Estacionamento na Península de Setúbal: quando o problema não é apenas falta de civismo

Estacionamento na Península de Setúbal: quando o problema não é apenas falta de civismo

Estacionamento na Península de Setúbal: quando o problema não é apenas falta de civismo

16 Outubro 2026, Sexta-feira
Deputado Municipal no Montijo pelo LIVRE

Quem circula pelos bairros consolidados da Península de Setúbal conhece a paisagem: carros em cima dos passeios, em segunda fila, nas passadeiras, nas esquinas, nos espaços que deveriam ser de todos. Não se construíram parques a preços acessíveis, não existiu uma aposta municipal séria em alternativas de mobilidade coletiva, suave e pedonal, não se organizou o território para desincentivar o uso do automóvel.

É um problema geral e agudo. Para alguns, a solução é mais fiscalização, mais polícia, mais coimas, com o alvo na correção dos comportamentos individuais. Contudo, partindo de um diagnóstico errado, a medida criará injustiças e desviará a atenção do essencial.

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Qualquer política pública séria tem de ser desenhada a pensar em pessoas reais, com os seus constrangimentos e limitações, e não em cidadãos ideais, com recursos infinitos de paciência, tempo, respeito pelo outro e pelas regras.

Nestas situações há quem resista e procure cumprir as regras, mesmo quando isso torna a sua vida mais difícil. Há, por outro lado, quem vá sempre um pouco mais longe e abuse da realidade que encontra, estacionando em locais cada vez menos aceitáveis. Ambos pertencem a minorias.

Quem cumpre vive uma dupla penalização: estaciona longe e faz o resto do percurso num território não pensado para deslocações rápidas e seguras sem automóvel, e convive com o sentimento de injustiça de ver o seu esforço política e socialmente desvalorizado. Quem abusa vai deslocando as margens do que é visto como normal ou tolerado, normalizando cada vez mais desordem. A maioria ajusta-se à realidade que encontra. Regula o seu comportamento pela normalidade, mesmo quando esta lhe desagrada e implica prevaricar ocasionalmente.

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O regime de correção pela força parte de um equívoco: o de que o problema é sobretudo a falta de civismo individual. Há, de facto, uma minoria cujo comportamento abusivo deve ser censurado, mas a maioria procura apenas escapar à dupla penalização que a realidade lhe impõe.

Disciplinar pela força, é ignorar que o problema é estrutural e combater os sintomas como se fossem causas. É fazer recair o peso da fiscalização sobre quem não tem alternativas: quem não tem garagem, quem não pode pagar estacionamento privado, quem depende do carro para trabalhar. Acabará por acentuar sentimentos de injustiça que já fazem parte do quotidiano de muitas comunidades.

A situação exige medidas integradas: parques a preços acessíveis; investimento real em transporte coletivo, mobilidade suave e espaço pedonal seguro; um planeamento urbano que responda à pressão demográfica, mas torne o carro uma opção e não uma necessidade; o reforço da fiscalização; e a libertação e valorização gradual do espaço público, para que crianças, idosos e quaisquer outros cidadãos voltem a sentir os benefícios de estar na “rua” em frente da sua casa e comecem a exigir bairros pensados para a qualidade de vida.

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