6 Outubro 2022, Quinta-feira
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A guerra em nós

Para os mais jovens, a inflação era – há muito – um vocábulo em desuso. Um complexo conceito, estudado de forma minuciosa, cuja última aparição com reais consequências na vida dos cidadãos, remontava em Portugal a 1984.

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Nenhum estudo nos prepara para a dureza da realidade. A invasão da Ucrânia, por parte da Federação Russa, materializou um raríssimo compasso na história de equilíbrios geopolíticos, que só blocos fortes conseguem suportar. Esta é a teoria por trás das atrocidades que, nos últimos 200 dias, cá longe, as televisões trouxeram a nossas casas, inflamando os nossos corações em revolta e dando corpo a um sentimento de “unidade ocidental”, face à desumanidade e ao sofrimento.

Todavia, os conflitos prolongam-se – invariavelmente – para além dos nossos desejos e primeiros instintos. As sanções económicas, inicialmente aplaudidas, produzem tremendos impactos que a propaganda russa já não pode esconder, não obstante produzirem um efeito boomerang que, quando realmente afetam as nossas vidas, colocam à prova a verdadeira força da nossa solidariedade. Todos sofremos ao testemunhar o sofrimento ucraniano, mas quantos estão dispostos a sofrer e por quanto tempo?

Os aumentos dos preços dos bens alimentares essenciais, dos combustíveis, da eletricidade, do gás, das rendas e das prestações degradam a qualidade de vida de qualquer português com vencimento médio, o que em rigor representa a vastíssima maioria de nós. As medidas mais ambiciosas para combater este flagelo exercem um perigo difícil de explicar. Encharcar a economia com dinheiro, ainda que orçamentalmente viável, levaria Portugal a uma exposição excessiva inerente ao peso da sua dívida pública. No curto prazo, teremos de revisitar os mercados para readquirir cerca de 60 mil milhões de euros de dívida que Mário Centeno soube – com méstria – reperfilar e, neste contexto, assegurar juros baixos nos mercados financeiros, representa muito mais que quaisquer caprichos, truques ou narrativas.

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A verdade vive sempre para além do óbvio. Regar a inflação com um colossal fluxo de apoios às famílias e empresas conduziria a nada mais do que muito mais inflação. O equilibro é complexo e o Governo pautou bem a sua intervenção. Contas certas são o garante de que, quando a solidariedade europeia sucumbir ao egoísmo e frieza do inverno Alemão e Francês, à previsível vitória da extrema-direita italiana, Portugal poderá fazer da sua localização geográfica um baluarte de resistência.

Quem tem paz, Sol, o Porto de Sines e um líder, reconhecidamente, capaz de nos defender, nos mais elevados palcos mundiais, que pauta a sua atuação pela solidariedade e otimismo, em detrimento do castigo e da austeridade, pode não ter tudo, mas tem meio caminho andado para resistir e superar.

Os 2,4 mil milhões de apoios farão muito mais por nós do que qualquer pancada, dada por uma oposição perdida na urgência de se mostrar viva a cada momento. As contas certas, por outro lado, garantirão que não voltaremos a ficar ao sabor da vontade dos frugais europeus.

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Não existe vacina para a inflação, nem para os seus terríveis efeitos, porém a verdade e a taxação dos lucros excessivos que a guerra gerou em certas empresas, constituem deste mal uma virtuosa prevenção.

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