3 Outubro 2023, Terça-feira
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Os novos portugueses

Basta sair à rua para perceber o que Portugal mudou nos últimos anos, em termos populacionais, como consequência de dois fatores interligados, o turismo e a imigração, dois importantes esteios da situação económica atual que, embora bem distintos, estão interligados na atual realidade portuguesa. Sem turismo haveria muito menos imigrantes, pois, são estes que nos permitem dar resposta às crescentes necessidades de mão de obra que hotéis, restaurantes e toda a sorte de estabelecimentos e atividades que vivem do turismo necessitam.
O turismo, para além dos aspetos económicos, tem efeitos multiplicadores na cultura e hábitos de vida e é um acelerador de transformações várias, linguísticas e comportamentais, entre outras, fruto da amálgama relacional que proporciona. A emigração/imigração são dois potentes instrumentos de progresso que, desde os tempos mais recônditos, fizeram avançar as sociedades.
De 2012 a 2023, segundo dados da Pordata, Portugal acolheu 625999 imigrantes, dos quais cerca de 60% homens e 40% mulheres. De acordo com o relatório Imigração, Fronteiras e Asilo do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), publicado em 2022, estavam registados 781915 imigrantes, mais 11,9% do que no ano anterior, 52,4% homens e 47,6% mulheres. Do total, 77,1% são população ativa, 9,3% têm mais de 65 anos e 13,6%, menos de 20 anos.
De acordo com a mesma fonte, no distrito de Setúbal, cuja população é de 879806 pessoas (censo de 2021), estavam em 2022 registados 66901 imigrantes, 49,6% homens e 50,4% mulheres, correspondendo a 7,6% da população.
Como estes números se referem apenas à imigração legal e é sabido que o número de ilegais tem crescido, não é difícil supor que haja mais de um milhão de pessoas estrangeiras a viver em Portugal, o que significará que, já hoje, mais de 10% da população é constituída por imigrantes. Este fenómeno é tão significativo que já existem povoações onde o número de estrangeiros supera o de nacionais, circunstância que para além do impacto cultural, tem implicações profundas ao nível dos serviços, particularmente educação e saúde.
Onde este problema é mais visível é nas zonas rurais onde a agricultura intensiva reclama mão de obra abundante e pouco especializada, para onde acorrem milhares de homens e mulheres, as mais das vezes recrutados por redes internacionais mafiosas, sem que empregadores e autoridades tenham ainda encontrado formas de impedir o florescimento do tráfico e a exploração inumana de muitas criaturas aliciadas por promessas de trabalho e remunerações enganosas.
O crescimento rápido da imigração tem desencadeado fenómenos diversos na sociedade portuguesa, desde logo, a ideia de alguns de que os imigrantes estão a tirar o emprego aos portugueses, que o crime tem como protagonistas mais estrangeiros, que a nossa cultura está a ser abastardada por hábitos, vestes e comportamentos que nada têm a ver com a nossa tradição. Mas há outra perceção, bem diferente e positiva, sem imigrantes a economia não funcionaria, a multiculturalidade é sempre um fator positivo face à excessiva endogamia das sociedades fechadas e com a taxa de natalidade das famílias portuguesas em declínio é um bálsamo que os imigrantes e suas famílias aqui se fixem e contribuam para uma nova geração de portugueses.
Os dados disponíveis não permitem leituras desagregadas, pelo que não é muito fácil aprofundar o conhecimento destes fenómenos a nível local e regional, embora seja da maior importância trabalhar para se poder perspetivar o futuro, neste caso de Setúbal, município e região, por forma a antecipar o futuro, que tem de ser encarado na lógica da integração e da fixação destes novos portugueses que estão a contribuir para forjar um país diferente, cultural e linguisticamente mais diverso e economicamente mais desenvolvido.

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