alguns momentos da sua vida a ler as minhas palavras. Sairei da Assembleia da República e terminarei o meu mandato como deputada por Setúbal com a mesma convicção com que entrei e comecei. É na Assembleia da República que a democracia reflete as suas conquistas e os seus retrocessos e é na defesa dos interesses para a qual um determinado círculo eleitoral nos mandata, que a representatividade do processo democrático se materializa.
Poucos sítios no mundo terão a conjugação tão abençoada de serra, mar, praia, fauna e flora que torna especial e única a Península de Setúbal. Mas Setúbal não é, infelizmente, só beleza. Pelo contacto direto, na dimensão da vida quotidiana, da rua, das compras, dos transportes e do espaço público, fui-me apercebendo das vulnerabilidades e das dificuldades das pessoas. Enfim, do potencial perdido. Apercebi-me da necessidade de um novo diálogo e da urgência de algo que tenho acarinhado muito em todo o meu percurso parlamentar: a mudança. Setúbal precisa mudar. É preciso ultrapassar o velho conceito de que aqui é apenas a “Outra Banda” ou a “Margem Sul”. Há todo um mundo (e um mar, já agora) de potencialidades aqui. Haja mudança. Batalhei para ajudar o Partido Socialista, em Setúbal, a nunca abdicar da exigência de modernidade e de capacidade de adaptação na prática política. Em consciência e sem falsa humildade, não posso evitar uma sensação de dever cumprido.
Nunca deixarei de fazer o elogio da política, do seu exercício e da defesa dos que lutam diariamente também através da feitura das Leis, para melhorar o País. Os anos em que estive no Parlamento foi um tempo de muitas batalhas (reflexo, aliás, da própria vida). Desde a despenalização da IVG à despenalização da eutanásia, passando pela defesa intransigente de um SNS universal e tendencialmente gratuito, com crises e pandemias pelo meio, a atividade parlamentar mostrou-me a importância da dedicação à causa pública. Para título deste artigo, escolhi uma frase que proferi em tempos, em contexto parlamentar. Proferi-a não tanto por indignação, mas mais por afirmação de coerência – algo que prezo muito na minha vida – e por acreditar que a inquietude institucional e o inconformismo são vetores fundamentais quando falamos de leis e de atividade política.
Em todos os aspetos da nossa vida, a coerência entre o que se faz e o que se defende é um valor insubstituível. Quem entra para a política, deve estar mais consciente de que essa coerência, mais do que um imperativo ou um preço a pagar, tem de ser entendida como um requisito.
Continuo pronta para lutar por aquilo em que acredito. Reconheço que recusei sempre o medo da mudança e tratarei agora de aplicar a mim mesma a receita que exorto os outros a seguir.
A todos, na AR e em Setúbal, agradeço o carinho, que levo comigo. Até já.

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