7 Julho 2022, Quinta-feira
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Já que Presidentes em viagem não param: Viva Timor!

Estavam as eleições em Timor à porta, não tardaria a passar um ano sobre a auto demissão de Pedro Bacelar de Vasconcelos do cargo que ocupava na Adminstração Transitória daquele território, incompatibilizado, segundo o próprio, com uma “visão vagamente neo-colonial, que resulta desse conúbio entre o politicamente correcto académico americano e a atitude de Indiana Jones em cenários exóticos” (Público de 26 de Dezembro de 2000). E assim, então, fomos impelidos a retomar a abordagem do Relatório que, sob o título “Rumo à Vitória – as tarefas do Partido na Revolução Democrática Nacional”, Álvaro Cunhal apresentou em Abril de 1964 ao Comité Central do PCP, o qual, um ano depois, viria a servir de base ao Programa que o Partido passou a adoptar, no VI Congresso (Edições “A Opinião”, 1974).

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“Nós apoiamos na medida das nossas forças a justa luta dos povos das colónias portuguesas, cumprindo assim a um tempo o nosso dever internacionalista e o nosso dever de patriotas portugueses…” – escreve-se a dado passo. – “Tudo fazemos e faremos para que o mais breve possível se juntem à constelação dos estados africanos independentes Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde, que escolha livremente o seu destino o Povo de Timor, que se junte à mãe pátria, à China, o povo de Macau… Estes povos combatem, tal como o povo português, um mesmo inimigo comum: o governo fascista de Salazar, ao serviço dos monopólios nacionais e estrangeiros”.

Nas referências que lhe fez Albano Nunes, do Secretariado do Comité Central do PCP, na edição do “Militante” de Novembro/Dezembro de 1999 (“Timor-Leste a contra-corrente”), há todo um conjunto de referências de notável alcance. Assim, por exemplo, ao mesmo tempo que o PCP sempre considerou Goa, Damão e Diu como “parte integrante da Índia, apoiando a sua incorporação na União Indiana”, a indeclinável defesa de princípio do direito à autodeterminação e independência no caso particular de Timor, a partir de uma “análise própria do Partido”, teve um percurso peculiar. Com efeito – naturalmente antes do golpe militar fascista de Suharto responsável por um dos maiores banhos de sangue de sempre que a história contemporânea regista (pode ter chegado a um milhão de assassinatos, segundo fontes da própria Casa Branca, agora “reveladas”) – o PCP não prescindiu de uma prévia consulta ao grande e influente partido irmão, o Partido Comunista da Indonésia, dizimado, no espaço de uma noite, naquela carnificina apoiada pelo imperialismo norte-americano.

Albano Nunes escreve ainda que “o movimento de libertação nacional da Indonésia, que saibamos, não questionou a especificidade nacional do povo de Timor-Leste, e a proclamação da independência da Indonésia em 1949 fez-se em territórios colonizados pela Holanda, sem reivindicações territoriais em relação à então colónia de Portugal”.

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O que nos conduz de imediato a um outro escrito de 1971 e editado em Paris em 1972, sob o título “Le Portugal Baillonné”, que a Arcádia, em Portugal, lançou em 1974: “Portugal Amordaçado, depoimento sobre os anos do fascismo”, de Mário Soares.

Não só, a páginas 457 da edição portuguesa, Soares trata Timor como “uma ilha indonésia com bastante pouco a ver com Portugal”, num claro paralelo com Macau onde este território é definido como “simples empório encravado na China à mercê da boa vontade desta”, como ainda na 503 dita-lhe um “estatuto” similar, onde a vertente integracionista não podia ser mais desnudada com a alusão – numa óptica bem distinta da do PCP, claro – à “tragédia da Índia”: “repetir-se-á, com proporções muito mais calamitosas ainda!”.

É verdade que víramos Soares condenar Clinton e os Estados Unidos como “polícias do Mundo” acerca da guerra na Jugoslávia, perpetrada pela OTAN de Salazar, mas não sem cedo augurar, na eleição do mesmíssimo Presidente dos USA, a emergência de uma nova e pragmática classe política universal, desprendida da lógica dos blocos antagónicos e, por conseguinte, fautriz não de guerra mas sim de paz! Por isso, das tintas que se trocam voltemos às nossas análises.

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Alterações profundas tinham ocorrido no Mundo, onde o campo socialista se desmoronou. Mas o quadro em que se concretizaram a independência da Timor, liderada pela FRETILIN, e a transferência de Macau para a China Socialista (para limitarmo-nos a uma área geográfica específica e a um tempo histórico muito mais recente) fica-se a dever à correlação de forças a nível mundial que, em 1974, não impediu que a Revolução do 25 de Abril vingasse no mais ocidental dos países capitalistas do continente europeu (Resolução Política do VIII Congresso do PCP, Novembro de 1976).

Uns mais do que outros pensaram e escreveram sempre da mesma maneira, coerentemente.

Nesta retoma, que Presidentes em viagem não param: Viva Timor!

Comentários

Valdemar Santos
Militante do PCP
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